No último dia 14, observou-se a renovação da fidúcia política da população argentina ao governo de Cristina Kirchner e por efeito, ao conjunto de políticas desenvolvidas pelo casal Kirchner, isto é, o kirchnerismo, visto que ela recebeu aproximadamente 50% dos votos nas primárias eleitorais, de modo que a sua recondução ao cargo presidencial nas eleições de Outubro é dada como certa. Analistas creditam esta popularidade ao desempenho econômico do país como também em razão da recente morte do ex-presidente Nestor Kirchner. A despeito desse indicador positivo, a presidente Kirchner enfrentou recentemente uma série de importantes derrotas no pleito, a saber: a capital Buenos Aires, a província de Santa Fé e a província de Córdoba.

Diante dessa situação contraditória, Kirchner sinaliza movimentos de reforma quanto à condução de alianças e à configuração do plantel governista. Nesse diapasão o entendimento geral é de que ela se afaste das vertentes mais tradicionais do partido peronista, o Partido Justicialista (PJ), e busque impulsionar a sua coalizão Frente para la Victoria de maneira mais alinhada com a base mais jovem do governo denominada Juventud K, dentro da qual se destaca a agrupação fundada em 2003 pelo primogênito do casal, Máximo Kirchner, chamada La Cámpora.

Como entendido, a vertiginosa ascensão do grupo vem sido feita em detrimento da ala mais tradicional do PJ, pois o que se nota é a perda de espaço político de dirigentes sindicais e prefeitos, os quais controlam a máquina eleitoral em regiões periféricas, em favor das figuras centrais do La Cámpora. Daí, procede a afirmação de que haja relativa cisão partidária. Em suma, compreende-se que a presidente se distancia da linha adotada por Nestor, isto é, sustentação política embasada no aval das figuras mais relevantes do PJ, em prol de um projeto político próprio distanciado do peronismo tradicional e com olhos voltados à sucessão presidencial em 2015. Esse desvio se dá com tal amplitude que a imprensa tacha esta nova forma de condução política de “cristinismo”.

Posto o panorama atual, torna-se cabível reconstruir a história do La Cámpora com o intuito de compreender a inserção desse movimento no contexto político argentino e analisar os prospectos do grupo e do kirchnerismo.

La Cámpora foi fundada em 2003 por Máximo Kirchner quando seu pai, Nestor, era presidente da República da Argentina. O nome se dá em homenagem a Héctor José Cámpora, ex-presidente argentino que deteve breve mandato em função dos conflitos internos das Forças Armadas tendo como desfecho a renúncia daquele por falta de apoio político, sendo sucedido pelo general Juan Perón. Segundo relata o próprio site do movimento, esses eventos impressionaram de tal modo o então jovem Nestor Kirchner que diante da necessidade de um nome para a agrupação Máximo escolhera Cámpora enquanto patrono.

Os movimentos identificados como juventude peronista possuem consolidada tradição no cenário político argentino, inclusive tendo sido a partir deles que a presidente Cristina se iniciou na política. Porém, espanta-se a velocidade com que a agremiação cresceu em tamanho e importância, principalmente a partir de 2008 com o movimento dos ruralistas como também diante do falecimento do ex-presidente Kirchner em 2010. A derivada acentuada torna-se patente quando visto os cargos governamentais ocupados pelos mandantes do movimento ou a influência que estes têm no meio presidencial. Do ponto de vista estrutural, o grupo inaugurou dezenas de postos na Grande Buenos Aires e no interior do país, ademais trabalham com uma ousada meta de um local por distrito.

Em termos individuais, despontam do grupo algumas lideranças. Em primeiro lugar, encontra-se Máximo Kirchner, fundador do movimento, no entanto, exerce liderança distanciada. Outra figura proeminente é o legislador político Juan Cabandie que além de possuir estreita relação com a família Kirchner também foi um dos netos recuperados pelas Abuelas de la Plaza de Mayo. Mariano Recalde também merece destaque já que preside a Aerolíneas Argentinas, maior operadora de aviação civil do país e controlada pelo Estado, além de ser filho do influente deputado Héctor Recalde. Já Andres Larroque é o chefe oficial do La Cámpora, isto é, a cabeça visível. Já Eduardo de Pedro é considerado o cérebro do grupo e goza de diálogo com a presidente. Em uma linha mais afastada, encontra-se Jose Ottavis, sócio fundador do grupo e um dos principais responsáveis pela guinada deste ao âmbito nacional, todavia se encontra relativamente afastado do movimento, enquanto acumula o secretariado da Juventud Peronista da província de Buenos Aires, diretor de Estudo Políticos e Monitoramento da Secretaria da Presidência da República e ganha progressiva influência com o ministro da Economia Boudou, que se candidatou ao posto de vice-presidente de Cristina nestas eleições. Portanto, torna-se visível que do movimento vão surgir novas lideranças políticas e são destas que a presidente Kirchner espera se aproveitar em um plano de médio-longo prazo, de modo que o cristinismo se finque enquanto doutrina independente e dominante no país.

 Outra vantagem para Cristina advinda dessa aliança dá-se na militância, porque as taxas de adesão e de abertura de novos postos em conjunto com o engajamento dos membros são essenciais para o êxito do projeto político, cujas diretrizes perpassam necessariamente a Juventud K e a incorporação desta base jovem nos quadros do governo.

 De outro lado, La Cámpora busca firmar-se em diversos territórios e por efeito, tornar-se força política essencial à vida pública argentina. Outrossim, a partir de sinalizações de Cristina pretendem obter cargos legislativos já nesta eleição. Neste sentido, o grupo ganha força em torno da presidente, visto que é progressivamente certo que a militância se mescle com o assessorado governista.

Nota-se também que a expansão do grupo não deve ser freada. De fato, continuará em ritmos cada vez maiores, como se constata diante do anúncio de um evento organizado pela juventude peronista a mando do La Cámpora no próximo dia 14 em Luna Park, o qual terá como objetivo o lançamento de uma corrente mais ampliada que envolva pessoas mais velhas, até 45 anos, ao contrário dos 35 anos atuais.

 Em via conclusiva, cabe declarar que o kirchnerismo encontra-se em processo de renovação o qual será aprofundado no segundo mandato de Cristina Kirchner de modo que ela se afaste das linhas tradicionais do PJ, aproxime-se da La Cámpora e busque firmar-se enquanto atriz política independente e dominante no cenário argentino. A recente celebração da presidente em um hotel no centro da capital Buenos Aires dos bons resultados nas primárias já é um indicativo cabal disso, pois a imprensa presente relatou que ela foi recebida em grande parte pela militância peronista, sobretudo o grupo jovem La Cámpora.

Rafael Campos Soares da Fonseca é graduando em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). (rafael_csfonseca@hotmail.com)

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