Américas

A diplomacia cultural dos festivais latino-americanos de cinema, por Andressa Saraiva Ternes

O desenvolvimento da atividade cinematográfica de um país não é um debate que se encerra nas salas dos cursos de Cinema. Desde o início do século XX, o olhar latino-americano para a grande tela tem sido intensamente submetido às produções norte-americanas. A formação de público para as obras nacionais esteve sempre atravessada por associações entre produtores e distribuidores estrangeiros e exibidores nacionais. Assim, consolidaram-se fluxos de transmissão de valores na constante construção cultural dessas sociedades de tal forma que a contrapartida nacional deste processo precisou pensar em padrões de mercado como uma das condições para amplificar sua voz.

Em virtude do elevado grau de entrelaçamento cultural decorrente destes fluxos e da ampla discussão sobre a importância da cultura para um país, o citado debate passa a dialogar com as Relações Internacionais. Nesse sentido, ganha importância para esta área o crescimento dos festivais latino-americanos de cinema voltados a inserir o cinema no espectro da integração regional latino-americana.

Os festivais são, indiscutivelmente, importantes telas de exposição para os filmes e seus países. A separação (2011), filme do diretor iraniano Asghar Fahardi e sucesso de crítica internacional, cuja estréia no Brasil, em janeiro do corrente ano, se deu após a conquista do Urso de Ouro e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro é o exemplo mais recente de uma relevância que já se manifesta há mais de meio século. São inúmeros festivais espalhados pelo mundo, abrigados por países cultural e economicamente diferentes entre si.

Em 2006, o Fórum dos Festivais, com apoio do Ministério da Cultura e coordenação de Antonio Leal e Tetê Mattos, produziu um diagnóstico setorial dos festivais brasileiros de cinema (nacionais e internacionais) no qual constatou-se que de 1999 a 2006 o número de eventos audiovisuais (mostras e festivais de vídeo e cinema com proposta de periodicidade regular) triplicou, saltando de 38 para 132 (LEAL; MATTOS, 2009). Em um projeto mais recente, Júlia Nogueira, jornalista e mestre em estudos cinematográficos latino-americanos, visando cumprir a importante tarefa de catalogação, desenvolveu o Guia FALA – Guia de Festivais Audiovisuais Latino-Americanos, lançado em outubro de 2011, trazendo uma série de informações acerca de 595 festivais de toda a região. Destes dois grupos de festivais percebe-se a expressão de um terceiro. Na América Latina vem crescendo a adoção de sufixos que caracterizam os festivais como veículos de intercâmbios culturais, sobretudo, entre as sociedades latino-americanas, resultando em eventos muito mais que nacionais ou internacionais: latino, sul ou ibero-americanos.

Tão estratégico quanto conquistar os holofotes de Cannes, Veneza e Berlim, ou promover mostras e festivais brasileiros de cinema no exterior é construir caminhos para que as obras latino-americanas possam alcançar seu próprio público. Conforme sublinha Candeas (2000: 152), em sua dimensão antropológica, “a cultura compreende o conjunto dos elementos responsáveis pela organização sócio-econômica e pela fixação da identidade social e das aspirações coletivas.” Estes elementos, ainda de acordo com o mesmo autor, podem ser estáticos ou estruturantes, dinâmicos ou estruturados. Os primeiros relacionam-se aos aspectos mais enraizados de uma sociedade, conferindo-lhe referência existencial, como religião, tradições e idioma; os segundos compreendem variáveis de transformações sociais, mais facilmente transmitidos e assimilados por meio das diferentes ordens de intercâmbio entre os Estados e suas sociedades. Sabe-se que o alcance destes fluxos assumiu proporções irreversíveis, e seus canais de passagem são continuamente atualizados. Candeas conclui, portanto, que os desníveis tecnológico e político entre sociedades em interação fazem com que os elementos culturais fluam em um único sentido, gerando um processo de assimilação de valores cada vez mais silencioso e menos interpretativo.

Diante dessa realidade cultural dinâmica, não se indica como saída posturas isoladas fundamentadas em protecionismo e censura, mas alternativas contemporâneas que permitam a continuidade do desenvolvimento das capacidades humana e criativa das sociedades. A linguagem nas avaliações da classe cinematográfica vem carregada de noções próprias das Ciências Humanas e, por conseguinte, das Relações Internacionais. Manoel Rangel (2011: 19), diretor-presidente da Agência Nacional de Cinema (ANCINE), é enfático ao concluir que já é disseminada a compreensão da importância econômica, simbólica e cultural da indústria audiovisual para a expressão internacional de um Estado, o que justifica o investimento de diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento em políticas públicas culturais. Tal expressividade incita a um olhar interdisciplinar sobre o desenvolvimento da produção nacional. Dessa forma, reinterpreta-se o próprio papel do realizador audiovisual, cuja função é provocar novos olhares que contribuam para a autonomia nacional nas trocas culturais que cruzam o país. Para tanto, precisa estar apto a enxergar as potencialidades e limitações de assimilação da sociedade em que vive, aproveitando-se dos caminhos abertos pela tecnologia e amplamente utilizados pela população. Os cursos de graduação em Cinema não estão nas universidades federais por acaso. Estão para a sociedade como estão as demais carreiras; têm um papel relevante em uma perspectiva ampla de desenvolvimento do país.

Os festivais e mostras audiovisuais, de um modo geral, são partes importantes da cadeia produtiva cinematográfica. “Estudos demonstram que, onde acontece um festival, além da exibição, há também formação, reflexão, promoção, intercâmbio cultural, diversidade, articulação política e setorial, reconhecimento artístico, ações de caráter social (…)” (LEAL; MATTOS, 2010). Os festivais latino-americanos de cinema com proposta integracionista tornam-se essenciais não somente pela possibilidade de encontro de diversos públicos com as obras da região, mas também pelo espaço que proporcionam para o encontro de ideias, questionamentos, discussões, caminhos, vontades e recursos dentro de um contexto de aproveitamento do mercado ampliado pela integração regional. Muito mais que propor a pretensa unificação da região, estes festivais trabalham com possibilidades reais e necessárias de soluções conjuntas, partindo do princípio de que a classe cinematográfica precisa de seu público, antes de pensar no mercado externo, assim como o público regional precisa de imagens próprias, ainda que grande parte dessa população não saiba disso. Estes festivais de fato promovem diálogos entre os povos e buscam um desenvolvimento compartilhado. Um desenvolvimento que é, mutuamente, da sociedade e dos cinemas regionais.

Cumprem estes eventos, portanto, o papel da diplomacia cultural, campo que trabalha os fatores culturais nas relações internacionais com o intuito de conquistar, descartando o uso da força. É o exercício do poder brando. Mais do que expandir a cultura de um único país, a diplomacia cultural tem por essência a observação do outro, e seu êxito depende do diálogo intercultural e do respeito mútuo (DiploFoundation apud Saddiki, 2009). O Itamaraty entende que o papel da cultura no campo internacional é o de proporcionar aproximação e entendimento entre os povos, mostrando o que torna a cultura brasileira única e buscando renovar o que a faz diversa. Há mais de cinqüenta anos o Departamento Cultural do Itamaraty promove mostras de cinema brasileiro no exterior. Estes festivais, no entanto, são manifestações legítimas de vontade da sociedade civil de dialogar com o outro, e encontram na cultura não apenas seus meios, mas sobretudo seus fins. É a diplomacia cultural da sociedade civil, que não trabalha indiretamente para o governo, pois utiliza fundos de recursos culturais e mecanismos de renúncia fiscal para viabilizar financeiramente estas realizações.

Desde os festivais de maior alcance, como o Florianópolis Audiovisual Mercosul, o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, o CINESUL, até as iniciativas ainda pequenas, como o Oberá en Cortos, na Argentina, mostram um intenso trabalho organizado a partir de demandas da própria sociedade e um esforço para empreender diálogos e diversas parcerias. Quem já acompanhou algum destes festivais de perto tem a noção da atmosfera de compartilhamento que é criada. Não se pretende, no entanto, apontá-los como alternativas milagrosas aos entraves do audiovisual latino-americano. Quer-se destacar que o notável crescimento destes eventos expressa que as relações internacionais estão onde aparentemente não se espera que estejam, tomando a fala de profissionais que pouco sabem sobre Realismo, Idealismo, Interdependência ou Diplomacia Cultural, mas que solicitam uma atenção interministerial. É uma realidade que emana de uma parcela da sociedade, não um dever ser que parte das instituições governamentais. São pessoas que, apesar de todas as restrições encontradas pela integração regional, mostram uma vontade genuína de abrir portas, ainda que as senhas sejam em portunhol – ou talvez por isso.

 Referências

CANDEAS, Alessandro Warley. Cultura e desenvolvimento: em busca da humanização do crescimento econômico. Relações Internacionais e Desenvolvimento Regional. Brasília: Universa, 2000.

GUIA FALA – Festivais Audiovisuais da América Latina. Disponível em: < http://www.guiafala.com.br/&gt;. Acesso em 18 de fev. 2012.

LEAL, Antonio; MATTOS, Tetê. O papel dos festivais no Brasil (2010). Disponível em: < http://www.cenacine.com.br/?p=6070&gt;. Acesso em 18 de fev. 2012.

LEAL, Antonio. Festivais Audiovisuais Brasileiros: um diagnóstico do setor. Quinto Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Salvador, Faculdade de Comunicação/UFBa, 2009.

MINISTÉRIO das Relações Exteriores. Difusão Cultural. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/temas/difusao-cultural/cultura&gt;. Acesso em 18 de fev. 2012.

RANGEL, Manoel. Cinema e audiovisual no Brasil: no limiar de uma nova era. Seminário Novas Perspectivas para o Cinema e para o Audiovisual Brasileiro. Caderno de textos Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2011, p. 19.

SADDIKI, Said. El papel de La diplomacia cultural en las Relaciones Internacionales. Revista CIDOB d’Afers Internacionals, n. 88, 2009, p. 107-118.

Andressa Saraiva Ternes é mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (andressaternes@gmail.com).

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

4 comentários em “A diplomacia cultural dos festivais latino-americanos de cinema, por Andressa Saraiva Ternes

  1. George Sturaro

    Parabéns pelo seu criativo e instigante artigo, Dessa!

  2. Ricardo Ferdnand

    Quem sabe um dia excelentes filmes latino-americanos como o Aconteceu na Argentina ou o Vozes Inocentes, passe na tela quente. Quem sabe um dia gêneros musicais como bachata, cumbia, vallenato, salsa, entre outros, sejam escutados em rádios brasileiras, em vez de só músicas de países de língua inglesa. Quem sabe a diplomacia cultural conquiste um maior intercâmbio cultural entre os povos latino-americanos, e nós brasileiros possamos conhecer melhor nossos vizinhos, tão bem como é no futebol.
    I have a dream…

  3. Jonatan Müller

    Um ótimo artigo sobre um tema urgente. A integração vai muito além das questões políticas e econômicas. Sem integração cultural, qualquer tipo de regionalismo estará fadado à superficialidade e com os dias contados. Parabén Dê!!
    Estamos juntos nesse peleja, nessa ambiciosa construção de “nuestra América”!!!

  4. Artur Machado

    O artigo tem temática muito interessante. Parabéns.

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