No campo das Relações Internacionais, Joseph Nye dispensa apresentações. Um dos fundadores da teoria liberal, Nye ajudou a criar conceitos como interdependência e Soft Power, que hoje encontram-se disseminados não apenas na academia, mas no próprio discurso político norte-americano. Em “The Future of Power”, livro mais recente de Nye, o autor aborda a questão do poder no século XXI de forma ampla, com o objetivo de avaliar as perspectivas para a manutenção da hegemonia norte-americana e as implicações da ascensão dos grandes países emergentes. “The Future of Power” oferece uma ampla tipologia do poder, definindo suas fontes, sua dinâmica e suas modalidades. Nye argumenta que o século XXI é marcado por duas grandes mudanças em termos da distribuição do poder no sistema internacional: a transição do poder dos Estados Unidos para os países emergentes, especialmente para a China, e a difusão do poder dos Estados Nacionais para atores não-governamentais. “The Future of Power” busca, no campo descritivo, avaliar as consequências da transição e da difusão do poder e, no campo normativo, definir uma estratégia adequada para a política externa norte-americana engajar a dupla transformação do poder que marca o século XXI.

Em certo sentido, “The Future of Power” é uma obra que sintetiza todo o trabalho de Joseph Nye. O autor retoma seu argumento clássico da divisão do poder internacional em três níveis. No primeiro, definido pela lógica militar do Realismo Clássico, a primazia norte-americana é incontestável. O gigante ocidental acumula um orçamento militar superior ao de todas as outras grandes potências somadas, possui ampla capacidade de atuação bélica em escala global e detém a liderança na produção de tecnológica bélica. No segundo nível, a economia global, os Estados Unidos possuem inegável relevância, uma vez que se apresentam como maior mercado global de bens e serviços. Não obstante, o sistema econômico global é cada vez mais definido pela multipolaridade. A União Europeia, cujo PIB é superior ao norte-americano, o Japão e os países que compõem o acrônimo BRICS são atores de grande expressão e possuem influência sobre os rumos da economia internacional. O terceiro nível, definido pela difusão do poder para atores não-governamentais, escapa do controle dos Estados Nacionais e apresenta desafios (como o terrorismo global) e oportunidades (como a crescente influência das ONGs norte-americanas) para a continuidade da hegemonia dos Estados Unidos.

The Future of Power” também atualiza os conceitos de Soft e Hard Power, contribuições acadêmicas mais conhecidas de Nye. O autor define o poder em três aspectos relacionais. O poder pode se manifestar como a capacidade de impor comportamentos e resultados. O segundo aspecto do poder é o de criar agendas e definir quais temas têm relevância no sistema internacional. Por fim, o poder pode moldar as preferências e interesses de parceiros e rivais. Soft Power é a habilidade de cooptação, de definir a agenda, de persuadir e exercer atração positiva. Evidentemente, o Soft Power está mais associado aos dois últimos aspectos do poder. O Hard Power, por outro lado, é o poder de coerção, mais ligado à primeira faceta do poder. Por ser uma forma de poder, somente uma versão primitiva do Realismo ignora a existência do Soft Power. Nye observa três fontes principais de Soft Power: a cultura, os valores políticos e a política externa. O argumento central de “The Future of Power” é que os desafios do século XXI devem ser abordados com uma correta combinação de Hard e Soft Power, batizada pelo autor de Smart Power.

Posteriormente, Nye avalia a relevância e as características do poder econômico. A interdependência é uma das principais características da economia internacional. Os Estados Nacionais se afetam mutuamente por meio de diferentes relações econômicas assimétricas.  China e Estados Unidos, por exemplo, estão presos em uma relação de mútua dependência que se assemelha a uma versão econômica da MAD (Mutual assured destruction – destruição mútua assegurada) da Guerra Fria. A economia norte-americana se beneficia dos bens baratos produzidos na China e dos empréstimos chineses que financiam as altas taxas de consumo dos Estados Unidos. Por outro lado, a China necessita do mercado consumidor norte-americano e do investimento das empresas ocidentais. Nesse sentido, a China não pode se valer de seu crescente poder econômico para prejudicar de forma definitiva a economia norte-americana, uma vez que isso provocaria um dano irreparável ao sistema produtivo chinês. Nye observa que o poder econômico é muito relevante, mas que sua efetividade é contextual. Sanções e operações de ajuda humanitária, os dois principais instrumentos econômicos de política externa, têm eficácia limitada.  Ademais, o poder econômico reside em atores privados, nem sempre dispostos a realizar os objetivos governamentais. Por fim, Nye observa o papel do poder militar como ferramenta para estruturar mercados e estabilizar as trocas internacionais.

Outro aspecto relevante do poder no século XXI é sua dimensão cibernética e informacional. Nye pondera que o poder cibernético pode ser uma forma de Hard Power (poder de coerção). Nesse contexto, o autor enfatiza a existência de divisões militares chinesas especializadas em ataques cibernéticos. O objetivo da estratégia chinesa de ataques cibernéticos seria abalar sistemas de informação e diminuir a capacidade de comunicação do inimigo. O terrorismo cibernético e a espionagem informacional também são facetas preocupantes da revolução tecnológica experimentada no século XXI. Em resposta a esses desafios, os Estados Unidos criaram a décima frota e a vigésima quarta força aérea, divisões do exército especializadas em defesa e ataque virtuais. Apesar de sua importância, Nye avalia que o poder cibernético não será responsável por grandes mudanças na distribuição do poder no sistema internacional.

The Future of Power” também aborda o declínio do poder norte-americano e ascensão dos grandes mercados emergente, fenômeno batizado de transição de poder. Inicialmente, a obra avalia os potenciais competidores que poderiam herdar o status hegemônico dos Estados Unidos. Em termos materiais, a Europa seria o rival mais natural, uma vez que possui uma economia de tamanho e sofisticação comparáveis aos padrões dos Estados Unidos. No entanto, a União Europeia não é uma entidade política coesa e apresenta diversos desafios no processo de integração. Ademais, fatores culturais, econômicos e políticos tornam a Europa uma aliada natural dos Estados Unidos. O Japão também não representa uma ameaça à posição norte-americana, uma vez que sua economia pouco dinâmica e sua população decrescente limitam seus recursos de poder. Posteriormente, o autor avalia as perspectivas de cada um dos países do BRIC de ascensão ao status de superpotência. A Rússia apresenta as piores possibilidades, uma vez que possui uma economia em processo de desindustrialização e uma população decrescente. A Índia, embora com boas perspectivas demográficas e de crescimento econômico, possui inúmeros desafios sociais e apresenta uma renda per capita comparável à média africana. De forma análoga, o Brasil também possui sérios desafios internos que limitam sua capacidade de projeção de poder: desigualdade de renda, falta de competitividade e baixa produção de conhecimento. Em síntese, o crescimento da influência dos BRICs se confunde com a ascensão chinesa.

O desafio chinês é relativizado por Nye. Em primeiro lugar, a China carece de recursos de Soft Power, uma vez que seu modelo autoritário limita seu potencial de atração. Além disso, o crescimento econômico chinês tem gerado preocupação e receio em diversos mercados, fato que pode ajudar na criação de uma aliança para contrabalançar a ascensão do gigante asiático. A obra também avalia que o crescimento chinês deve diminuir significativamente assim que a renda per capita do país ultrapassar $ 10.000, devido ao efeito de alcance, conceito econômico que enuncia que o crescimento se torna cada vez mais difícil à medida que a dotação de capital de um país aumenta.  A demografia também é um fator preocupante para a potência asiática. A população chinesa envelhece rapidamente, de forma que, em 2030, haverá mais idosos do que crianças na China. Por fim, ainda que a economia chinesa supere a americana, Nye observa que em termos de sofisticação, os Estados Unidos seguirão como o centro da produção científica internacional.

            Ainda no contexto da transição de poder, Nye analisa o declínio da potência norte-americana. Alguns analistas avaliam que a fonte do colapso norte-americano reside na corrupção de seu sistema político, marcado pela polarização (entre conservadores e liberais) e pelo domínio dos grupos de interesses. Nye avalia que a democracia norte-americana é de alta qualidade e que o sistema político norte-americano pode se reinventar para lidar com os desafios do século XXI. Outra potencial fonte do declínio do poder norte-americano é a estagnação econômica. No entanto, a economia norte-americana é a mais dinâmica entre os países desenvolvidos e apresentou inegável capacidade de se adaptar frente às crises da década de 1970. Por fim, Nye avalia que as projeções de ascensão chinesa e queda norte-americana são unidimensionais, focadas unicamente no tamanho do PIB, e não levam em consideração a sofisticação da economia norte-americana, a supremacia militar dos Estados Unidos, as fragilidades internas do sistema político chinês e o complexo sistema de alianças que os Estados Unidos possuem.

A construção do quadro teórico-normativo da obra culmina com a exploração do conceito de Smart Power. Nye considera que a narrativa do poder no século XXI não será marcada pela maximização pura e simples do poder ou pela busca da preservação de hegemonias, mas da construção de estratégias que combinem os diferentes recursos de forma adequada ao contexto da “ascensão do resto” e da difusão do poder. Nye define o Smart Power como a integração inteligente de redes de diplomacia, defesa, desenvolvimento e outras ferramentas de Soft e Hard Power. A construção de uma estratégia efetiva de Smart Power envolve cinco passos: definir claramente os objetivos da política externa, elencar corretamente os recursos de poder disponíveis em diferentes contextos, avaliar os recursos e preferências dos outros atores internacionais envolvidos na agenda de política externa, escolher uma estratégia adequada de poder (coerção ou cooptação) e analisar a probabilidade de sucesso do curso de ação escolhido (observando os limites domésticos e internacionais da estratégia elegida). Diferentemente dos conceitos de Soft Power e de Hard Power, o conceito de Smart Power é claramente normativo e envolve um juízo de valor de uma estratégia considerada superior às demais. Do ponto de vista da Teoria das Relações Internacionais, uma estratégia de Smart Power exige uma síntese do Realismo e do Liberalismo – definida por Nye como Realismo Liberal – que combine elementos de análise do cenário doméstico e do sistema internacional, além de enfatizar a natureza contextual do poder.

Finalmente, Nye define os cinco maiores desafios para a política externa norte-americana no século XXI. O terrorismo nuclear é provavelmente a maior ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos e deve ser a prioridade da política de defesa do país. Em segundo lugar, o Islamismo político representa um claro desafio, mas deve ser encarado em um contexto de guerra civil entre as nações do Oriente Médio. O objetivo norte-americano deve ser apoiar a versão politicamente moderada do Islamismo, em detrimento dos regimes teocráticos e extremista. Em terceiro lugar, os Estados Unidos devem buscar formas efetivas de evitar a ascensão de superpotências hostis na Ásia. Em quarto lugar, um colapso do sistema econômico internacional afetaria decisivamente o poderio norte-americano. Finalmente, ameaças transnacionais, como um desastre ecológico ou uma pandemia, podem afetar seriamente o aparato produtivo dos Estados Unidos. Nye avalia que os Estados Unidos só podem engajar os cinco desafios por meio de uma estratégia de Smart Power que enfatize a construção de um sistema sólido de alianças. Em síntese, o problema do poder norte-americano no século XXI não é o declínio, mas a dificuldade em entender que mesmo o país mais poderoso do mundo não pode realizar seus objetivos sem a ajuda de outros.

O argumento de Nye tem o peso de um autor que ajudou a consolidar as Relações Internacionais como campo de estudo autônomo. O quadro teórico construído em “The Future of Power” é robusto e oferece importantes ferramentas para a compreensão da dinâmica do poder no século XXI. Não obstante, a estratégia de Smart Power concebida pelo autor encontra sérios limites para sua aplicação. Em primeiro lugar, Nye toca apenas marginalmente na questão dos limites fiscais da política externa norte-americana, que diversos analistas apontam como principal elemento limitador da projeção externa do poder norte-americano no século XXI. Em segundo lugar, grande parte do movimento conversador norte-americano tem dificuldade em aceitar uma política externa que enfatize o Soft Power e a importância das instituições internacionais. Os projetos conservadores de política externa, em geral, priorizam a ação unilateral e a dimensão militar do poder americano. As dificuldades para a consecução de uma estratégia norte-americana de Smart Power ficaram claras quando, no começo de abril, o congresso cortou o orçamento do Departamento de Estado em US$ 8,5 bilhões, dificultando a projeção de Soft Power dos Estados Unidos. Em síntese, Nye parece ter superestimado o apelo racional de seus argumentos e subestimado o potencial deletério da bipolarização política norte-americana.

NYE, Joseph (2010). The Future of Power. Washington, DC: PublicAffairs. 320p. ISBN-10: 9781586488918

Gustavo Resende Mendonça é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (gusresende@hotmail.com)

2 comentários »

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.