Às vésperas de mais um dia internacional da mulher, duas chamam a atenção da cena mundial no início de março de 2012. A primeira ministra alemã Angela Merkel e a presidente Dilma Rousseff protagonizam, nesses dias em homenagem às mulheres em todo o mundo, o desenho da arquitetura econômica de um sistema internacional marcado por crise financeira e social.

A visita oficial da presidente brasileira ao país germânico permitiu perceber a confiança com que lida a mandatária com os temas atinentes ao que chamou de ‘tsunami financeiro’. Fenômeno deletério gerado pela enxurrada de emissões monetárias dos europeus e norte-americanos nos últimos anos – em torno de 9 trilhões de dólares, 4 vezes o PIB do Brasil – tais práticas estariam empurrando países emergentes como o nosso para o inferno cambial. Ganhou aplauso de seus compatriotas ao ter expressado, mesmo em palavras mais leves na passagem por Hannover, que o Brasil está atento ao fenômeno e responderá aos egoísmos nacionais da Europa com egoísmo econômico do lado de cá.

Por outro lado, a chanceler alemã soube responder, em alto estilo, que o protecionismo brasileiro é anterior e concomitante ao movimento de apoio aos bancos europeus. E que estamos prejudicando também a indústria alemã com os impostos interpostos recentemente sobre automóveis importados e partes. Mas demonstrou Merkel interesse em levar em conta as implicações externas das saídas fiscalistas e expansionistas financeiras para a crise que abala o euro.

Como em quase tudo na diplomacia econômica internacional, nada se resolverá no curto prazo. Há um tempo mais dilatado que envolve internalização gradual dos acordos e conversas na governança global. Nada mudará imediatamente, mas essas fortes mulheres desenham um movimento importante de diálogo e cooperação de dois países chave, um no Norte, outro no Sul, com responsabilidades crescentes na governança global. Bom para elas, excelente para nós, do lado de cá do mundo, atropelados pela desindustrialização de nossas compras de consumo fácil.

O que importa, no plano simbólico, é que duas mulheres fortes da política internacional, Angela e Dilma, reconheceram e expuseram, nesse mundo de homens que governam o mundo, apreensões ante as condições de deterioração econômica que acometem várias partes do globo. E estão propondo caminhos, embora nem sempre convergentes.

Há  apreensão de ampliação do espectro da crise, ampliando seu raio para além da zona euro. Os dados declinantes do crescimento chinês – a crescer abaixo de dois dígitos nos próximos anos, em declínio até 2030, conforme publicado pelos economistas da China e pelo Banco Mundial nesses dias – é preocupante para europeus e latino-americanos. Afinal, precisamos exportar commodities para a Ásia para equilibrar a balança comercial que se deteriora em valor agregado.

O elogiável no momento é que as duas líderes mundiais, enfrentando cada uma, constrangimentos ao crescimento sustentável e sustentado de suas regiões maiores, lá a Europa ocidental e aqui a América do Sul, demonstraram alta responsabilidade com os destinos do mundo. Elas parecem trilhar caminhos adequados, embora a agulha magnética ainda não tenha um eixo comum.

José  Flávio Sombra Saraiva, PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (jfsombrasaraiva@gmail.com).

1 comentário »

  1. Numa semana em que a imprensa se desdobra para homenagear a mulher, já ando cansada do bordão “cada vez mais elas ocupam espaços”. Espaços tradicionalmente masculinos, querem dizer. Não deveria ser mais novidade. Basta perceber nas mãos de quem está o bem-estar na economia mundial: Rousseff e Merkel. Com todo respeito aos meninos, brilhante!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.