Estados Unidos

Eleições Americanas: como o Coronavírus influencia a vantagem de incumbente de Donald Trump, por Débora de Faria & Ana Letícia Viana

Nas eleições presidenciais nos Estados Unido, candidatos que ocupam o mandato durante o pleito – denominados incumbentes – geralmente possuem vantagens em relação ao seu opositor. De acordo com Mayhew (2008), presidentes no cargo foram reeleitos em cerca de dois terços dos casos no período de 1789 a 2004. Nos últimos 50 anos, apenas três candidatos não obtiveram êxito nesta empreitada: Gerald Ford, em 1976, Jimmy Carter, em 1980 e George H. W. Bush, em 1992. O caso de Ford, no entanto, não se configuraria como tentativa de reeleição em si, uma vez que ele é o único que não foi eleito anteriormente como presidente ou vice.

Há indícios apontando para Donald Trump como o próximo candidato a não ser reeleito, especialmente no cenário de pandemia do Coronavírus. O começo do ano de 2020 foi um dos melhores momentos para o presidente desde que assumiu o cargo. Absolvição no processo de impeachment, economia indo bem, e estratégia “nós contra eles”, utilizando-se de um inimigo comum para gerar unidade interna em torno de si, encontrou na COVID-19 um novo motivo para atacar a China. Contudo, o cenário mudou quando a doença chegou aos Estados Unidos. Em junho, de acordo com pesquisas do canal CNN, o candidato Democrata estava quatorze pontos percentuais à frente do presidente. (CNN, 2020).

Dentre as vantagens, um presidente durante o mandato tem acesso ao aparato do governo, adquire conhecimentos sobre questões práticas de governabilidade e, claro, possui a assistência de uma ampla gama de funcionários de alto escalão, que podem atuar na campanha tanto direta quanto indiretamente. Segundo Tenpas (2003, p. 200), “in terms of staff shuffling, it is no secret that highly controversial aides often resign before the reelection campaign, some senior aides take on new positions within the White House and others leave the White House to work for the campaign”. Ademais, é importante ressaltar que o presidente eleito tem mais presença na mídia do que o candidato oponente e essa exposição contribui para uma maior visibilidade do incumbente.

Desde o início da pandemia, o governo Trump transparece falta de governança. Trocas de assessores e declarações polêmicas sobre uso de medicamentos são exemplos de como a pandemia minou o potencial de reeleição do incumbente. Ex-funcionários de George W. Bush declararam apoiar o opositor, Joe Biden, e a constante troca de servidores pelo presidente, especialmente por discordâncias sobre formas de lidar com a pandemia, fragilizaram o governo. Donald Trump não logrou êxito em usar a máquina governamental a seu favor.

Outra vantagem para Trump seria que os presidentes também criam oportunidades para os cidadãos o conhecerem desde o momento em que vencem o primeiro termo, já mirando na possível reeleição, colocando em foco preferências políticas, habilidades e caráter (BURDEN e HILLYGUS, 2009). A característica comum de eleitores terem aversão ao risco também tende a favorecer a manutenção do incumbente no cargo por mais um mandato (MAYHEW, 2008; BURDEN e HILLYGUS, 2009; ECKLES et al, 2013). A ponderação entre o conhecido e o desconhecido inclina o eleitor a escolher pela continuidade na presidência: “[…] incumbents, simply because they have held office, represent what is known versus what is unknown, could still hold an edge in their reelection campaigns because of widespread risk aversion in the electorate” (ECKLES et al, 2013, p. 747).

Candidatos que estão servindo um mandato têm mais dificuldades na campanha à reeleição quando são desafiados dentro do próprio partido, durante o período das primárias. Nos três casos de presidentes não reeleitos dos últimos 50 anos, todos foram desafiados: Ford contra Ronald Reagan, Carter contra o Edward Kennedy e Bush contra Patrick Buchanan. Mesmo tendo vencido a nomeação do partido, a competição intrapartidária demonstra vulnerabilidade, fragilizando a campanha nas eleições gerais (TENPAS, 2003). No caso das eleições de 2020, Donald Trump não enfrentou nenhum concorrente com chances reais durante as primárias, o que teoricamente se demonstraria uma vantagem perante Joe Biden.

Além da vantagem do incumbente, há outros elementos a serem analisados. Noel (2010) argumenta que o que mais influencia a eleição são elementos do ambiente político, os “fundamentals”, especialmente o estado da economia. De acordo com o autor, “if voters don’t like how things are going, they punish the people who are in power” (NOEL, 2010, p. 2); assim, as campanhas são centradas nesse tema e candidatos que são beneficiados pela economia tendem a explorá-la, enquanto os que não o são, mudam o foco da estratégia e centralizam outras questões. Os mais de 130 mil mortos nos Estados Unidos, além de milhares de desempregados são fatores que  tendem a levar a população a punir quem está no poder.

 Bartels (2008) analisa, dentro dessa questão, que republicanos venceram mais eleições no último meio século, embora a maioria dos eleitores, inclusive republicanos, tenha experimentado mais prosperidade econômica sob presidentes democratas. Dentre as explicações para essa vantagem republicana, o autor destaca o chamado “foco míope”, em que os eleitores respondem ao crescimento de renda no curto prazo, prestando atenção apenas nos resultados dos anos eleitorais e esquecendo o restante do desempenho econômico durante o mandato. A primeira campanha de Trump teve enfoque bastante econômico, o que certamente impulsionou sua vitória. O candidato tem tentado manter esse discurso em seus pronunciamentos, mas não há indícios de que a economia americana retomará o crescimento a níveis pré-pandemia nos próximos meses.

Além da clara inabilidade de Trump em utilizar medidas de contenção da pandemia de COVID-19 a seu favor, o partido Republicano também tem sido leviano ao abordar a questão. Democratas têm conseguido se posicionar de forma a aumentar sua aprovação durante a pandemia. Por exemplo, o partido solicitou que senadores, deputados e afiliados não participem da Convenção Nacional no verão, devido ao aumento de casos de Coronavírus nos Estados Unidos. As votações e a indicação de Biden serão feitas de forma virtual.

Doug Schoen (2020) afirma que essa decisão é fruto do reconhecimento de que não há unidade no partido Democrata – além da unidade contra Trump – e que tal fragilidade seria exposta em uma convenção presencial. Ademais, os resultados das primárias demonstram que os democratas têm se posicionado mais à esquerda do espectro político. Esse fato somado aos movimentos sociais que eclodiram nos últimos meses gera temor de que uma convenção presencial pudesse se converter em protestos, como aconteceu em 1968, em Chicago. (SCHOEN, 2020). Apesar de todas as inconsistências internas, o discurso do Partido é de respeito às vítimas do Coronavírus e de precaução durante a pandemia. Ou seja, o partido tem conseguido maquiar suas fragilidades e transformá-las em preocupação com o surto da COVID-19.

Do outro lado, entretanto, o Partido Republicano transferiu sua convenção para um espaço aberto, e alterou a quantidade de pessoas permitidas. Nos primeiros dias do evento será permitida a entrada de grupos pequenos, e no último dia, quando o presidente Donald Trump fará seu discurso, será permitida a entrada de todos os participantes. (SCHOEN, 2020). A convenção será na Flórida, estado que tem enfrentado aumento nos casos de COVID-19 e falta de leitos. Essa atitude traz mais riscos do que oportunidades à campanha de Trump.

Considerando o exposto, fica claro que apesar de Donald Trump ter saído vitorioso de um processo de impeachment, ter a máquina estatal a seu favor e ser a opção mais segura, a crise do Coronavírus minou sua vantagem de incumbente. Mesmo não enfrentando opositores nas primárias, como os últimos presidentes não reeleitos, Trump corre o risco de não conseguir o segundo pleito como chefe do Executivo.

Referências

BARTELS, Larry M. Unequal democracy: The political economy of the new gilded age. Princeton University Press, 2008.

BURDEN, BARRY C., and D. SUNSHINE HILLYGUS. Polls and Elections: Opinion Formation, Polarization, and Presidential Reelection.” Presidential Studies Quarterly 39, no. 3 (2009): 619-35. Disponível em: <www.jstor.org/stable/41427381>. Acesso em 17/07/2020.

CNN. 2020 Presidential Election Polls., 2020. Disponível em: <https://edition.cnn.com/election/2020/presidential-polls&gt;.  Acesso em: 18/07/2020.

ECKLES, David L., CINDY D. Kam, CHERIE L. Maestas, and Brian F. Schaffner. Risk Attitudes and the Incumbency Advantage. Political Behavior 36, no. 4 (2014): 731-51. Disponível em: <www.jstor.org/stable/43653352>. Acesso em 17/07/2020.

MAYHEW, DAVID R. Incumbency Advantage in U.S. Presidential Elections: The Historical Record. In Parties and Policies: How the American Government Works, 358-92. New Haven; London: Yale University Press, 2008. Disponível em: <www.jstor.org/stable/j.ctt1njmcg.17>. Acesso em 17/07/2020.

NOEL, Hans. Ten Things Political Scientists Know that you Don’t. The Forum 8, no. 3 (2010): 1-19.

SCHOEN, Doug.  Republican vs. Democratic convention tactics present risks for Trump and rewards for Biden. Fox News, 2020. Disponível em: <https://www.foxnews.com/opinion/doug-schoen-republican-vs-democratic-convention-tactics-present-risks-for-trump-and-rewards-for-biden&gt;.  Acesso em: 18/07/2020.

TENPAS, Kathryn Dunn. Campaigning to Govern: Presidents Seeking Reelection. PS: Political Science and Politics 36, no. 2 (2003): 199-202. Disponível em: <www.jstor.org/stable/3649308>. Acesso em: 17/07/2020.

Sobre as autoras

Débora Jacintho de Faria é doutoranda em História pela Universidade de Brasília – UnB;

Ana Letícia Melo Viana é mestre em História pela Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "Eleições Americanas: como o Coronavírus influencia a vantagem de incumbente de Donald Trump, por Débora de Faria & Ana Letícia Viana," in Revista Mundorama, 20/07/2020, https://mundorama.net/?p=27380.