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Introdução

 No dia 21 de setembro de 2011, o mundo assistiu a uma das maiores e mais prestigiadas cenas dos últimos anos: aquela em que a Presidenta da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff, em Nova York, sobe ao púlpito e abre o Debate Geral da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas – AGNU.

No entanto, a singularidade do fato não se deve somente ao ineditismo de ter sido a líder de um país emergente, como o Brasil, quem abriu a prestigiosa sessão. Pela primeira vez na história da Organização das Nações Unidas (ONU), uma mulher iniciou o debate geral da AGNU.

Desse modo, a produção e a construção do discurso proferido pela mandatária são dignas de análise. E, tendo em vista que o discurso oficial é ferramenta importante na compreensão da imagem política de um líder de um país, e que sua imagem também se constrói a partir daquela de seu líder, tomar-se-á, nesse estudo, o primeiro discurso proferido por Dilma Rousseff, em uma AGNU, como elemento substanciador para a construção da imagem do Brasil e seus posicionamentos perante as questões mundiais, a partir da fala de sua Presidenta. Poderão também ser observados quais dispositivos e identidades constroem a legitimidade do discurso da Presidenta, bem como os efeitos que pode provocar, do ponto de vista discursivo. Nas palavras de Charaudeau (2006), quando fala sobre discurso político, vê-se que “O discurso político tende mais a incitar a opinião do que a argumentar.” (p. 94) Não buscar-se-á, nesse texto, adentrar questões pertinentes ao debate teórico sobre o discurso e seus fundamentos, mas tão somente compreender a fala da presidenta a partir das formações discursivas que apresenta.

Para efeitos de análise, recortar-se-á, portanto, o referido discurso em segmentos, a fim de melhor entender o que se diz e o que se quer dizer, bem como verificar as alternâncias e a constância, em termos de discurso, dos diferentes temas expostos na narrativa oficial. Para proceder à segmentação, o critério utilizado baseou-se na repetição do vocativo “Senhor presidente” (e suas variantes), tendo sido segmentados de 1 a 10 os trechos do discurso oficial. Ressalte-se que a utilização do referido vocativo coloca o Presidente da 66ª AGNU, Ban Ki-moon, como sujeito destinatário que materializa, em sua figura, todos os destinatários subjetivamente contemplados no discurso oficial.

Tendo sido enumerados os trechos, estabeleceu-se, a partir da pertinácia dos assuntos neles arrolados, temas de que fala cada segmento. No entanto, comprovou-se difícil a tarefa de ter em cada segmento o esgotamento de um tema específico, tendo em vista que, por vezes, eles se estendem por mais de um segmento.

Em um esforço de síntese, poderia-se dizer que o primeiro segmento caracteriza-se pela modalização do sujeito principal do discurso; a saber, uma relação predicativa que incide sobre o “ser” do sujeito principal, ou, grosso modo, quem fala.  O segundo segmento apresenta os argumentos que compõem, na visão do sujeito principal, a análise do cenário mundial atual. O terceiro segmento traz à tona o interesse de nações emergentes em participar das ações de recuperação econômica e em fornecer soluções à crise enfrentada pela economia mundial atual. Na sequência, o quarto segmento complementa as discussões do segmento anterior, mas traz o caso brasileiro como o exemplo de um país que enfrentou a crise e que está disposto a cooperar com os demais para superação daquela. Por sua vez, o quinto, o sexto, o oitavo e o nono segmentos manifestam certos “compromissos” da nação brasileira com a paz e a liberdade, com uma melhor representatividade da nova ordem global, com as questões ambientais, com os direitos humanos, respectivamente. Faz-se uma ressalva sobre o sétimo segmento, visto que, talvez, contivesse um dos temas mais esperados pelo público ouvinte, a fala do posicionamento brasileiro em relação ao reconhecimento da existência do Estado da Palestina. Assim, o décimo segmento encerra a fala oficial da Presidenta e reafirma o seu compromisso com a voz e o lugar das mulheres no mundo.

 1.1.             Primeiro  Segmento: Apresentação e modalização do sujeito principal

 “Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral”. É dessa forma que a primeira mulher a ocupar o mais alto cargo do Executivo do Brasil inicia o seu discurso, após saudar a todos os presentes, respeitando-se a ordem protocolar exigida. Ao pronunciar tais palavras, visivelmente tensa, Dilma Rousseff altera, em grau e em substância, a participação de um líder político na abertura da sessão da AGNU, utilizando o argumento de que se torna a primeira mulher chefe de Estado e de Governo a abrir o debate geral na AGNU, modalizando a sua condição de sujeito enunciador. Demonstra, sobretudo, que a perspectiva narrativa e a abordagem a serem utilizadas em muito se diferirá daquelas de seu predecessor, Luís Inácio Lula da Silva, e de outros líderes ali presentes, uma vez que não falará somente em nome da nação brasileira, mas em favor de todas aquelas mulheres a quem, historicamente, foram negados o uso da palavra e o direito de se expressar. Dessa vez, o espaço utilizado não é menos importante: o foro que representa a diversidade e a pluralidade dos seres humanos é o lugar onde se pode escutar a “a voz da democracia e da igualdade se ampliando”, na tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo.

Charaudeau (2006), sobre a matéria, destaca que,

 O político, em sua singularidade, fala para todos como portador de valores transcendentais: ele é a voz de todos na sua voz, ao mesmo tempo em que se dirige a todos como se fosse apenas o porta-voz de um Terceiro, enunciador de um ideal social. (p. 80)

 Observadores atentos podem ter admitido que poucos oradores têm a felicidade de introduzir um discurso tal como o fez a mandatária. Aplausos entusiasmados vieram da plateia quando a mesma, na introdução, enalteceu as mulheres.

A participação do Brasil como membro fundador da ONU garantiu-lhe notoriedade quando, na I Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1946, “diante do impasse entre EUA e URSS, o Brasil é inscrito como primeiro orador, iniciando a tradição de ser sempre o primeiro país a abrir o debate geral” (GARCIA, 2005, p. 162). Tendo em vista a feliz coincidência, para efeitos de análise, estabelece-se, no eixo da comunicação em tela, um emissor – a Presidenta –, uma mensagem (discurso oficial) e um destinatário – todos os seus homólogos ali presentes e/ou seus representantes, o público presente na Assembleia Geral e, por extensão, todo o mundo a quem pode se dirigir o sujeito enunciador.

Tendo o contato sido estabelecido, Dilma continua, fazendo uso da função expressiva da linguagem, suas primeiras palavras na AGNU, quando diz:

 É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico.
Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste planeta, que, como eu, nasceram mulher – e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza de que este será o século das mulheres.

 Revela-se, assim, a tentativa de modalização do sujeito enunciador: o lugar que ocupa é legítimo, visto que é a líder executiva da nação brasileira; e é o Brasil quem, tradicionalmente, abre as sessões da AGNU. Ressalte-se, todavia, a importância do ineditismo do fato, ao ser realizado, desta feita, por uma mulher. Na sequência, a mandatária adverte que partilha tal momento com todas as mulheres do planeta, caracterizando em termos de polifonia o seu discurso.

Em seu percurso narrativo, há uma frase que faz franca referência à emoção com a qual a Presidenta inicia o seu discurso. Em suas palavras: “Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste planeta, que, como eu, nasceram mulher – e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza de que este será o século das mulheres.

Em seguida, Dilma faz uso de um fato linguístico que transmite ao seu público-ouvinte as bases que nortearão todo o discurso oficial. Diz:

 Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras, muito especiais para mim. Coragem e sinceridade.
Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje.

 Assim sendo, a coincidência aparente dos léxicos escolhidos (o gênero feminino) revela-se um argumento inteligente, em termos de sentido, sobre os quais se desdobrará a fala de Dilma. O sujeito enunciador tentará demonstrar, ao longo de seu discurso, que o Brasil, assim como outras nações, possui as credenciais necessárias para opinar e advertir o mundo atual das suas responsabilidades.

 1.2.            Segundo Segmento: Análise do cenário mundial atual

 A sequência da fala de Dilma, em tom contundente, é uma chamada à responsabilidade sobre a situação do mundo atual. Todos os governantes do mundo, “sem exceção”, devem enfrentar a crise econômica que, “se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social.

A presença de um implícito na fala “Agora, menos importante é saber quais foram os causadores da situação que enfrentamos, até porque isto já está suficientemente claro.” deixa bem claro de que coragem falava a mandatária no primeiro segmento. Ainda que se reserve ao direito de não declarar os culpados pela situação econômica atual, a Presidenta não deixa de se manifestar cônscia dos fatos. O não-dito, aqui, pode até ter sido inevitável, mas não inocente.

Ao argumentar que a responsabilidade para um problema global é também global, dois discursos correm paralelamente no cenário apresentado pela Presidente: o de uma chefe competente que sabe diagnosticar os problemas enfrentados e busca por soluções, e o de uma mãe que adverte seus filhos sobre condutas indevidas e sente, na pele, “a face mais amarga da crise”. Completa: “Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor.” Segundo Charaudeau (2006),

 Não existe um ato de linguagem que não passe pela construção de uma imagem de si. Quer queiramos ou não, calculemos ou neguemos, a partir do momento em que falamos, aparece (transparece) uma imagem daquilo que somos por meio daquilo que dizemos. (p.86)

  Dilma ainda lembra que “Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e de clareza de idéias.” Desse modo, é nítida a presença de uma forte crítica insinuada pelo sujeito principal.

1.3.            Terceiro Segmento: Soluções à crise econômica financeira

 Na passagem para o terceiro segmento, Dilma admite que “É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego” aquela que falará aos líderes das nações sobre a situação que vive nações desenvolvidas, como os EUA (14 milhões de desempregados) e a Europa (44 milhões de desempregados). Em seu discurso, também demonstra possuir um saber concreto sobre a situação atual brasileira diante da crise: “(…) sabemos que nossa capacidade de resistência não é ilimitada”. No entanto, prossegue: “Queremos – e podemos – ajudar, enquanto há tempo, os países onde a crise já é aguda.

Na sequência, o sujeito principal mostra que se investe de competência para construir análises críveis sobre a situação econômica, através do que é exemplificado nos trechos abaixo:

 As políticas fiscais e monetárias, por exemplo, devem ser objeto de avaliação mútua, de forma a impedir efeitos indesejáveis sobre os outros países, evitando reações defensivas que, por sua vez, levam a um círculo vicioso.
Já a solução do problema da dívida deve ser combinada com o crescimento econômico
Há sinais evidentes de que várias economias avançadas se encontram no limiar da recessão, o que dificultará, sobremaneira, a resolução dos problemas fiscais.
(…)
Países altamente superavitários devem estimular seus mercados internos e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global.
Urge aprofundar a regulamentação do sistema financeiro e controlar essa fonte inesgotável de instabilidade.
É necessário impor controles à guerra cambial, com a adoção de regimes de câmbio flutuante. Trata-se de impedir a manipulação do câmbio tanto por políticas monetárias excessivamente expansionistas como pelo artifício do câmbio fixo.
A reforma das instituições financeiras multilaterais deve prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes, principais responsáveis pelo crescimento da economia mundial.
O protecionismo e todas as formas de manipulação comercial devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espúria e fraudulenta.

 Diante do exposto, tem-se a permanência do sujeito enunciador crítico, detentor do saber econômico, que apresenta possíveis soluções aos problemas. A articulação dos parágrafos nesse terceiro segmento, respeitados os limites do texto, pode evidenciar a construção, em linhas gerais, de um “guia” sobre como sair da crise, proposto pela mandatária brasileira.

 1.4.            Quarto Segmento: O caso brasileiro

 “O Brasil está fazendo a sua parte”, afirma a Presidenta. O quarto segmento articula-se com o seu antecessor uma vez que é mencionada a atuação brasileira diante da crise econômica e as ações que vêm sendo executadas pela equipe diretora do país. Nos próximos parágrafos, o sujeito principal, líder da nação, aproveita o ensejo e inicia a apresentação das credenciais do Brasil para o momento em que falará sobre a necessidade de mudanças no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU).

Assim sendo, para justificar tais argumentos, a Presidente vai modalizar a sua fala a partir de elementos verbais: far-se-á o uso de verbos no presente do indicativo (1), no presente contínuo (2) e no pretérito perfeito composto do indicativo (3), demonstrando as situações presentes e contínuas por que passa o país. A saber,

 O Brasil está fazendo a sua parte. (grifo nosso) (2)
Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit nas contas públicas – sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento. (grifo nosso) (1)
Estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica. (grifo nosso) (2)
Há pelo menos três anos, Senhor Presidente, o Brasil repete, nesta mesma tribuna, que é preciso combater as causas, e não só as conseqüências da instabilidade global. (grifo nosso) (1)
Temos insistido na interrelação entre desenvolvimento, paz e segurança; e em que as políticas de desenvolvimento sejam, cada vez mais, associadas às estratégias do Conselho de Segurança na busca por uma paz sustentável. (3)
É assim que agimos em nosso compromisso com o Haiti e com a Guiné-Bissau. (grifo nosso) (1)
Na liderança da MINUSTAH, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento. (3) Com profundo respeito à soberania haitiana, o Brasil tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele País. (grifo nosso) (1)
Estamos aptos a prestar uma contribuição solidária, aos países-irmãos do mundo em desenvolvimento, em matéria de segurança alimentar, tecnologia agrícola, geração de energia limpa e renovável e no combate à fome e à pobreza. (grifo nosso) (1)

 É interessante notar que as marcas de flexão que o sujeito emprega (terceira pessoa do singular – Brasil ou primeira pessoa do plural – Nós) sugerem outro tipo de modalização: a de que não somente ele é competente em seu fazer, mas que faz parte de um processo em curso, que se iniciou no passado, a partir dos dois mandatos do Presidente Lula (“Há pelo menos três anos, Senhor Presidente, o Brasil repete…”), percorre o presente e se projeta para o futuro.

 1.5.            Quinto Segmento: Compromisso com a paz e a liberdade

 O mesmo sujeito enunciador, representante da nação, demonstra solidariedade “com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal – a liberdade.”, mencionando a sucessão de acontecimentos que, desde 2010, são conhecidos como a “Primavera Árabe”. Ademais, adverte o público ouvinte de que o recurso à força deve ser evitado, manifestando o indubitável apoio brasileiro ao Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, “na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da diplomacia e da promoção do desenvolvimento.

Dilma ainda propõe uma reflexão teórica sobre a “responsabilidade de proteger” e a “responsabilidade ao proteger”. Nesse ponto, solicita que a resposta à formulação de tais conceitos deva ser amadurecida conjuntamente.

Assim sendo, encerra o quinto segmento ratificando que a atuação do CSNU na resolução de conflitos é essencial, mas adverte que “ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões.” A partir de então, falará mais detidamente sobre a posição brasileira quanto à reforma da ONU.

 1.6.            Sexto Segmento: Compromisso com uma melhor representatividade da nova ordem global

 Para falar de tema tão delicado como é o debate sobre a reforma das Nações Unidas, e mais especificamente, uma reconfiguração dos assentos no CSNU, a Presidenta faz uso de um argumento de autoridade, quando diz: “O ex-presidente Joseph Deiss recordou-me um fato impressionante: o debate em torno da reforma do Conselho já entra em seu 18º ano. Não é possível protelar mais.” Nesse sentido, a fala do ex-presidente da 65ª AGNU confere ao sujeito principal do discurso em questão a credibilidade necessária, que parte de dentro do próprio organismo criticado (ONU), de que é urgente uma reformulação de suas estruturas.

O debate sobre a reforma do CSNU e seu assimétrico processo e comportamento decisórios na pós-bipolaridade (AMORIM, 1995) é um dos temas centrais da atuação diplomática brasileira nos últimos anos (a petição brasileira data de 1989). Nesse sentido, em função da nova configuração político-econômica mundial, a Presidenta reforça que a candidatura do Brasil é motivada pela existência de credenciais legítimas para o pleito de uma vaga de membro permanente no Conselho, assim como a têm EUA, Rússia, França, Reino Unido e China.

O fato de ter diante de si seus homólogos pode consubstanciar positiva ou negativamente a petição brasileira. A escolha dos argumentos, bem como a forma como os apresenta, pode variar a caracterização do discurso como legítimo ou arrogante. Nesse sentido, Dilma diz que “O Brasil está pronto a assumir suas responsabilidades como membro permanente do Conselho.” E esclarece que o país vive em paz com seus vizinhos há mais de 140 anos, que, com eles, promove bem-sucedidos processos de integração e cooperação, ademais, abdicou, “por compromisso constitucional, do uso da energia nuclear para fins que não sejam pacíficos.” E encerra a argumentação dizendo:

 Tenho orgulho de dizer que o Brasil é um vetor de paz, estabilidade e prosperidade em sua região – e, até mesmo, fora dela.
No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa própria história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos.
(…)
Reconheçamos esta realidade – e aceitemos, todos, as críticas. (…)
(grifo nosso)

 Note-se que, para fugir do julgamento negativo, o sujeito localiza o país dentro de uma conjuntura internacional, a qual a nação é inegável a atuação brasileira (ela tampouco pode ficar alheia e nem negar sua participação). Outrossim, que, a partir da fala de sua Presidente, a situação vivenciada pelo Brasil também serve aos anseios das outras nações.

 1.7.            Sétimo Segmento: A questão “Palestina”

 A 66ª AGNU, além de apreciar o ineditismo da presença da Presidenta brasileira quando de sua abertura, também trouxe em seu bojo um dos pontos mais controvertidos em termos de análises das relações internacionais contemporâneas do encontro: a possível formalização do pedido da Autoridade Palestina pelo reconhecimento da ONU ao Estado palestino.

Sendo assim, motivado em participar de tão importante debate, o sujeito principal desse discurso, a Presidenta Dilma Rousseff, enquanto porta-voz da nação brasileira, anuncia o posicionamento do país sobre a questão: “Quero estender ao Sudão do Sul as boas-vindas à nossa família de nações.”, diz. Por meio desta frase introdutória, o sujeito enunciador informa, na sequência, que lamenta “ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na ONU.” Ao comparar a alegria que manifesta, como partícipe do que chama de família de nações, a Presidenta usa, em antítese, o verbo lamentar, admitindo que o desejo de ter a Palestina como membro das Nações Unidas pode ser realizado, uma vez que “O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio.” Nesse sentido, a partir da fala da mandatária, vê-se que, para o Brasil, a solução do conflito que envolve Israel e Palestina, mais diretamente, virá a partir do aceite do pedido feito pela Autoridade Nacional Palestina à ONU; o que pode gerar a convivência pacífica, podendo até atender aos legítimos anseios de Israel. E justifica: “Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia – como deve ser.” Mais uma vez, o Brasil é tomado como exemplo a ser seguido.

 1.8.            Oiutavo Segmento: Compromisso com as questões ambientais

 Em seu percurso narrativo, Dilma não poderia deixar de mencionar o compromisso brasileiro com o meio ambiente, uma vez que o Brasil configura-se no cenário internacional como o país que apresenta os maiores números em termos ambientais (maior biodiversidade do mundo, maior floresta tropical, dentre outros aspectos).

A mandatária esclarece que o Brasil é a favor de um “acordo global, abrangente e ambicioso para combater a mudança do clima, no marco das Nações Unidas.” Ademais, apresenta o histórico recente das negociações sobre questões ambientais, nas quais a participação brasileira foi singular. A saber,

 Apresentamos uma proposta concreta, voluntária e significativa, de redução de emissões, durante a Cúpula de Copenhague, em 2009.
Esperamos poder avançar já na reunião de Durban, apoiando os países em desenvolvimento nos seus esforços de redução de emissões e garantindo que os países desenvolvidos cumprirão suas obrigações, com novas metas no Protocolo de Quioto, para além de 2012.
Teremos a honra de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20, em junho de 2012.

 1.9.            Nono Segmento: Compromisso com os Direitos Humanos

 Dessa vez, o segmento é iniciado com uma alteração no vocativo: “Senhor Presidente e Minhas companheiras mulheres de todo mundo”. Tal mudança ocorre no ponto em que o sujeito enunciador completa a construção da imagem do Brasil anteriormente iniciada, repetindo os esforços que têm sido feitos no país no sentido de aplicar “uma verdadeira política de direitos humanos tem por base a diminuição da desigualdade entre as pessoas, entre as regiões e entre os gêneros.” É a vez do sujeito enunciador mais uma vez conferir às mulheres destacado papel “na superação das desigualdades sociais.” Ele afirma:

 Nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central.
São elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos.
Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher.

 A Presidenta encerra a fala cumprimentando o Secretário-Geral Ban Ki-moon pelo tratamento dado às mulheres na ONU, com relevo para a criação da ONU Mulher e sua Diretora-Executiva, Michele Bachelet.

 1.10.        Décimo Segmento: Fechamento e reafirmação do compromisso com as mulheres

 No último segmento, a Presidenta volta a mencionar o fato de estar, no referido momento, representando todas as mulheres do mundo. Continua:

 As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos.
Aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar.
Aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar.
Aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras.

 Ressalte-se que o uso de um elemento anafórico (a repetição do pronome demonstrativo Aquelas) confere ao texto tom expressivo e poético, trazendo à voz do sujeito enunciador todas as vozes polifônicas às quais fez menção no primeiro segmento. Como afirma Charaudeau (2006),

 Ele estabelece uma espécie de pacto de aliança entre estes três tipos de voz – a voz do Terceiro, a voz do Eu, a voz do Tu-todos – que terminam por se fundir em um corpo social abstrato, freqüentemente expresso por um Nós que desempenha o papel de guia. (p. 80)

 Acrescenta ainda, de forma breve e em tom confessional, o fato de já ter sofrido no cárcere, trazendo para si a importância dos valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

A escolha das palavras, juntamente à entonação utilizada pela Presidente, garantiu-lhe mais um momento de aplausos prolongados por parte do público presente na 66ª AGNU.

Assim sendo, despede-se dizendo: “E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66ª (sexagésima sexta) Assembléia Geral da ONU.”

 Conclusão

Observamos em nossa breve análise que o discurso oficial da Presidenta Dilma Rousseff na 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas é apenas um momento dentro de um processo em curso. Não apenas porque é manifesta a continuidade das ações em política externa em relação ao seu predecessor, mas também porque a mesma insere-se no percurso por que passa o mundo atual, enxergando seus problemas, sendo capaz de analisá-los e de lhe propor soluções.

Por todo o exposto, o discurso da Presidenta pode ser caracterizado como o discurso da existência de novos paradigmas, dentre os quais, seja inserida o ineditismo da ocasião.

É também por meio do mecanismo de referências espaço-temporais e factuais que procura estabelecer um contrato com o sujeito destinatário para persuadi-lo a aderir à sua proposta de narrativa a ser seguida.

A crítica ao modelo atual das Nações Unidas e dos organismos financeiros, bem como a apresentação das credenciais brasileiras para ocupar o assento permanente no Conselho de Segurança, dentro do processo narrativo, são frequentemente mencionados para que o sujeito enunciador do discurso atinja seus objetivos em relação ao sujeito destinatário.

Por fim, o discurso oficial caracteriza-se pela modalização: é ao mesmo tempo discurso da representante legítima do Brasil na ONU, “é a voz da democracia e liberdade”, a voz das “mulheres anônimas”, “das mulheres que ousaram lutar”, a voz de quem usa a coragem e a sinceridade para transmitir o que pensa.

 Referências

AMORIM, CELSO. (1995). “O Brasil e o Conselho de Segurança da ONU.” In: Política Externa. São Paulo, Paz e Terra.

ARRAES, Virgílio Caixeta. (2005). “O Brasil e o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas: dos anos 90 a 2002.” In: Revista Brasileira de Política Internacional. vol.48 no.2 Brasília Julho/Dezembro.

BECHARA, Evanildo. (1999). Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Lucerna.

CHARAUDEAU, Patrick (2006). Discurso Político. São Paulo: Contexto.

Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura do Debate Geral da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas – Nova Iorque/EUA. Disponível em: [http://www2.planalto.gov.br/imprensa/discursos/discurso-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-na-abertura-do-debate-geral-da-66a-assembleia-geral-das-nacoes-unidas-nova-iorque-eua]. Acesso em 21/09/2011.

GARCIA, Eugênio Vargas. (2005). Cronologia das Relações Internacionais do Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Contraponto; Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão.

PATRIOTA, Antônio de Aguiar (1998). O Conselho de Segurança após a Guerra do Golfo: a articulação de um novo paradigma de segurança coletiva. Brasília, FUNAG.

 Rodrigo dos Santos Mota é licenciado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB e graduando em Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (rodrigosantosmota@gmail.com)

2 comentários »

  1. Daphne,
    pela minha interpretação do texto, o ineditismo está relacionado ao fato de uma mulher abrir o debate da Assembleia. Releia e observe a construção do texto através das orações, está claro o suficiente.

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