Política Internacional

Resenha do Livro "Principles of International Politics", de Bruce Bueno de Mesquita, por Luiz Antônio Gusmão

Tradicionalmente, ensinar teoria de relações internacionais consiste em apresentar conceitos, níveis de análise e agendas de pesquisa das principais correntes dessa disciplina. Excertos de obras seminais alimentam discussões em sala sobre os diversos pressupostos epistemológicos com que o aluno deve se familiarizar. Ao final do curso, tem-se um quadro-resumo comparativo de temas, autores e argumentos mais ou menos consistentes com certo conjunto de evidências empíricas, diante dos quais o aluno é compelido a tomar partido, segundo suas afinidades eletivas e preferências ideológicas.

A obra de Bruce Bueno de Mesquita (New York University e Hoover Institution at Stanford University), já na quarta edição, foge completamente a essa proposta enciclopédica: explicitamente, o objetivo principal do autor é incutir nos alunos de graduação, desde os primeiros semestres, o vocabulário e a gramática da chamada “perspectiva estratégica” – um modo de analisar as relações internacionais com base nos pressupostos da Escolha Racional e da Teoria dos Jogos. Nesse sentido, a política é vista como o produto de interações nas quais decisões individuais de líderes são condicionadas pelas escolhas de outros indivíduos ou grupos. Por esse prisma são apresentados e avaliados os fundamentos teóricos e a base empírica do neorrealismo, do liberalismo e do construtivismo, as teorias rivais que disputam o predomínio no campo.

Basicamente, a obra apresenta os fundamentos da “teoria do seleitorado” (selectorate theory), aplicando-a a uma gama de temas da política internacional. Os capítulos iniciais definem seus princípios básicos. Para BdM, o aspecto mais importante das relações internacionais é o modo como líderes, individualmente, traduzem interesses próprios em decisões e ações de política  externa. Ao contrário das teorias prevalentes em que restrições estruturais e sistêmicas são fatores explicativos cruciais, assume-se que indivíduos que ocupam postos de liderança (e não países ou nações) fazem aquilo que crêem ser melhor para si mesmos, o que, em última instância, significa permanecer em seus cargos. Os supostos interesses nacionais (políticas que seriam desejadas pela maioria de uma coletividade) são definidos em função de preferências e crenças dos líderes políticos.

No cerne da perspectiva estratégica está o pressuposto de que políticas externa e doméstica são inseparáveis: os líderes devem agir antecipando a reação que sua decisão irá produzir entre aliados e adversários provenientes das arenas políticas doméstica e internacional. Daí, decorre o caráter propriamente estratégico da abordagem: para sobreviver politicamente, os líderes devem considerar as preferências, o poder e as percepções tanto de indivíduos dos quais precisam de apoio quanto daqueles cuja oposição devem evitar. As reações esperadas a uma decisão são comparadas às reações antecipadas a outros cursos de ação possíveis. Assim, os líderes tomam decisões cientes de que aliados e rivais também agem para promover seus próprios interesses.

Como podemos ver, a perspectiva estratégica não dá muito crédito ao poder, por si só, como determinante das relações internacionais. Em vez disso, o emprego dos recursos de poder é mediado por preferências (interesses) e percepções (crenças pessoais) do decisor, podendo levá-lo a assumir grandes riscos, subestimando ou superestimando ações dos adversários. Assim, o fator determinante para um líder sobreviver politicamente está no equilibrio da satisfação de interesses dos aliados internos e as exigências dos rivais externos.

Assentada nesses pilares téoricos, a perspectiva estratégica reduz todas as formas de governo (democracias, monarquias, autocracias) a dois fatores domésticos cruciais: (1) o tamanho do “seleitorado”, grupo daqueles indivíduos que têm poder para indicar um líder, e (2) o tamanho da coalizão vencedora, subconjunto do seleitorado cujo apoio é imprescindível para que o líder se mantenha no poder. Ao líder, cumpre distribuir recursos na forma de uma combinação de bens públicos (que beneficiam a todos) e de bens privados (apropriados apenas pelos membros da coalizão vencedora). Segundo BdM, sistemas de grandes coalizões vencedoras tendem a produzir mais bens públicos e, no campo da política externa, se diferenciam dos países com sistemas de pequenas coalizões vencedoras por se engajarem em menos guerras e serem mais abertos.

As ferramentas analíticas que permitem traduzir esses pressupostos teóricos em análises empíricas são modelos formais como o teorema do eleitor médio (cap. 2) e a Teoria dos Jogos (cap. 3). BdM ilustra sua utilidade aplicando-os à questão do programa nuclear iraniano, à medida introduz conceitos como unidimensionalidade, preferências monotônicas, curvas de indiferença circular, utilidade esperada, cálculos de custo-benefício, propensão ao risco, estratégias dominantes, ótimos de Pareto, equilíbrios múltiplos etc. Transcendendo limites das teorias tradicionais, esses instrumentos se complementam: enquanto o modelo espacial permite ver como a distribuição de poder e preferências pode moldar os resultados políticos, pressupondo que os atores agem exclusivamente em função de suas preferências (ou seja, são “sinceros”), a Teoria dos Jogos  permite visualizar os incentivos para que se comportem estrategicamente, ou seja, para que considerem restrições impostas por outros atores, comparem recursos, ponderem riscos e estimem a certeza sobre preferências dos rivais.

Nos demais capítulos, BdM discute o rigor analítico e a base empírica de teorias realistas (cap. 4) e estratégicas (cap. 5) sobre causas das guerras e efeitos da política doméstica sobre as ações de política externa (cap. 6). O terrorismo é analisado como um problema de percepções e credibilidade de compromissos assumidos (cap. 7). BdM explicita os dilemas estratégicos que produzem a ineficiência de intervenções militares (cap. 8) e os efeitos perversos da assistência internacional (cap. 9) sobre processos de construção nacional e disseminação da democracia. Há ainda espaço para introduzir princípios elementares da economia política do comércio internacional (cap. 10) e discutir o papel de regimes e organizações internacionais no comprometimento com normas de direito internacional (cap. 11).

Encerram o volume apêndices sobre a evolução histórica do sistema internacional desde o século XV e sobre a aplicação do método científico na avaliação de argumentos e produção de explicações no campo das relações internacionais. O aluno conta ainda com amplo material de apoio em website da editora (http://bdm.cqpress.com) e um livro de exercícios (Applying the Strategic Perspective), essenciais para aplicação das técnicas discutidas em cada capítulo.

O livro só peca por omitir completamente referências às correntes teóricas do marxismo (presente em edições anteriores) e da teoria crítica. Mas isso não diminui o mérito da obra em oferecer aos graduandos, de forma inovadora, um instrumento científico, rigoroso e útil para compreensão crítica do complexo mundo da política internacional.

BUENO DE MESQUITA, Bruce. (2010) Principles of International Politics – 4th Edition. Washington, DC: CQPress. 460p. ISBN 978-0-87289-598-0

Luiz Antônio Gusmão é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e analista de relações internacionais da Fundação Alexandre Gusmão (FUNAG) ( luizgusmao@gmail.com)

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

0 comentário em “Resenha do Livro "Principles of International Politics", de Bruce Bueno de Mesquita, por Luiz Antônio Gusmão

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.