Antes de discorrer sobre o conflito de Nagorno-Karabakh é preciso proferir algumas considerações sobre a região. Nagorno-Karabakh é um enclave situado no sudoeste do Azerbaijão. Nagorno é uma palavra de origem russa que significa “montanhoso” enquanto Karabakh é um vocábulo turco-pérsico que significa “jardim negro”, assim o próprio nome já representa uma fusão de culturas.

O território foi povoado há centenas de anos por armênios e por povos túrquicos que exerciam o comércio e pastoreio. A luta pelo controle do enclave acontece entre armênios étnicos de origem cristã e por azerbaijanos de origem muçulmana. Atualmente a maioria da população é de etnia armênia.

O Nagorno-Karabakh foi assimilado pelo Império Russo no século XIX. Em 1805, foi assinado o tratado de Kurekchay que instituiu o protetorado russo, o novo status foi reconhecido pela Pérsia pelo tratado de Gulistão, de 1823, e novamente quando toda a região transcaucasiana foi incorporada pela Rússia pelo Tratado de Turkmenchay, de 1828.

Armênios e azeris, como também são conhecidos os azerbaijanos, viviam em harmonia até o advento da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Bolchevique que viriam a desestabilizar a região. A queda do império russo durante a Primeira Guerra Mundial permitiu aos países da região declararem a independência, primeiro como República Federativa Democrática Transcausiana e posteriormente como unidades divididas da seguinte forma: Armênia, Azerbaijão e Geórgia.

O império russo reorganizado sob o nome de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), após a Revolução de 1917, inicia a sovietização do Cáucaso. Joseph Stálin era o encarregado do Kavburo (escritório soviético para o Cáucaso). Como parte da sua política de dividir para governar, os soviéticos tornaram Nagorno-Barabakh uma região autônoma. Além disso, devido a preocupações em relação à Turquia, Moscou optou por deixar o enclave sob controle do Azerbaijão.

As tensões no território ficaram adormecidas por anos devido a repressão soviética. No entanto, elas ressurgiram impetuosamente durante as décadas de 1980 e de 1990. Em 1988, o parlamento local aprovou a união com a Armênia, desencadeando um conflito que se prolongou por seis anos (1988 a 1994). Em 1990, acontece o Janeiro Negro, batalha em que mais de cem pessoas morreram entre azerbaijanos e tropas russas.  Os armênios étnicos acusaram o governo do Azerbaijão de promover uma azerbaijanização do enclave, o que gerou uma considerável população de refugiados. Com o fim da URSS, a região se declarou independente ainda em 1991, todavia esse ato não foi reconhecido por nenhum Estado.

A violência aumenta quando a República Socialista da Armênia auxilia os armênios étnicos de Nagorno-Karabakh fornecendo armas. Embora não tenha havido uma declaração formal de guerra, pesados combates e violações de direitos humanos ocorreram em torno do território durante os anos de 1991 e 1994. Ambos os lados contrataram mercenários ucranianos, russos e até mesmo mujahideens.

Os azeris possuíam maior contingente de tropas e de material bélico, entretanto, essas vantagens não se traduziram no campo de batalha. O vácuo de poder no território permitiu um intenso tráfico de armas. Os armênios étnicos, que dispunham de parcos recursos e soldados, receberam ajuda da Diáspora Armênia (em sua maioria dos EUA) e da Armênia via Corredor Lanchin, enquanto que os azerbaijanos contaram com a ajuda de Israel, Irã, Turquia e outros países árabes.

A guerra foi vencida pelos armênios, resultando em 30 mil mortos e um milhão de pessoas refugiadas que ainda não retornaram as suas casas. A Rússia intermediou um cessar fogo (Protocolo de Bishkek). Esse acordo legou Nagorno-Karabakh aos armênios, bem como uma região no entorno do enclave. O conflito alterou a composição populacional da região, tornando ainda maior a parcela de habitantes armênios, que por esse motivo preferem chamar o território de Artsakh, nome que remonta 1.500 anos.

Desde o conflito, a Turquia e o Azerbaijão impõem um embargo e isolamento em relação à Armênia que dura quinze anos, todavia a Rússia mantém relações com governo armênio, contornando essa medida. A busca de uma solução pacífica para a região tem sido debatida pelo Grupo de Minsk (composto por EUA, França e Rússia) que monitora a situação. As negociações têm sido realizadas entre o Grupo de Minsk, Armênia e Azerbaijão.

Em 2006, foi realizado um referendo que aprovou uma nova constituição e que refere Nagorno-Karabakh como país soberano, a consulta foi declarada ilegítima pelo Azerbaijzão.

O Estado já possui governo estabelecido, Bako Sahakyan, eleito em 2007, substituiu Arkadiy Gukasyan que fora eleito por dois mandatos. A principal bandeira de Sahakayan é a obtenção de reconhecimento internacional da independência do território.

O processo de paz está em curso, os presidentes Serzh Sarkisian, da Armênia, e Ilham Aliyev, do Azerbaijão, concordaram em 2008 em alcançar uma acomodação política. Em maio e novembro de 2009, novas conversas foram realizadas promovendo progressos, mas em 2010 a região voltou a ser alvo tensões entre as partes.

Apesar dos avanços do processo de paz na região, é preciso ter em mente que o Cáucaso passa por uma corrida armamentista, no que tange ao conflito analisado, o próprio Azerbaijão despendeu US$ 871 milhões de dólares com o setor militar (valor quatro vezes superior ao da Armênia). Essas aquisições são financiadas pelas exportações petrolíferas à Turquia. Baku (capital do Azerbaijão), desde 2003, tem afirmado que, caso não se satisfaça com as negociações com Yerevan (capital da Armênia), e caso seja obrigado a renunciar ao controle de Nagorno-Karabakh e de outras seis províncias vizinhas, retomará esses territórios à força. Isso demonstra o quanto é frágil a paz nessa região.

Referências

 BBC. Regions and Territories: Nagorno-Karabakh. Disponível em <http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/country_profiles/3658938.stm>. Acesso em: 13/11/2011.

KALDOR, Mary. Conflicts in the Transcaucasus. Disponível em: <http://www.publications.parliament.uk/pa/cm199899/cmselect/cmfaff/349/349ap37.htm>. Acesso em: 13/11/2011.

KING, Charles (2008). The Ghost of Freedom: A History of the Caucasus. Nova Iorque: Oxford Press, 328p.

Leonardo Miguel Alles é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (leonardo.alles@hotmail.com)

4 comentários »

  1. Muito bom!! Os meus antepassados sao de Karabakh, trata-se de um território milenar Armênio.. Temos muitas igrejas antigas, lugares sagrados .. Por isso que vencemos a guerra, tinha por que lutar, apesar que exercito dos Azert-turcos era duas vezes maior..

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