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A country on the fence: United Kingdom’s perceptions of the status and international agenda of Brazil, uma entrevista com Daniel Buarque, por Yasmin Paes

O artigo publicado no vol. 63, n. 1 da Revista Brasileira de Política Internacional intitulado “A country on the fence: United Kingdom’s perceptions of the status and international agenda of Brazil” aborda as percepções do Reino Unido sobre a posição do Brasil na política internacional. O artigo busca contribuir para o estudo do status nas Relações Internacionais, utilizando-se de um paradigma qualitativo, focado em percepções e intersubjetividade. Um dos elementos principais para a determinação de status é ter o reconhecimento de outros países, especialmente de países com grande status na hierarquia internacional. Para tanto, o autor entrevistou diplomatas britânicos de alto escalão que serviram no Brasil com a finalidade de apresentar uma amostra da percepção da comunidade de política externa do Reino Unido sobre o posicionamento brasileiro em assuntos críticos da agenda internacional. A percepção desses diplomatas é que o Brasil teria uma ideia equivocada do status que realmente possui, acreditando ser um ator mais importante do que realmente é. A principal congruência observada nas respostas dos entrevistados é de que o Brasil frequentemente adota uma conduta neutra e evita comprometimento, denotando uma postura incoerente para um país que deseja ter maior relevância no contexto mundial.  

Daniel Buarque concedeu entrevista sobre sua pesquisa a Yasmin Paes, mestranda em Análise e Gestão de Políticas Internacionais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.  

Em seu artigo, você aborda como estudos anteriores sobre status nas Relações Internacionais giravam em torno do desenvolvimento de métodos quantitativos para medir status. Assim, sua pesquisa é uma tentativa de utilizar análise qualitativa para preencher lacunas que não são respondidas através de pesquisas quantitativas. Quais são as principais contribuições e limitações encontradas no uso de uma abordagem qualitativa para o estudo do status nas RI? 

A contribuição mais interessante de um estudo qualitativo feito dessa forma é a de considerar a importância do olhar do outro, da percepção externa, e do reconhecimento para a consolidação do status de um país. Na literatura em inglês, fala-se do “eye of the beholder”, que é fundamental na questão do caráter intersubjetivo do status, mas que muitas vezes é deixado de lado por pesquisas dessa área, abrindo uma lacuna importante nos estudos de status.  

A abordagem qualitativa que uso em minha pesquisa considera essas percepções subjetivas de membros da comunidade de política externa de um país como parte da construção intersubjetiva do status internacional do Brasil. O estudo sobre status tem origem em pesquisas de Sociologia, Economia e Psicologia que falam muito dessa importância do reconhecimento externo da posição hierárquica de um país. O uso dessas teorias em relações internacionais passa pela ideia da constante luta pelo reconhecimento (que é muito discutida desde a obra de Hegel e se reflete em trabalhos importantes de RI). O status de um país não é o que ele busca ou quer que seja, mas aquele que os outros países reconhecem como real. E este reconhecimento pode se revelar através da percepção subjetiva de atores relevantes da política externa, como diplomatas e outros membros da comunidade de política externa global. Isso cria um ponto de análise muito importante para a discussão sobre o lugar do Brasil no mundo e o papel que o país pode ter. Não necessariamente para o país se encaixar no que se espera dele, mas para o país poder planejar melhor suas estratégias de ampliação de status e reconhecimento. 

Este tipo de abordagem não é muito comum nas pesquisas sobre status internacional, que muitas vezes focam estudos quantitativos com base em informações sobre representações diplomáticas, por exemplo, ou em análises de política externa que avaliam estratégias usadas para tentar promover o status do país. Isso se dá pelo fato de que é praticamente impossível realmente medir e avaliar todas as percepções externas e entender todas as nuances sobre este olhar do outro, o que cria uma limitação prática para estudos qualitativos. Além disso, pode-se criticar o uso de entrevistas como sendo incapaz de revelar o que os atores de política externa realmente pensam sobre um país. Essas impossibilidades são limitações reais do método qualitativo, que não gera dados capazes de representar toda a realidade estudada, mas avalia apenas uma amostra dessas percepções. 

Acontece que o paradigma da pesquisa qualitativa empregada no meu estudo não se propõe a revelar “a verdade absoluta” em dados de toda a realidade sobre status do Brasil em relações internacionais. A abordagem qualitativa propõe uma avaliação reflexiva e metodologicamente embasada sobre uma possível interpretação da verdade sobre o status do Brasil. Ela se baseia na análise temática de entrevistas com fontes relevantes e apresenta uma interpretação desse contato com a percepção externa sobre o status do país. E aceita que entrevistas com fontes diferentes e analisadas por um pesquisador diferente poderiam gerar dados e interpretações diferentes da realidade.  

Isso não reduz em nada a relevância do que é apresentado pela pesquisa, mas é um paradigma realmente diferente do adotado por estudos quantitativos. A discussão sobre a percepção subjetiva dos diplomatas entrevistados são uma base importante para entender o status do Brasil a partir da questão da intersubjetividade, e traz uma abordagem importante para o debate da política externa do Brasil. A interpretação desses dados mostra, por exemplo, que uma postura tradicional da política externa brasileira, a da neutralidade, não é vista externamente como sendo favorável ao projeto do país de ampliar seu status. É uma conclusão a que dificilmente se poderia chegar sem uma abordagem qualitativa, e que possivelmente não apareceria em um levantamento quantitativo sobre o status do Brasil. Portanto há uma contribuição importante trazida por esta abordagem, que pode revelar o olhar externo sobre o país e levar a discussões mais profundas e embasadas sobre os objetivos e estratégias de política externa – bem como abre um caminho para novas pesquisas qualitativas e quantitativas para desenvolver ainda mais o conhecimento sobre este tipo e interpretação sobre o país.   

Como abordado no artigo, as entrevistas realizadas com seis diplomatas britânicos não refletem a percepção de todos os representantes do Reino Unido sobre o status do Brasil, mas são uma amostra do que a comunidade de política externa britância observa em relação ao nosso país. Considerando a escolha da metodologia de análise temática reflexiva, em que medida as percepções desses diplomatas poderiam se aproximar do discurso oficial da política externa britânica sobre o Brasil? 

A aproximação das opiniões dos entrevistados com o discurso oficial é um tanto natural por eles serem membros do FCO, uma instituição governamental, e terem trabalhado por anos em torno da política externa oficial do Reino Unido em relação ao Brasil. As entrevistas não buscaram, entretanto, entender necessariamente o “discurso oficial” da política externa britânica, mas tentaram revelar um lado mais subliminar sobre o que a comunidade da política externa do país pensa em relação ao Brasil e o lugar e o papel que o país pode ter no mundo. A ideia de fazer as entrevistas de forma semi-estruturada, de perguntar sobre opiniões pessoais, de oferecer anonimato às fontes, de falar de forma mais livre, era justamente tentar ir além do discurso oficial. As entrevistas buscaram descobrir as ideias de pessoas dessa comunidade britânica a respeito do Brasil.  

Isso foi de certa forma bem-sucedido. Por mais que haja posturas oficiais do Reino Unido cobrando um posicionamento do Brasil em algumas questões internacionais (como no caso da disputa com a Rússia por conta de envenenamentos no Reino Unido), a avaliação de que o Brasil com frequência fica “em cima do muro” vai bem além desse discurso oficial. Da mesma forma, a percepção de que o Brasil se acha mais importante do que realmente é também não faz parte do discurso oficial – e ficou evidente nas entrevistas. 

Se a pergunta for em torno do quanto essas seis entrevistas são de fato representativas da opinião geral de toda a comunidade de política externa do Reino Unido, a resposta está mais ligada ao que tratamos na primeira pergunta. Os entrevistados são diplomatas de alto nível e conhecem com profundidade os detalhes da posição britânica em relação ao Brasil, mas é claro que outros entrevistados (e outro entrevistador) poderiam gerar dados e interpretações diferentes. Ainda assim, a análise apresentada tem relevância e mostra a percepção de um grupo relevante da comunidade de política externa do Reino Unido. 

Um ponto interessante dessa questão sobre as opiniões dos entrevistados e o “discurso oficial” é que esses diplomatas muitas vezes demonstram que gostariam que o Brasil tivesse mais relevância para o Reino Unido, e fosse mais conhecido no país (pela população e pelos políticos). Eles relatam o trabalho que tiveram para levar o país ao centro de alguns debates da política externa britânica, e a tentativa de mostrar para políticos ingleses que não prestam tanta atenção ao Brasil as oportunidades de uma aproximação entre os dois países. Uma anedota contada por mais de um dos diplomatas fala sobre a surpresa de premiês britânicos que viajam ao Brasil e “descobrem” que São Paulo é uma grande metrópole, por exemplo.  

Portanto vê-se que as entrevistas revelam um lado mais subliminar dessa percepção externa sobre o país e seu papel no mundo. Este era um dos objetivos da pesquisa. 

O Reino Unido é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) e possui alto status dentro da comunidade internacional. Sabe-se que a reforma do CSNU e a inclusão de mais assentos permanentes depende da vontade dos atuais membros em abrirem mão do status quo. Como abordado no artigo, o Reino Unido apoia formalmente a campanha brasileira por uma cadeira permanente no Conselho e deseja ver o Brasil desenvolver seu protagonismo internacional. Se por um lado, as entrevistas com os diplomatas britânicos indicam que o comportamento brasileiro em não tomar partido e ficar “em cima do muro” não contribui para a consecução desses anseios, por outro lado, a reforma do CSNU pode não ocorrer pelo motivo já citado e o Brasil nunca conseguirá de fato ascender da forma que deseja. Em que medida a percepção britânica sobre neutralidade brasileira poderia refletir uma percepção similar de outros membros permanentes e influenciar a busca do Brasil por protagonismo na comunidade internacional? 

Esta é uma questão muito importante, e faz parte do trabalho que estou desenvolvendo em minha pesquisa de doutorado pelo King’s College London e pelo IRI/USP. O artigo publicado pela RBPI é uma amostra desse estudo mais amplo que estou fazendo na tese de conclusão do doutorado. Minha pesquisa avalia o status do Brasil e sua agenda internacional a partir da percepção da comunidade de política externa dos cinco países que são membros permanentes do CSNU (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China). Enquanto o artigo avalia 6 entrevistas com diplomatas britânicos, este estudo do doutorado é baseado em uma metodologia semelhante, de análise temática reflexiva, mas tem como base de dados 94 entrevistas que conduzi com representantes desses cinco países. É uma análise muito mais ampla sobre o status do Brasil a partir da ótica de observadores em países que têm alto status global.  

O corpo de dados é muito rico, inclui cerca de 60 horas de gravações de entrevistas e resultou em cerca de 500 páginas de transcrições. A análise desses dados revelou muitos temas relevantes e vai gerar um trabalho muito mais aprofundado sobre o status do Brasil a partir da perspectiva intersubjetiva. É uma análise que busca saber exatamente essa percepção externa sobre a busca do Brasil por protagonismo internacional. 

Uma avaliação inicial dos dados mostra que esta avaliação crítica sobre a neutralidade representar o Brasil “em cima do muro” aparece em outras entrevistas, mas estava muito mais claramente na amostra de dados representando o Reino Unido. Quando consideradas as percepções dos cinco países, o posicionamento aparenta ser mais amplo, indicando que o Brasil tem ambição de ser um ator político global e importante, mas não parece ter uma política externa consistente. Os dados dos cinco países também refletem a percepção de que o Brasil se acha mais importante do que realmente é, mas que não parece disposto a assumir as responsabilidades atreladas a um status maior, como o de membro permanente do CSNU.  

Entender as avaliações dos cinco membros permanentes do CSNU a respeito do Brasil é um trabalho muito mais aprofundado e complexo, mas que também deve trazer uma contribuição importante para estudos de RI ao usar uma abordagem qualitativa e enfocar a ideia da intersubjetividade do status do país no mundo. 

Leia o artigo 

Buarque, Daniel. (2020). A country on the fence: United Kingdom’s perceptions of the status and international agenda of Brazil. Revista Brasileira de Política Internacional, 63(1), e012. Epub September 07, 2020.https://doi.org/10.1590/0034-7329202000112 

Sobre os autores 

Daniel Buarque, King’s College London, Brazil Institute, London, United Kingdom .

Yasmin Paes, mestranda em Análise e Gestão de Políticas Internacionais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 

Como citar esta entrevista 

Cite this article as: Editoria Mundorama, "A country on the fence: United Kingdom’s perceptions of the status and international agenda of Brazil, uma entrevista com Daniel Buarque, por Yasmin Paes," in Revista Mundorama, 10/09/2020, https://mundorama.net/?p=27647.

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).