Economia Internacional Política Externa Brasileira

A Importância Econômica das Exportações de Commodities para o Brasil, por Leonardo Silveira de Souza

As exportações de commodities sempre impulsionaram a economia brasileira, expandindo a arrecadação de impostos dos governos federais, estaduais e municipais e servindo como principal ligação com os mercados globais.

Ao longo dos últimos três séculos, houveram críticas ao aproveitamento dos recursos naturais ao afirmar que algo inerente à produção de commodities seria prejudicial às perspectivas de crescimento de uma economia, como foi Adam Smith, em A riqueza das nações aonde a mineração era o setor que “um legislador prudente, desejoso de aumentar o capital de seu país, escolheria em último lugar para receber qualquer estímulo extraordinário” (BANCO MUNDIAL, 2010).

 A questão de como tratar a produção de commodities continua a infernizar “legisladores prudentes”, nos tempos modernos, especialmente na esteira da recente volatilidade nos mercados globais. A gestão desses ciclos recorrentes de bonanças e recessões sempre desafiaram os formuladores de políticas em países dependentes de exportações de matérias-primas, como o Brasil, onde a produção de commodities sempre desempenhou papel vital na economia, a questão se situa no topo ou quase no topo da agenda política.

Em todo o mundo, os países que sofreram os mais graves colapsos de crescimento durante a última recessão foram aqueles com alta participação de manufaturados no total das exportações, porém no caso brasileiro, a retomada da economia nacional tem sido muito vigorosa, sob o estímulo da demanda de exportações de commodities para a China e para outros mercados emergentes.

O Brasil é uma potência agrícola, tornou-se o maior exportador mundial de café, açúcar, suco de laranja, tabaco, soja, milho e do complexo carne (boi, porco e frango). Além disso, o país possui duas grandes empresas do setor de extração mineral, que são a Petrobras e Vale importantes players nos segmentos de energia e mineração, respectivamente. As abundantes reservas minerais e o anúncio das reservas de petróleo e gás natural em águas profundas no litoral brasileiro certamente consolidarão tanto a importância do país no suprimento de produtos primários no mercado internacional quanto do saldo positivo na contas externas brasileiras provenientes das commodities (FISHLOW; BACHA, 2010).

O Brasil tem sido um dos principais beneficiários com os preços das commodities no mercado internacional nos começo do século XXI. As exportações totais do país saltaram de US$ 72 bilhões em 2003 para US$ 201,9 bilhões em 2010, sendo que no último ano, 69,4% do total exportado era commodities, o que demonstra a importância das matérias-primas para a expansão das exportações brasileiras e ao mesmo tempo revela uma concentração da pauta exportadora.

Segundo dados do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC) as exportações brasileiras de commodities totalizam 23 itens, porém cerca de 50% de todas as exportações estão concentradas em seis grupos de produtos primários (minérios, petróleo e combustíveis, complexo soja, açúcar e etanol, complexo carnes – boi, frango e suíno – e celulose) (MDIC, 2011).

Neste período, o Brasil beneficiou tanto das altas nas cotações dos produtos primários, quanto do aumento considerável da entrada de capital externo, gerando valorização do real, o que permitiu ao Banco Central (BC) acumular recordes em reservas internacionais.

  A ampliação da participação das commodities e produtos de uso intensivo de commodities nas exportações brasileiras gera preocupações para os formuladores da política econômica do país, como por exemplo, o temor pela instalação da “doença holandesa” o que levaria ao fenômeno da desindustrialização.

Outro fator de inquietação é a valorização do real, promovido pelo forte aumento da entrada do fluxo de capital especulativo, que tem sido atraído pelas elevadas taxas de juros praticadas no país, gerando aumentos nas importações e diminuição das exportações de produtos com maior valor agregado (com o real valorizado automaticamente há perda de competitividades junto ao mercado externo), o que acarreta em déficit nas contas correntes, podendo não ser tão facilmente financiada no futuro.

Não obstante os muitos exemplos de países ricos em commodities e retardatários em desenvolvimento, ainda não se chegou a um consenso sobre o impacto dos recursos naturais sobre o crescimento econômico. Entre os países com abundância em recursos naturais, para cada exemplo de país “amaldiçoado” encontra-se outro de país “abençoado”, que gerenciou, com eficácia, as próprias dádivas e alcançou altos níveis de crescimento. E as evidências recentes sugerem que, no cômputo geral, a fartura de recursos naturais de fato pode influenciar favoravelmente o crescimento (BANCO MUNDIAL, 2010).

O lado positivo da dependência das commodities foi salientado pela última crise financeira internacional. Mesmo com a crise do subprime se disseminando pelo mundo industrial, as economias dependentes das exportações de produtos primários, como a brasileira se mantiveram efetivamente “descoladas” ou dissociadas da realidade mundial, preservando o ritmo de crescimento, enquanto os preços das commodities se mantiveram elevados (UNCTAD 2010).

O fato de a abundância de recursos naturais não inibir necessariamente o crescimento não implica, contudo, que essa fartura leve inevitavelmente ao crescimento. As disparidades entre os países continuam altas e muitos exemplos demonstram que algum tipo de maldição pode converter-se em realidade se os recursos forem mal gerenciados.

“A análise expressada neste artigo é de sua inteira responsabilidade e não reflete posicionamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANCO MUNDIAL (2010). Recursos Naturais na América Latina – Indo Além das Altas e Baixas.

 FISHLOW, A; BACHA, E (2010). Recent Commodity Price Boom and Latin American Growth: More than New Bottles for an Old Wine?. Textos para Discussão Itaú Unibanco.

 MDIC (2011). Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio. Estatísticas de Comércio Exterior – DEPLA. Disponível em <http://www.mdic.gov.br//sitio/interna/interna.php?area=5&menu=1955&refr=608>. Acesso em 30 de maio de 2011.

UNCTAD (2010).   The Financial and economic crisis of 2008-2009 and developing countries.  United Nations Conference on Trade and Development.

 Leonardo Silveira de Souza é Doutorando em Direito Internacional e Pesquisador Assistente III da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Deint) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (leotoges@yahoo.com.br).

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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