A paz, a eterna quimera dos teóricos pacifistas, adormece nas estantes dos velhos livros. Desde o início da Era Moderna, na Europa em convulsões, linha importante de reflexão alimentou a idéia das relações internacionais como a busca do altruísmo entre povos e nações. Eram os idealistas da paz perpétua, a enxergar possibilidades no seio das contradições da nascença dos Estados modernos europeus e de suas lutas fratricidas.

Essa linha histórica segue, como um dever ético do estudioso, a buscar elementos na realidade que propiciem o argumento idealista. Há mesmo escolas pós-modernistas do hoje que sugere, no estudo da paz e da guerra, a hipótese de articular as duas dimensões em torno de um mundo mais previsível, menos inseguro, mais humano e percebido pelos atores em contenda como melhor e superior ao Estado de guerra. Nem tanto ideal, mas não tão brutal e desumano.

Analistas do Norte das relações internacionais seguem kantianos. Celebraram as conquistas da paz fracassada do Iraque. Imaginam tais teóricos que o discurso democrático ocidental trará adeptos importantes ao campo fraturado da guerra civil síria. Para nós, aqui do Sul, o que se vê é o trator militar que entra e sai da cena como caminho realista para esse equilíbrio de poder, sempre dos fortes, em favor do horror das guerras.

Dois fatos entrelaçariam a esperança da paz no ocaso do ano. De um lado, a saída das tropas norte-americanas da ocupação do Iraque. De outro, o ano transcorrido da Primavera Árabe. Seriam exemplos, em momento de reflexão natalina, de esforços da sobrevivência da quase importável arte de relacionar conflito e paz, no movimento da superação do insuportável, a garantir um novo estágio civilizatório para a convivência humana de contrários.

O caso de Bagdad já foi captado pela opinião pública mundial. Nove anos de ocupação militar do território iraquiano trouxeram mais insegurança que previsibilidade. A mentira das tais armas químicas guardadas a sete chaves pelo ditador foi o pretexto geopolítico e econômico para o controle do que de fato interessam aos Estados Unidos: os poços de petróleo, uma cancela na frente do regime do Irã e uma base segura para olhar a Ásia maior liderada pela China em seus novos desejos de retomada do que sempre foi: o centro do mundo.

Os militares norte-americanos deixam o Iraque, nesses dias cadentes do ano de 2011, mais inseguro e instável que aqueles dias heróicos de 2003, animados pelas câmaras da CNN, a registrar a tal salvação do povo iraquiano. A violência contra a violência deixou Bagdá nas mãos do inimigo dos Estados Unidos nesse fim de ano de 2012. Os governantes xiitas de Teerã já estão de olho na política do Iraque, também dominado por maioria xiita.

Pouca paz se espera para esse equilíbrio precário do chamado Novo Iraque. A paz dos cemitérios, semeado por guerra desproporcional contra Bagdad, apresenta resultados pífios e engendrou um novo mundo de insegurança interna no próprio Iraque e problemas ampliados para o mapa regional do Oriente Médio.

O segundo caso é emblemático. Justamente na semana das comemorações do ano da Primavera Árabe, na Praça Tahrir do Cairo, o Egito volta a ensangüentar suas mulheres. Elas voltaram às praças, a lembrar a mensagem do mártir de 2010, há exatamente um ano atrás. Não querem violência militar contra seus filhos e esposos. Não desejam uma paz de cemitérios a lembrar o Iraque inseguro. Reivindicam paz e a normalidade democrática. Ou apenas normalidade, até mesma dirigida pela Fraternidade Islâmica. Evocam o direito de criar seus filhos em paz. Ou simplesmente o direito de ir e vir.

A resposta militar às mulheres da praça Tahrir é a violência de um regime que não mudou com as eleições. Se para elas o desejo é apenas a normalidade, seus filhos querem mais. Há desemprego, preços estratosféricos de alimentos, os serviços não funcionam. Seus filhos querem mover-se no futuro como uma identidade própria, não mais a de seus pais apaixonadas pela ordem guardiã dos antigos nacionalistas pan-arabistas. Querem ir ao mundo, querem celebrar uma nova forma de paz, não organizada contra eles, mas com eles, os jovens da paz que tarde nasce nesse Natal do mundo convulsionado.

José  Flávio Sombra Saraiva, PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (jfsombrasaraiva@gmail.com).

3 comentários »

  1. Na minha aula sobre RI lemos esse texto e discutimos sobre ele, muito bom, afinal se o mundo fosse feito de conformismo somente não estaríamos aqui compartilhando ideias provavelmente

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