A onda de agitação política no Oriente Médio desencadeada pela Revolução de Jasmim na Tunísia, pela auto-imolação, em praça pública, de Mohamed Bouazizi, em protesto ao governo ditatorial de Ben Ali, já causou a queda deste. Com o seu transbordamento político pelo mundo árabe, já comprometeu também os duradouros governos de Hosni Mubarak, no Egito, onde os protestos envolveram uma cifra de pessoas na casa dos milhões, e de Abdullah Saleh, no Iêmen. Ambos os presidentes se recusam, por enquanto, a resignar, mas já sinalizaram que desistem de fazer a sucessão – coisa que muito provavelmente não fariam em outras circunstâncias. A luta de um povo pela extinção de regimes autocráticos, mesmo que mascarados de democracias, é salutar, e deve ser incentivada por aqueles que defendem as liberdades individuais.

Os acontecimentos recentes e seus desdobramentos, porém, apesar de serem primariamente movimentos políticos de caráter doméstico, certamente afetarão todo o contexto político da região e, com isso, haverá consequências para a sempre instável dimensão de segurança. É importante analisá-las de acordo com os possíveis resultados das agitações e também com a perigosamente peculiar conjuntura política atual da região.

O ponto central deste perigo é, como não poderia deixar de ser, Israel. A destituição de Ben Ali no governo da Tunísia tira de campo um presidente que, apesar de não ser aliado do país judeu, também não lhe era abertamente hostil. Porém, o novo governo que deverá formar-se nos próximos meses provavelmente será mais sensível às demandas da população, e o sentimento anti-Israel presente no povo árabe é mais forte do que alguns governos mais moderados poderiam deixar transparecer.

As agitações no Egito, porém, terão uma repercussão muito mais forte, pois este país é praticamente a única ponte saudável entre Israel e o mundo árabe/muçulmano, principalmente depois do quid pro quo com a flotilha de origem turca em maio de 2010, que comprometeu severamente os laços entre Israel e seu antigo aliado, Turquia. Se o presidente Hosni Mubarak for deposto, está bastante claro que o governo que assumirá com as bênçãos do povo não deverá continuar a política de amizade em relação a Israel, pelo menos não do modo como Mubarak vinha fazendo.

Ainda que Mohamed El-Baradei, o equilibrado ex-diretor da AIEA e laureado Prêmio Nobel da Paz, ocupe um cargo importante no próximo governo, o partido Al-Ikhwan, ou Irmandade Muçulmana, que hoje está ilegal, terá também um papel de liderança, pois tem um grande número de apoiadores. Isto não quer dizer, como alguns analistas prevêem, que a Irmandade Muçulmana instalará necessariamente um governo terrorista no Egito, porém é sensato admitir uma reversão no sentido da política de relações com Israel. E, com isso, além de perder o seu último aliado forte na região, o país provavelmente ganhará mais um inimigo.

Junto a estas possíveis consequências deve-se analisar o peso da conjuntura política na região, que parece ser especialmente instável por três motivos: O primeiro deles é a tomada do poder no Líbano pelo Hezbollah, um partido abertamente anti-Israel e que possui um braço terrorista que se acredita ser apoiado pelo governo Iraniano. As relações Israel-Líbano começaram a se deteriorar em agosto de 2010, com um pequeno conflito de fronteira, e o controle da máquina estatal pelo Hezbollah não leva a crer em uma redução das tensões, mas, pelo contrário, em uma escalada.

O segundo ponto a se considerar é a saída do ex-primeiro-ministro e atual ministro da guerra  do governo de Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, do partido trabalhista, para fundar o seu próprio partido, Ha’Atzmaut (Independência). O movimento originou-se de diferenças entre Barak e a maioria do partido trabalhista, principalmente em relação ao processo de paz com a Palestina.

A manobra dá fôlego novo ao governo pouco colaboracionista de Netanyahu, pois a atuação discordante de Barak dentro do partido Trabalhista causava problemas internos no partido, arriscando assim comprometer a base de apoio ao primeiro-ministro no Knesset (Parlamento israelense), e há comparações de Barak em seu novo partido com Avigdor Lieberman, Ministro das Relações Exteriores e político conhecido por posições radicais no que diz respeito aos palestinos. Essa nova configuração política, com uma possível maior influência do ex-comandante em chefe do exército israelense Barak, poderá trazer Israel mais para longe do caminho da moderação.

O terceiro ponto diz respeito à possível perda de crédito no governo do Fatah da Autoridade Palestina (AP) que poderá seguir-se à publicação em janeiro, pela rede árabe de mídia Al-Jazira, de milhares de documentos secretos envolvendo negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, nos quais estão descritas negociações em que aparentemente a AP faz concessões demais a Israel em troca de pouco ou quase nada. Esse fato tem duas possíveis repercussões: a primeira é a diminuição na legitimidade do Fatah, o partido secular que controla a AP atualmente, o que abre espaço para um fortalecimento do bem menos moderado partido islamista Hamas, e a segunda é um maior sentimento de revolta entre o povo palestino. As duas repercussões apontam para um aumento nas tensões internas entre Israel e Palestina.

Com esses elementos, pode-se notar um aumento muito significativo na hostilidade a Israel em três de suas cinco fronteiras, deixando o país literalmente cercado por inimigos. Apesar de estarmos em condições políticas completamente diferentes, foi uma situação semelhante que desencadeou a Guerra dos Seis Dias – uma memória sempre forte no povo israelense. A tudo isso soma-se o forte receio, nos escalões do governo israelense, da preparação de uma bomba nuclear pelo Irã. A subida ao poder de um aliado do Irã no Líbano, o provável surgimento de um novo inimigo do outro lado do canal de Suez e o novo papel assumido pelo ex-soldado e atual ministro da Guerra Barak pode levar Israel a uma maior propensão a um ataque pre-emptivo – mais um paralelo com aquela Guerra, com o agravante de que agora Israel tem poder nuclear e de que é possível que em breve o Irã também o tenha.

Com tudo isso, é possível ouvir desde já o ruflar dos tambores de uma guerra que tem todos os elementos de um conflito de grandes e desastrosas proporções. O único modo de evitá-la passa, em primeiro lugar, pela moderação ativa do governo dos Estados Unidos, tanto no que diz respeito aos novos governos formados em resposta aos protestos políticos, quanto no que diz respeito a uma forte pressão pelo controle dos setores mais exaltados da população e do governo israelense. A atuação cuidadosa dos EUA será também importante porque pode ser que, da vontade popular árabe, surjam novos governos islamistas no lugar dos governos anteriores, que, apesar de serem ditaduras, eram apoiados pelos Estados Unidos por seu caráter secular. No caso de isto acontecer, um passo errado daquele país no início das relações com estes governos, como, por exemplo, suspender o aporte de US$ 1,3 bilhões anuais em ajuda militar ao Egito, como alguns setores do governo americano têm sugerido, será mais um forte fator de desestabilização.

Há, também, um papel importante nas mãos do novo partido trabalhista que, sem Barak, provavelmente fará uma pressão política séria para a retomada das negociações de paz com os palestinos. Esses são elementos importantes de autorrestrição das partes envolvidas, sem os quais a fórmula Dia de Ira, utilizada pelos protestantes egípcios para descrever o fatídico dia 25 de janeiro, poderá ter uma sombria semelhança com a fórmula análoga Dies Irae – o terceiro movimento do rito fúnebre medieval.

 

Henrique Fialho Barbosa é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (henriquefb@gmail.com).

 

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