Uma questão inevitavelmente vinculada ao caso Wikileaks, e a liberação dos documentos relativos ao Brasil, seria a de aferir seu impacto efetivo nas relações do Brasil com os Estados Unidos, e vice-versa. Minha impressão pessoal é a de que esse impacto é limitado, tenderá a ser circunscrito a um pequeno círculo de interessados imediatos e deverá se diluir com o passar do tempo. Isso não quer dizer que todo o processo não tenha consequências para as partes envolvidas, para os Estados Unidos de maneira geral, e nas relações bilaterais em particular.

Já  elaborei e publiquei algumas reflexões a respeito, num momento em que os documentos vinculados ao Brasil – produzidos pela Embaixada americana em Brasília, ou alguns de seus consulados em algumas capitais estaduais – estavam sendo ainda liberados. Remeto os interessados a este texto meu: “Wikileaks: verso e reverso”, Mundorama (14.01.2011; link: http://mundorama.net/2011/01/14/wikileaks-verso-e-reverso-por-paulo-roberto-de-almeida/); republicado em Via Política (24.01.2011; link: http://www.viapolitica.com.br/diplomatizando_view.php?id_diplomatizando=159) e em Dom Total (03.02.2011; link:http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=1797). Os comentários e opiniões ali expressos tinham sido feitos num momento em que representantes do meio acadêmico no Brasil expressavam seu regozijo pela divulgação dos documentos e até circulavam listas com assinaturas em apoio ao personagem principal, antes e durante sua captura pelo polícia britânica. Um alto personagem da república (com minúscula neste caso) chegou a oferecer a possibilidade de asilo no Brasil ao “animador” do Wikileaks, Julian Assange, por causa do processo movido na Inglaterra contra ele.

Nesta altura, agosto de 2011, todos os documentos relativos ao Brasil já  foram, aparentemente, liberados (ver: “Wikileaks: todos os documentos estão no ar”, Publica, Agência de jornalismo investigativo, 15.07.2011; link: http://apublica.org/2011/07/semana-wikileaks-todos-os-documentos-estao-no-ar/). Não tenho a intenção, contudo, de desenvolver neste momento uma análise de conteúdo dos mais importantes, pois seria ainda necessário processá-los tematicamente, separar o joio do trigo – ou seja, o que é de fato relevante em termos de relações bilaterais, dispensando as simples fofocas de ocasião – e recolocar cada um deles no seu contexto próprio, antes de proceder a uma avaliação de sua importância real. Pretendo, tão somente, continuar algumas reflexões sobre seu impacto geral e vinculado ao Brasil, sob a forma de três grandes questões: o que significa o Wikileaks para a diplomacia americana na suas relações com o Brasil, como passaram a proceder as duas partes depois da liberação dos documentos – ou seja, a questão da cautela a ser observada doravante nos contatos e nos diálogos entre as duas diplomacias – e, finalmente, uma avaliação do impacto efetivo da liberação sobre todo o processo diplomático.

Como avaliar o impacto do Wikileaks na relação Brasil-EUA?

Como para qualquer outro país, a divulgação antecipada – e de forma ilegal e criminosa – de expedientes diplomáticos americanos sobre as relações Brasil-Estados Unidos, que deveriam ter permanecido confidenciais ou secretos durante aproximadamente dez anos além de sua produção, apresenta um impacto nas relações bilaterais, ainda que este aspecto seja o menos importante de todos, no conjunto de “tangos e tragédias” representada pelo fenômeno Wikileaks para a diplomacia americana como um todo, em especial para a condução das relações bilaterais dos EUA e, com impacto acrescido, para o planejamento estratégico – em primeiro lugar de segurança – daquela potência nas suas relações com o mundo todo, inclusive no encaminhamento de temas da agenda americana nos organismos multilaterais, nas suas instituições “imperiais” (tipo OTAN, por exemplo), e sob vários outros aspectos também (impossíveis de serem todos dimensionados e apreciados).

Digo “tangos e tragédias”, de modo irônico, mas deliberado, porque o Wikileaks é de fato uma “piada” – no sentido corriqueiro da palavra – e um drama, ao mesmo tempo. Uma “piada”  porque a maior parte, senão a quase totalidade do que foi “revelado” não é especialmente novidade, mas elementos de informação que se encontravam disponíveis há muito tempo na mídia de qualidade. A “piada” vem associada a certos comentários jocosos de diplomatas americanos a respeito de seus interlocutores em determinados países, ou suas próprias opiniões a respeito de situações por eles enfrentadas no desempenho funcional normal, e também ao lado “surpreendente” de certos comentários “inocentes” dos interlocutores locais dos diplomatas americanos a respeito de seus governos respectivos.

Por exemplo, o fato de que diplomatas americanos considerassem que os negócios familiares de certos ditadores árabes se assemelhavam aos da máfia americana não é propriamente algo surpreendente ou inusitado, para quem conhece o “ambiente de negócios” desses países, e apenas testemunha a favor dos diplomatas americanos em sua capacidade analítica, de não se deixarem impressionar pelo luxo e riqueza em que viviam certos “nababos do Oriente”, por saberem bem que esses recursos eram provenientes de roubo organizado, de espoliação de capitalistas nacionais e estrangeiros, de dilapidação do tesouro público, enfim, de comportamentos mafiosos, tout court. Quanto ao lado funcional, não deixa de ser piada ver um cônsul americano reclamar do intenso trabalho de escrutinização dos candidatos a vistos de turismo aos EUA, já que entre as demandas incontáveis se encontrava um pouco de tudo, do bom, do mau e do feio (frase clássica e comentário apropriado para quem se lembra do belíssimo western-spaghetti de Sergio Leone: The Good, the Bad, and the Ugly).

Pode ser também uma “piada” – mas também pode ser um “pequeno drama” para as partes envolvidas – saber da opinião de um imponente ministro brasileiro da Defesa – agora justamente dispensado em razão de sua big mouth – a respeito de um colega de ministério, chamando-o de “antiamericano”, o que não chega a ser novidade, para quem conhece o personagem, mas que revela o lado das pequenas hipocrisias que frequentam os meios oficiais. O “antiamericano” calou-se a respeito – talvez deliberadamente, para confirmar, e contentar a esquerda antiamericana, que ele se enquadra feliz e voluntariamente no conceito – e o emissor da opinião apressou-se a desmentir, dizendo ter sido mal interpretado ou não ter dito exatamente aquilo, correção que soa não apenas patética, mas totalmente falsa e ainda mais hipócrita. Ninguém pensava outra coisa do antiamericano em questão, e pode-se pensar que as relações entre ambos não tenha sido afetada minimamente por excesso de sinceridade de uma verdade tão óbvia quanto dispensável de ser confirmada. Mas esse é apenas o lado “piada” de todo este affair.

O lado dramático, uma verdadeira tragédia para a diplomacia americana, não pode ser colocado apenas no contexto bilateral, pois ele afeta TODAS as relações bilaterais dos EUA, em todo o mundo, a partir de agora. Os EUA passam a dispor, presumivelmente, de menos interlocutores, em meios oficiais e de oposição, em todas as instâncias das quais participam e em todos os países nos quais trabalham seus diplomatas. Qual é o agente público – ministro ou burocrata de alto coturno – ou o líder político de oposição, e até mesmo da situação, amigo ou “inimigo” dos EUA, que vai querer, a partir do Wikileaks, conversar, reservada e livremente, com o embaixador americano postado localmente, ou com seus diplomatas graduados, presumindo, a partir de agora, que essas conversas em off serão eventualmente reveladas em curto prazo por trânsfugas do Wikileaks (ou qualquer outra forma de apropriação indébita de expedientes oficiais)? Qual é o simples cidadão que vai continuar confiando na segurança das informações detidas pelos EUA, quando um simples soldado raso em um posto obscuro da máquina imperial pode ter acesso a esses expedientes e divulga-los livremente para o mundo inteiro?

 Esse é o lado da absoluta tragédia para os serviços diplomáticos americanos – de fato para TODO o seu sistema de segurança de informações – que passou a existir depois do Wikileaks e que vai afetar profundamente todas as formas de recolhimento, de processamento de informações, e de tratamento dessas informações para fins de tomada de decisões dessa grande máquina burocrática que é o maior império de todos os tempos. O império está não somente “nu”, como desprovido de meios de acesso a certas informações sensíveis, que são detidas apenas por seus interlocutores em todos os países e organizações internacionais: os EUA estão SEM INTERLOCUTORES, pelo menos dos que detêm, verdadeiramente, informações sensíveis e valiosas. Todos os seus encontros vão se limitar ao “banal costumeiro”, com comentários absolutamente anódinos, e agora terrivelmente aborrecidos, sobre o tempo, o vento, quão bom e correto é o meu governo, como todas as suas decisões são sábias e apropriadas, e coisas do gênero. Em outros termos, os EUA perderam valiosas fonte de informação, no Brasil e em todos os demais países, para o bem e para mal. Esta é uma tragédia que reputo incomensurável.

A outra tragédia – mas que também pode ser uma piada, dependendo de como se considere o fato – é que os diplomatas americanos, revelados em suas notas espirituosas, algumas maldosas, outras simplesmente óbvias, sobre seus interlocutores, amigos e “inimigos”, deixarão de fazer esses comentários jocosos, mas verdadeiros e sinceros, outros apenas esclarecedores, sobre seus interlocutores e sobre as informações e “análises” que eles forneceram, em caráter obviamente confidencial, numa conversa reservada e cordial. Qual é o embaixador ou ministro conselheiro que vai agregar, depois de sua transcrição fiel da conversa, sua própria opinião sobre o personagem em questão, sabendo que a mesma pode ser revelada em pouco tempo, o que redundará certamente em sorrisos amarelos, pedidos de desculpa ou “rompimento de relações”? Em outros termos, os telegramas confidenciais dos postos e embaixadas se converterão em aborrecidas transcrições de conversas, sem qualquer elaboração complementar a respeito, ou pelo menos sem o colorido e a verve das opiniões sinceras do “produtor” de telegramas, sem qualquer adição de “verdades verdadeiras” (mas incômodas, a qualquer título), que seu responsável poderia fazer a respeito. Ou seja, a “veia literária” – até histriônica – dos diplomatas americanos se encontra singularmente podada, cortada, eliminada por completa, com o que esses expedientes retornam à sua linguagem burocrática, aborrecida, terrivelmente contida, com todo o “politicamente correto” que é capaz de se expressar no “diplomatês” habitual dessas comunicações (que também contêm algumas doses de “bullshitismo”, é verdade). Enfim, vamos perder grandes vocações dramáticas, até intelectuais, com esse retorno a padrões normais da correspondência diplomática, borings como costumam ser esses expedientes.

A tragédia se amplia também para o processo de tomada de decisões nas instâncias apropriadas dos EUA, que agora são obrigadas a tomar novos cuidados quanto ao acesso e disseminação dessas informações. Ou seja, menos pessoas vão estar envolvidas nesses mecanismos e na própria tomada de decisões, o que significa que, com menos informações e menos especialistas participando de todo o processo, o “império” vai errar mais nesse itinerário entre o insumo e sua resposta, e tomará decisões equivocadas ou não apropriadas ao caso. Uma tragédia de dimensões gregas para a máquina de informações e de tomada de decisões que sustenta qualquer império. A última tragédia é a dos historiadores e analistas de arquivos, alguns dos quais ficaram absolutamente – e equivocadamente – maravilhados com essa liberação antecipada de uma massa de documentos “picantes e saborosos” sobre as engrenagens internas do maior império da humanidade – alguns até eufóricos, com a revelação inopinada das “roupas sujas” do império, o que se explica pelo antiamericano habitual em certos meios. Pois é um fato que, dentro de dez anos, os mesmos “garimpadores de arquivos” vão ficar decepcionados com a ausência súbita de informações relevantes na massa de documentos que serão liberados: todos estarão contidos pela tragédia cômico-dramática do Wikileaks, ou seja, não haverá revelações dignas de notas a serem exploradas (pelo menos durante certo tempo, até que as pessoas esqueçam o que ocorreu e o Wikileaks seja apenas um intervalo incômodo numa história diplomática bem mais ampla e interessante).

Em síntese, poucas revelações do Wikileaks podem ou devem ser consideradas apenas no contexto bilateral Brasil-EUA, e mesmo as que se situam no plano estritamente bilateral não são suscetíveis de influir decisivamente no perfil, substância ou direcionamento dessas relações, embora possa haver um curto-circuito temporário nas conversas de bastidores que sustentam, diplomaticamente, essas relações.

A nova seletividade dos contatos entre as duas diplomacias

Certamente que ministros, altos funcionários do governo, e simples diplomatas passam a ser, depois do Wikileaks, extremamente seletivos e cuidadosos na abordagem de todo e qualquer assunto com seus parceiros ou interlocutores oficiais americanos. Poucos se mostrarão dispostos a falar sinceramente de seus assuntos correntes, e menos ainda serão aqueles dispostos a falar sinceramente sobre os temas de suas agendas respectivas, ou menos fazer comentários jocosos sobre colegas ou conhecidos, sem mencionar que pequenos e grandes segredos, hipócritas ou não, serão deixados convenientemente de lado, pois ninguém está disposto a correr o risco de ver estampadas na imprensa esses comentários picantes ou sinceros sobre os temas da conversa. Somente aflorarão amenidades e banalidades, sobretudo no que se refere às análises e opiniões sobre governos amigos e menos amigos. Como, por exemplo, dizer que tal candidato a caudilho de algum país vizinho é histriônico, patético ou francamente antidemocrático, quando isso pode afetar as relações bilaterais do Brasil – ou mais importantes, negócios de grandes companhias brasileiras – com esse país, oficialmente aliado ou até “parceiro estratégico” do governo em vigor? Todo mundo vai ser amigo, até prova em contrário.

É previsível, assim, até esperado, que as relações normalmente “desconfiadas” entre o grande líder hemisférico e global e o grande candidato a líder regional se tornem ainda mais “desconfiadas” a partir de agora, com uma “contenção” acima do normal nos diálogos formais e nas conversas de coquetel entre representantes dos dois lados. Todos vão se olhar desconfiados e o mais previsível que ocorra são variações deste tipo: os brasileiros se recusarão a expressar suas opiniões pessoais, e até certas visões oficiais, sobre os temas na pauta da conversa, temerosos de revelações indevidas, e os americanos redatores de expedientes se conterão em expressar suas opiniões, além e acima da transcrição dessas conversas aborrecidas, deixando de lado, justamente, o lado bom – e talvez até o mau e o feio – desses expedientes, que seria o acréscimos de suas percepções pessoais sobre o tema e os interlocutores em pauta.

Desconheço se alguma instrução do gênero “não falem mais nada com esses americanos trapalhões” tenha sido expedida, ou feita em caráter não oficial a todos os interlocutores potenciais dos representantes do império no Brasil, mas suspeito que, sponte sua, os “visados” brasileiros passaram a ser muito mais seletivos nos seus encontros formais e informais, abertos e confidenciais, com esses representantes, e muito mais comedidos na expressão livre de suas opiniões – além e acima da versão oficial, geralmente inútil – sobre os temas das relações bilaterais e assuntos paralelos. Entre os diplomatas a contenção já era de rigor, pois são seres normalmente recatadas, discretos, quase repetitivos – tipo “la voix de son maître”, ou “hora do Brasil” – que se limitam a expressar a versão oficial, mesmo quando não acreditam nela, de qualquer assunto. Os demais interlocutores, da vida “civil”, deixarão de receber com o mesmo encanto os convites do embaixador americano para jantares e recepções, ou, se continuarem a aceitar, vão se tornar aborrecidamente anódinos em seus comentários, lembrando-se, justamente, das desventuras de algum colega flagrado pelo Wikileaks em alguma frase menos politicamente correta, digamos assim. Ou seja, as conversas daqui para a frente vão se tornar aborrecidamente dormitivas, sem as emoções da fase pré-Wikileaks.

Wikileaks-Brasil: um impacto negativo, mas limitado

O impacto da revelação dos documentos, tanto quanto se possa julgar pelo que já foi liberado, pode ser considerado como diplomaticamente negativo, embora o impacto global, no conjunto do relacionamento, seja limitado, já que algumas comunicações poderiam ter um efeito ainda mais desestabilizador nas relações bilaterais. Isto se deve a que a interface diplomática não abriga nenhum grande assunto muito sensível.

O Brasil, com exceção da venda de aviões militares, não possui, a rigor, nenhum grande tema de interesse bilateral que se situe num nível de segurança e de importância estratégica com os EUA que poderia ter sido impactado por alguma revelação mais contundente a partir dessas “fugas Wikileaks”. Todo e qualquer expediente confidencial é concebido para permanecer confidencial durante um tempo adequado, pois o tema representa, supostamente, informações não exatamente sensíveis, mas importantes, ao revelarem percepções e tratamento de determinados assuntos que são melhor conduzidos se o processo que conduz à tomada de decisão não for exposto de modo claro. Esta é uma lógica do tratamento burocrático das informações e decisões em qualquer governo que merece e deve ser respeitada.

Todo e qualquer governo é formado por pessoas que possuem diferentes percepções a respeito de um problema qualquer, que é objeto de tratamento oficial e que será formalizado numa decisão qualquer mais adiante, com uma única versão, a oficial, sendo apresentada como homogênea, consensual, etc. Ora, é evidente que o processo que levou a tal decisão é obviamente contraditório, até  desgastante, e os interesses da outra parte – no caso, os EUA e sua interface com o Brasil – podem estar sendo contemplados com maior ou menor grau de “aderência”. Ao desvendar os bastidores desse processo, o Wikileaks revela as contradições inerentes a todo e qualquer processo governamental, como opiniões pró e antiamericanas, para simplificar uma questão bem mais complexa.

Tomemos, como exemplo, o caso mais importante, justamente, o da venda de aviões militares. Além e acima de aspectos mais nebulosos ou até corriqueiros do assunto – preparação dos relatórios técnicos a respeito dos aviões concorrentes, questões técnicas, de desempenho tático ou operacional, ou, mais importante ainda, transferência de tecnologia e custo total, direto e indireto, de toda a operação –, existem aspectos propriamente políticos – e até “ideológicos”  – envolvidos numa operação gigantesca como essa, que podem afetar, decisivamente, todo o curso do negócio. Ora, que o governo brasileiro seja mais ou menos antiamericano, que “ decisores decisivos” sejam mais influenciados pela percepção que eles tenham dos EUA – de sua política “imperial”, de seu papel na região, da “subordinação estratégica” e da “dependência”  do Brasil, ou qualquer outro aspecto desse gênero –, tudo isso é  relevante, independentemente do mérito próprio das ofertas, de sua qualidade técnica ou de seu custo financeiro estrito senso. O governo americano pode estar se movimentando, além e à margem dos encontros oficiais, para lograr obter vitória na oferta de suas empresas, o que é normal e esperado de qualquer governo que defende o interesse de sua economia – e até de seu planejamento de segurança estratégica – em negócios desse tipo. Os governos francês e sueco – e outros, antes deles – também fazem e devem continuar fazendo exatamente o mesmo, com maior ou menor sucesso, justamente, em função do ativismo de seus diplomatas e representantes oficiais envolvidos no negócio. Nada do que disserem americanos e brasileiros em torno desse assunto pode ser considerado irrelevante ou supérfluo num negócio de tal magnitude; nada do que se puder fazer para “influenciar” os decisores corretos, pró-americanos entenda-se, é indiferente ao sucesso da empreitada e a seu resultado final.

Este é apenas um exemplo, entre outros, de temas importantes que podem ser, como talvez já estejam sendo, afetados pelo Wikileaks, com imenso prejuízo para os EUA e seus interlocutores e aliados –  e até seus “inimigos” – no Brasil. Outros temas relevantes são os das relações do Brasil com seus vizinhos imediatos, em especial aqueles que possam ser julgados excessivamente “inimigos” dos interesses do império, ou até amigos voluntários do próprio, na medida em que conversas reservadas, interesses ocultos e posicionamentos internos de chancelarias podem afetar, para o bem e para o mal, relações diplomáticas normais ou até a condução de negócios específicos. Enfim, todo e qualquer tema de chancelaria, de governo num sentido amplo, e até negócios privados, da sociedade civil, podem ser beneficiados ou prejudicados por revelações inesperadas, algumas até “bem-vindas”, outras absolutamente prejudiciais para o curso ulterior dos assuntos.

Mas estas são observações genéricas, até teóricas, sobre o caso Wikileaks nas relações Brasil-Argentina. Um exame mais detalhado do conteúdo de todas as mensagens reveladas até aqui, sua correta interpretação no contexto das relações bilaterais, e sua inserção no quadro mais amplo dos interesses brasileiros e americanos –  cada um de seu lado – em todas as esferas de interesse relevante, até com terceiras partes, poderia trazer um cenário e uma análise mais corretos sobre o papel e a importância real do Wikileaks para essas relações. Como julgamento genérico e superficial do assunto, eu diria que nenhum interesse essencial nesse plano bilateral foi afetado pelas revelações e – desconfortos pessoais não obstante e à parte – as relações não devem ser afetadas significativamente agora e no futuro imediato. Todos os assuntos são corriqueiros e todos os preconceitos e peculiaridades das relações foram revelados, por vezes de modo canhestro e desconfortável, e até confirmados pelo Wikileaks. Não creio que exista qualquer “potencial explosivo”  nessas revelações.

Concluindo, eu reafirmaria um julgamento anterior já feito sobre todo este assunto: o Wikileaks representa um tesouro para os jornalistas, uma tragédia para a diplomacia americana e algumas “trouvailles”  temporariamente interessantes para os historiadores da área, que serão, no entanto, “penalizados” mais adiante, dado que as fontes vão “secar” de modo perceptível.

A vida segue adiante, com ou sem Wikileaks…

Paulo Roberto de Almeida é Doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas (1984); diplomata de carreira do serviço exterior brasileiro desde 1977; professor de Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Direito do Centro Universitário de Brasilia – Uniceub; autor de diversos livros de história diplomática e de relações internacionais (www.pralmeida.org – pralmeida@mac.com).

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