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Sharing responsibility: jeopardised multilateralism and the growing centrality of Triangular Cooperation, entrevista com Geovana Zoccal, por Mila Campbell 

No artigo “Sharing responsibility: jeopardised multilateralism and the growing centrality of Triangular Cooperation publicado na Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI (Vol. 63, n. 2 – 2020), Geovana Zoccal, Doutora em Relações Internacionais pela PUC-RJ, discute o papel central da Cooperação Triangular na implementação da Agenda 2030 ao incentivar parcerias e o compartilhamento de responsabilidades entre países do Norte e do Sul Global. Segue abaixo entrevista concedida pela autora à Mila Campbell, mestranda em Relações Internacionais da Universidade de Brasília. 

Considerando a crescente presença chinesa nos fóruns multilaterais e a implementação vertiginosa da “Belt and Road Initiative”, o que diferencia a China dos demais países doadores em termos de estabelecimento de parcerias estratégicas na cooperação internacional para o desenvolvimento? 

Nas últimas décadas, líderes de países emergentes de maneira geral, e líderes chineses em particular, buscaram ampliar alcance de sua influência no sistema internacional. Além do crescimento vertiginoso do PIB, a China passou por um processo de desenvolvimento tecnológico e científico, redução das taxas de pobreza e da fome. Fatores esses impulsionaram o fortalecimento da Cooperação Sul-Sul (CSS) e Cooperação Triangular (CTr).  

A diplomacia regional e global de Beijing atua de maneira seletiva e bastante pragmática, em uma espécie de multilateralismo proativo. A partir de uma diplomacia pluri-regional, a China propôs diversas plataformas multilaterais de diálogo. Arranjos multilaterais específicos como a Belt and Road Initiative, mas também o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), o Fórum China-CELAC (FCC) e o Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum de Macau) se tornaram importantes ferramentas para a política externa chinesa. Com clara preponderância política chinesa, tais fóruns mostram que a China, insatisfeita com a reciprocidade difusa do multilateralismo estabelecido desde o consenso de Washington, desenvolve arranjos multilaterais liderados por ela mesma. Mesmo que essas plataformas pluri-regionais tenham sido lançadas com foco na cooperação comercial, também se tornaram espaços de articulação política.   

Essa atuação seletiva e pragmática também se aplica no âmbito específico da cooperação triangular. Mesmo que a diplomacia chinesa reforce a importância do princípio de responsabilidade comuns porém diferenciadas (CBDR) e que a cooperação triangular seja uma parcela muito pequena do portfólio da cooperação chinesa, através de tais parceiras, a China responde à pressão de doadores tradicionais pelo aumento da participação ativa de países do sul global como provedores de cooperação para o desenvolvimento e compartilha responsabilidades na implementação da Agenda 2030. 

De que maneira a Cooperação Triangular, alicerçada no conceito de Reciprocidade Específica, permite superar as “relações coloniais” doador-receptor que as modalidades de Cooperação Norte-Sul e Sul-Sul podem gerar?   

Penso que aqui é preciso dar um passo atrás e se perguntar se a cooperação triangular permite superar as “relações coloniais”. Isso não está dado. A cooperação triangular, assim como a Norte-Sul e a Sul-Sul, é bastante diversa. Como aponto no artigo, não há definição comum e internacionalmente acordada dessa modalidade. Tampouco há princípios internacionalmente compartilhados.  

Contudo, e justamente baseada na reciprocidade difusa da CTr, diferentes atores criam espaço de diálogo político e, para além de projetos de desenvolvimento ad hoc, desenvolvem também diretrizes, processos e manuais operacionais. Tais processos fomentam a revisão de práticas tradicionais de cooperação que, em muitas vezes, apresenta uma relação vertical entre os parceiros.  

A importância da CTr tem crescido, principalmente após o PABA+40. A modalidade vem sido apontada como uma alternativa para compartilhar soluções, práticas, custos e responsabilidades. As assimetrias entre os atores continuam, claro, existindo. Mas ao fomentar relações mais horizontais e participação ativa dos parceiros envolvidos, é instrumento chave para fortalecer a participação ativa de beneficiários da cooperação e promover o princípio de ownership.   

No atual contexto de mudanças na Política Externa Brasileira, principalmente no que concerne a suas parcerias estratégicas, qual o futuro do Brasil no incentivo à Cooperação Triangular para a implementação da Agenda 2030? 

No Brasil, a atuação no fortalecimento de uma “identidade sul” e de blocos como o G77, BRICS ou o IBSA perdeu espaço e deu lugar a busca de novas parcerias, como o alinhamento automático ao EUA. Contudo, o cenário internacional está bastante incerto. Questões como a pandemia de COVID-19 e as próximas eleições presidenciais nos EUA terão impacto fundamental nas mais diversas agendas da política internacional.  

Por outro lado, a dinâmica da cooperação triangular, justamente por ser uma modalidade que reforça as reciprocidades específicas, é um mecanismo que possibilita parcerias estratégicas negociadas “caso-a-caso”. Essa característica abre espaço para, por exemplo, a nova parceria para o desenvolvimento mundial entre Brasil e Reino Unido, um dos exemplos que trago no artigo. Provedores da CSS podem, através do fortalecimento da cooperação triangular, estabelecer tais parcerias desviando-se de longos processos de negociações em organismos multilaterais. 

A pandemia de COVID-19 intensificou o questionamento da eficácia do sistema multilateral na solução de desafios que são de “escopo global e sem precedentes em escala”. Como a Cooperação Triangular pode contribuir para a recuperação global num cenário pós-pandemia? 

Historicamente, a diplomacia da saúde é catalizadora de processos da agenda de cooperação internacional para o desenvolvimento. Aqui podemos lembrar das epidemias de H1N1 e Ebola. Mas não só na área da saúde, a cooperação triangular pode auxiliar na recuperação dos mais diversos âmbitos socioeconômicos.   

Penso que aqui é possível retomar um dos principais argumentos a favor da CTr. A modalidade, por ser dinâmica e flexível, abre espaço para inovação, adaptação a diferentes contextos de experiências de sucesso, compartilhamento de custos, de conhecimento e tecnologias. Através da CTr diversos atores, e aqui principalmente os países em desenvolvimento, fortalecem seu portfólio de cooperação e ampliam sua capacidade de ação e impacto.   

O documento final acordado no PABA+40 mencionou a CTr diversas vezes. Dentre elas, apontando a importância da modalidade para a produção de conhecimento e para o fortalecimento de recursos humanos através de capacity-building, principalmente na área de ciência, tecnologia e inovação. Tais áreas são fundamentais já no atual cenário, e seguirão cruciais na recuperação global pós-pandemia.   

Leia o artigo  

Zoccal, Geovana. (2020). Sharing responsibilityjeopardised multilateralism and the growing centrality of Triangular Cooperation. Revista Brasileira de Política Internacional, 63(2), e007. Epub August 10, 2020. https://doi.org/10.1590/0034-7329202000207  

Sobre as autoras 

Geovana Zoccal, BRICS Policy Center – LACID, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 

Mila Campbell, Universidade de Brasília, Instituto de Relações Internacionais, Brasília, Brasil  

Como citar esta entrevista 

Cite this article as: Editoria Mundorama, "Sharing responsibility: jeopardised multilateralism and the growing centrality of Triangular Cooperation, entrevista com Geovana Zoccal, por Mila Campbell ," in Revista Mundorama, 31/08/2020, https://mundorama.net/?p=27624.
 

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).