No dia 22 de julho de 2011, ao explodir uma bomba próxima ao complexo governamental em Oslo e depois atirar à queima-roupa em jovens de um acampamento político do Partido Trabalhista na ilha de Utoya, Anders Behring Breivik deixou transparecer a intenção de atacar seus conterrâneos que compactuavam com uma ideia de sociedade multicultural e democrática. O terrorista ainda demonstrou uma aversão ao Islã, ao Marxismo e a todos os não brancos em seu manifesto publicado na Internet após as atrocidades.

O que levaria uma pessoa a cometer tais atos contra os próprios nacionais? Uma das repostas seria uma crise na ideia de pertencimento a uma nação. Uma possível motivação para tal seriam as atitudes governamentais frente aos imigrantes a fim de incluí-los nas discussões e na sociedade norueguesa, tais como a possibilidade de participação nas eleições municipais. Para um país que, ao longo de sua história, lidou com uma pequena imigração é um desafio integrar os atuais 12% de imigrantes (com diferentes culturas), sem que o restante da população sinta-se ameaçado.

A Europa, ao longo de sua história, exportou imigrantes para diversos cantos do mundo. Durante a época colonial, muitos europeus se dirigiram para suas colônias para povoá-las, outros, como vários ingleses, foram para a região que seria os Estados Unidos em busca de liberdade religiosa. Mais uma onda migratória significativa proveniente da Europa aconteceu na primeira metade do século XX, quando muitos fugiram do nazifascismo e de outras ditaduras.

 Contudo, a Europa se tornou um atrativo para imigrantes em meados do século XX, quando passou a ser vista internacionalmente como um lugar de prosperidade e oportunidades e de asilo político.  Assim, houve uma inversão na lógica migratória europeia, de uma região exportadora de pessoas para uma área receptora.

Diferentemente de um lugar como o Brasil, que recebeu povos de diversas localidades durante sua história. Assim, o país definiu sua identidade nacional em meio a uma grande miscigenação, considerando que, em seu território, habitavam pessoas de origens, credos e raças extremamente diferentes. Talvez por essa ideia de identidade mais abrangente o país pôde receber um número significante de imigrantes sem grandes problemas de adaptação.

A miscigenação é uma situação nova para a Europa decorrente do extenso fluxo migratório a partir da década de 1950. A experiência inédita de conviver com grande quantidade de pessoas tão diversas daqueles nativos “puros” afeta a noção de nacionalidade. Grande parte dos europeus tem sua identidade nacional fundada na origem, na religião e nas histórias comuns. A Polônia e a Alemanha, por exemplo, até hoje baseiam sua cidadania no sangue, de modo que uma pessoa só será cidadã desses países se possuir pelo menos um dos pais cidadão, e assim, sangue nacional. Na Europa, a ideia de nação está ligada a um grupo humano que compartilha da mesma cultura. Assim, é possível observar o desenvolvimento de um nacionalismo focado em componentes étnicos fundamentais. Esse discurso excludente e coletivista pode levar à xenofobia e ao autoritarismo.

Deste modo, a convivência com grande quantidade de pessoas não-europeias levanta questões complexas. Estender ou não a cidadania aos imigrantes e seus descendentes e como institucionalizar seus direitos são alguns dos desafios que os tomadores de decisão devem enfrentar.

A pergunta “o que é ser europeu em meio a uma sociedade repleta de imigrantes?” torna-se crucial, não só para os governantes, mas também para grande parte da população europeia. Por isso, os imigrantes podem ser considerados ameaças à integridade das identidades nacionais europeias. Já em um pensamento extremista como o que motivou o terrorista norueguês, a ameaça seria até política de modo que seria necessário alertar a Europa quanto a uma possível dominação islâmica.

Em meio à crise econômica na zona do Euro, os níveis de desemprego se elevaram. Isso gera mais uma preocupação relacionada à imigração: o receio de que os estrangeiros tomem oportunidades de trabalho dos europeus. É importante considerar, ainda, que grande parte dos imigrantes na Europa é muçulmana e que, principalmente, após os atentados de 11 de setembro de 2001, há uma associação entre muçulmanos e terrorismo. Em resumo, três questões são importantes para se entender a aversão à imigração por parte dos europeus: o enfraquecimento da cultura europeia frente à influência dos imigrantes (preocupação cultural), a tomada dos empregos dos europeus (preocupação econômica) e os possíveis ataques terroristas que eles possam promover (preocupação com a segurança).

Quando uma população atravessa mudanças sociais significativas, é comum observar tentativas de retorno às tradições. Assim, com a aversão à imigração intensificada pela crise econômica, discursos relacionados à ideia de “Europa para os europeus” podem ganhar fôlego. Os atentados na Noruega ainda ofereceriam material para os partidos de direita com propostas contra a imigração se sobressaírem em diversos países da Europa. Visto que, após os eventos do dia 22, cerca de 50% da população norueguesa passou a desejar restrições à imigração. Isso aconteceria porque partidos conservadores podem aparecer como protetores da verdadeira identidade nacional, oferecendo respostas tradicionais para problemas novos.

Há uma ameaça iminente de a extrema-direita chegar ao poder em diversos locais, especialmente com as propostas desses partidos mais conservadores de “protegerem” os nacionais dos imigrantes. O belga Belgium’s Vlaams Belang e o sueco Swedish Sverigedemokraterna, por exemplo, tiveram origem em meio a ideias neofascistas e defendem posições xenófobas. O ressurgimento de tais proposições traz à memória mundial o horror das políticas de ditadores como Hitler e Mussolini.

Restringir a imigração não é uma solução para o problema. Vários países europeus têm baixas taxas de natalidade ou até mesmo um crescimento populacional negativo, de modo que a mão de obra imigrante é necessária para manter seus níveis de produtividade. Com o passar dos anos, a imigração será ainda mais indispensável para o crescimento econômico da Europa.

Porém, é fundamental repensar a forma como diferentes identidades se relacionam e se constroem mutuamente frente a essas novas situações que têm surgido. Caso contrário, a extrema-direita encontrará solo fértil para defender suas posições tradicionalistas. Incorporar a imigração como dinâmica social é importante para garantir mão de obra para a Europa e para que o fluxo migratório deixe de ser visto como uma ameaça à ideia do “ser europeu”. A percepção da identidade europeia como algo absoluto a ser protegido é o que pode levar a diferentes formas de discriminação contra os imigrantes. Assim, é preciso que os países tomem medidas para promover a tolerância entre europeus e imigrantes, e para construir sociedades inclusivas e democráticas.

Os atentados do dia 22 de julho de 2011 servem para alertar a Europa da ameaça dos extremistas e da necessidade de se discutir identidade no século XXI. Os residentes de um país, sejam cidadãos ou imigrantes, necessitam de uma identificação bem definida para poderem conviver com o diferente. Atitudes extremas como as de Breivik são reflexos de uma angústia que a Europa está vivendo devido a essa confusão de identidade.

 Patrícia Nabuco Martuscelli é bacharelanda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB e membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET – IREL/UnB. (patnabuco@gmail.com)

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1 comentário »

  1. Achei seu post muito interessante, visto que também estudo RI e estou fazendo parte de um estudo sobre segurança e defesa. Muito me interessa os países escandinavos, mas como todo o resto da Europa, esse estreito no norte do continente também tem sofrido com restrições à imigração, recentemente temos o caso dinamarquês. Muito interessante é saber que os xenófobos (seja de onde for deste mundo) sempre tem um ideologia preconceituosa sobre o outro (talvez alguns Orientalistas concordariam com isso), afirmando serem eles os provocadores da “desordem social” nos diversos aspectos (econômico, social, político). Porém, eles não percebem que são eles que estão provocando: tumulto, desintegração, mortes e enfraquecimento da própria cultura. Porque para permanecer e perdurar a cultura não vejo a necessidade de transformá-la numa caricatura mais densa como é o neofascismo, ou seja, transformam a sua cultura nisso: “neo-não-sei-das-quantas”. Permanecer a cultura no meio social não é permanecer a COR no meio social, mas integrar os novos cidadãos (imigrantes) a sua cultura já existente. Creio que esse último ponto também é responsabilidade do governo que tem tentado com esforço, mas não tem alcançado bons resultados, como no caso da sociedade turca no território alemão. Enfim, foi apenas um desabafo e uma concordância com seu post que muito me interessou. Grato!

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