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Diverse images, reverse strategies: Brazilian foreign ministers’ perceptions and the Brazil-Argentina rapprochement (1974-1985), entrevista com Álvaro Costa Silva, por Victor Thives

No campo de Análise de Política Externa, consideram-se múltiplos níveis de análise — como dinâmicas de grupos decisórios, psicologia dos líderes, fatores culturais e características sistêmicas e nacionais —, visando a compreender as decisões dos governos na arena internacional. Com o intuito de lançar luz sobre a política de aproximação entre Brasil e Argentina, que se iniciou no final da década de 1970, diferentes hipóteses já foram aventadas. A hipótese “democrática” atribui a aproximação aos processos de redemocratização de ambos os países (Remmer 1998). A hipótese “sistêmica”, por sua vez, imputa o apaziguamento aos crescentes custos de se manter a desconfiança bilateral (Saint-Pierre et al. 2007). Há, ainda, estudos que entendem que a détente externa serviria de reforço à abertura interna (Resende-Santos 2002).

Ainda que Álvaro Costa Silva não desconsidere essas hipóteses em seu artigo “Diverse images, reverse strategies: Brazilian foreign ministers’ perceptions and the Brazil-Argentina rapprochement (1974-1985)”, publicado na RBPI (Vol. 63, n. 1 — 2020), o autor entende que, sozinhas, elas não determinaram a política brasileira para a Argentina no período. Com base em fontes primárias e partindo de uma abordagem cognitiva das visões de mundo dos chanceleres brasileiros Azeredo da Silveira (1974-1979) e Saraiva Guerreiro (1979-1985), Silva propõe interpretação inovadora acerca da mudança de posição do governo brasileiro com relação à Argentina no período em questão. O autor foi entrevistado por Victor Thives, membro da equipe de divulgação da RBPI, acerca de temas relacionados à sua pesquisa.

No que concerne às fontes, quais são as diferenças em se realizar um estudo de análise cognitiva em documentos não oficiais, como entrevistas de história oral, e em documentação diplomática oficial, como telegramas ou Informações ao Presidente? As percepções dos chanceleres com relação à Argentina são mais evidentes em algum tipo de documento?

Ao longo da pesquisa foi possível notar que nas entrevistas de história oral as percepções dos chanceleres ficaram mais evidentes. Acredito que isso se deve ao próprio caráter da fonte. Naturalmente, discorrer sobre o tema em uma entrevista de história oral envolve uma liberdade muito maior do que em um documento escrito. Nas Informações ao Presidente, por exemplo, o chanceler devia passar a informação de modo sucinto, afinal, o Presidente não se dedica apenas aos temas de política externa. Mas o ideal ao pesquisador é averiguar se, nos telegramas e/ou Informações do período, as justificativas e inferências do tomador de decisão convergem com o que foi narrado na entrevista, que foi feita anos depois. Isso é ainda mais importante no caso deste artigo, afinal, eu olho para os Chanceleres. Eles tinham autonomia, mas precisavam justificar ao Presidente as suas posições. No caso do Silveira, por exemplo, foi possível ver as descrições dos fenômenos da Inversão de expectativas e da Competição desenvolvimentista ainda enquanto embaixador em Buenos Aires, como forma de basear seus comentários e percepções sobre acontecimentos no país vizinho. Em telegrama de 1973 para o chanceler Gibson Barboza, Silveira já descrevia o “grande dilema argentino”, que era ver o Brasil inviabilizando suas intenções de destino de grandeza. Isso era a interpretação dele sobre os rumos de um debate em um programa de TV argentino, cujo tema era a relação bilateral Brasil-Argentina.

 

Dada a maior instabilidade institucional na Argentina, com mais titulares ocupando a pasta do Exterior durante o período estudado, seria possível fazer uso da abordagem cognitiva, que privilegia a análise do papel dos indivíduos, para entender as posições daquele país com relação ao Brasil?

Acredito que a pessoa interessada em seguir essa linha encontraria mais dificuldades, nesse caso. Isso muito mais pela falta de autonomia dos Chanceleres no período do Proceso de Reorganización Nacional. Os telegramas vindos da embaixada brasileira em Buenos Aires narravam a existência de uma disputa política entre Jorge Videla, o presidente, e Emílio Massera, da Marinha. Tomemos dezembro de 1978, por exemplo, ponto crítico das negociações sobre Itaipu, quando o Brasil ainda defendia a manutenção das duas turbinas de reserva, que o Saraiva Guerreiro abriria mão depois. Ali houve “uma verdadeira discussão”, para tomar as palavras do Silveira em uma das Informações, entre o chanceler Carlos Pastor e o subsecretário de Relações Exteriores, o Oscar Allara, que era um militar. Pastor era mais ligado ao Jorge Videla, que era do Exército e se mostrava mais disposto a aceitar os temos do acordo como estavam. Allara era mais próximo de Emílio Massera, da Marinha, que era contrário a tal configuração. Vou pegar outro exemplo agora, o do chanceler Nicanor Costa Méndez, que assumiu o cargo em 1981 e saiu pouco depois da Guerra das Malvinas. Ali o presidente já era o Galtieri, e na Marinha estava o Anaya. O Nicanor não teve peso no processo decisório sobre a Guerra das Malvinas, por exemplo. Pelo contrário! A aventura militar foi, basicamente, fruto de ação e decisão dos militares. Quando se parte para uma análise cognitiva, o primeiro passo é ver se o tomador de decisão referido tem um grau de autonomia necessário para agir conforme suas percepções, se há algum outro ator que rivaliza com suas posições… Assim, tenho algumas dúvidas sobre a aplicabilidade desse ferramental para os chanceleres argentinos.

Durante a pesquisa, foi possível identificar diferenças nas imagens e percepções dos presidentes Geisel e Figueiredo acerca da Argentina, que possam ter também influenciado o relacionamento bilateral?

Há muito menos indícios, especialmente em relação ao Geisel. Na entrevista de história oral que ele deu ao CPDOC, por exemplo, ele chega a mencionar que a Argentina tinha uma postura “do contra”, com restrições ao Brasil. Mas não tive indícios suficientes para indicar que essa percepção moveu uma posição contrária de Geisel ao acordo, ou se ela já existia antes de seu período enquanto presidente. É diferente de Silveira, por exemplo, cujos indícios de restrições à Argentina existem desde o seu período enquanto embaixador no país, que foi entre 69 e 74. Não só isso, como há indícios de que elementos de sua imagem pré-existente sobre a Argentina também moldaram suas percepções sobre a questão de Itaipu, que geraram a estratégia mais rígida que ele adotou enquanto chanceler frente ao país vizinho. Já sobre Figueiredo, algo que muitos apontam é a vivência dele na Argentina quando seu pai foi exilado, um apego sentimental ao país vizinho que incluiu elementos como o fato de ser torcedor do San Lorenzo. Esses elementos teriam feito com que o presidente, de modo aposto ao chanceler Silveira, nutrisse uma imagem positiva da Argentina. Guerreiro apontou isso na entrevista dele, o “fraco sentimental” que Figueiredo tinha pelo país vizinho, o grau de prioridade que ele deu a um acerto na questão de Itaipu com os argentinos. Mas, a escolha e desenvolvimento da estratégia coube ao Guerreiro, que foi além da resolução da questão de Itaipu, que era a grande intenção do presidente. A posição brasileira durante a Guerra das Malvinas foi tomada por Guerreiro, de modo acidental, como ele mesmo descreve tanto em seu livro de memórias, quanto no depoimento ao CPDOC. Ele foi surpreendido por jornalistas, quando em Nova Iorque, que buscavam saber a posição brasileira sobre a questão.

No momento atual das relações Brasil-Argentina, estariam os aspectos cognitivos dos policy-makers se sobrepondo a variáveis nacionais e sistêmicas, no que concerne à determinação do relacionamento entre Brasília e Buenos Aires?

Essa é uma boa pergunta. Tendo a crer que essa é uma variável importante na análise, especialmente considerando os desencontros pessoais entre ambos. Mas acredito que apontar a uma sobreposição dessa variável em relação às variáveis doméstica e sistêmica talvez, pelo menos por enquanto, ainda não seja cabível. Acredito que um caminho de análise futura, tomando o presidente Bolsonaro, pode ser como a restrição que ele nutre a líderes que estariam posicionados à esquerda do espectro político, e a visão positiva que possui em relação a outros governos à direita, impactou na aproximação/afastamento do Brasil em relação a certos países. Alguns analistas têm indicado a disposição do presidente em apostar nas relações com governos (com ideologia similar) em vez de relações com Estados. Isso envolveria de modo claro o governo Trump (EUA), mas também outros, como o governo Duda (Polônia). No caso da relação com o Fernández, a situação foi agravada por desencontros de cunho pessoal mesmo. Isso envolve, no lado do presidente Bolsonaro, desde o uso de termos menos elegantes (como “esquerdalha”) para se referir a Alberto Fernandez, até o tweet de teor homofóbico que o Eduardo Bolsonaro fez em alusão ao filho do presidente argentino, o Estanislao Fernández, que faz cosplays. Já sobre o presidente Fernández, as diversas menções ao ex-presidente Lula certamente não contribuíram no relacionamento com o presidente brasileiro. Acredito que, em ambos casos, a questão é menos sobre uma imagem nacional, e mais pessoal que um tem sobre o outro. Mas, em relação ao fato de sobreposição dessa variável, nós não podemos esquecer o papel de outros atores, de viés “pragmático”, na moderação dos efeitos dessa recalcitrância do presidente Bolsonaro frente ao mandatário do país vizinho. Tais atores – como o vice-presidente Mourão, ou o deputado Rodrigo Maia -, preocupados com os impactos de uma degradação da relação Brasil-Argentina, buscaram colocar panos quentes em desencontros e manter um canal de comunicação entre os dois países. E isso tem sobreposto a indisposição entre Bolsonaro e Fernández. A chave para uma análise, julgo, está no grau de margem de manobra desses atores pragmáticos, e até qual ponto eles conseguirão manter tal esforço.

Leia o artigo

Silva, Álvaro Costa. (2020). Diverse images, reverse strategies: Brazilian foreign ministers’ perceptions and the Brazil-Argentina rapprochement (1974–1985). Revista Brasileira de Política Internacional, 63(1), e006. Epub June 12, 2020.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329202000106

Sobre os autores

Álvaro Costa Silva — Universidade do Estado do Rio de Janeiro — Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro, RJ, Brasil (alvarovicentecosta@gmail.com)

Victor Thives – Universidade de Brasília – Instituto de Relações Internacionais. Brasília, DF, Brasil (ts.victor@icloud.com)

Como citar a entrevista

Cite this article as: Editoria Mundorama, "Diverse images, reverse strategies: Brazilian foreign ministers’ perceptions and the Brazil-Argentina rapprochement (1974-1985), entrevista com Álvaro Costa Silva, por Victor Thives," in Revista Mundorama, 18/08/2020, https://mundorama.net/?p=27585.

 

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).