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A Covid-19 na Pan-Amazônia, por Alberto Teixeira da Silva

Nos últimos meses, a Pan-Amazônia (também conhecida como Amazônia transnacional),  a maior floresta tropical do planeta, compartilhada por Brasil, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Bolívia, Suriname, Guiana e Guiana Francesa (departamento francês de ultramar), tem sido castigada com severidade pelo avanço da Covid-19. A situação atual é dramática e desoladora, sobretudo para grandes contingentes de moradores de pequenas e médias cidades ribeirinhas, grupos indígenas e populações tradicionais que necessitam de orientações adequadas, condições básicas de atendimento e infraestrutura hospitalar, mas que, desgraçadamente, estão sofrendo com o desamparo e omissão das instituições públicas.

Já se especulava o quão seria dramático a chegada do coronavírus em áreas habitadas historicamente por populações marginalizadas e vulneráveis. Muitos diziam que o clima quente tropical da Amazônia, poderia se constituir numa barreira para a expansão da doença. Outros imaginavam que haveria um tempo longo para a doença bater as portas das suas casas. Tudo fake news. A verdade é que a Covid-19 chegou célere e fulminante, ceifando vidas e deixando famílias no desalento em diferentes partes da Pan-Amazônia.

A globalização da Covid-19  

A pandemia alastra-se pelo planeta, contabilizando 11,6 milhões de pessoas infectadas e 540.000 mortos, num cenário de recessão econômica, desemprego, perda de renda, deterioração das políticas públicas, que atropelou as expectativas projetadas para 2020 e anos subseqüentes. A providencial intervenção do estado de bem estar, por parte de muitos governos, tornou-se consensual para reparar as infraestruturas domésticas dos países e retomar o fôlego da enferma economia neoliberal.

Com efeito, o passado recente enquadram o cenário contemporâneo do mundo. As intensificações de dinâmicas mundiais no pós segunda guerra (1939-1945), notadamente o boom econômico e a “grande aceleração”, e depois no pós guerra fria, com a queda do muro de Berlim (1989) e derrocada do socialismo real (1991), forjaram uma era de fluxos e interdependências de múltiplas dimensões. “A sociedade global é o novo palco da história, das realizações e lutas sociais, das articulações e contradições que movimentam uns e outros: indivíduos e coletividades, nações e nacionalidades” (Ianni, 2011,  p. 208).  Crescente crises civilizacionais se amplificam, gerando um turbilhão de problemáticas e catástrofes: desigualdades sociais, neofascismo, degradação ambiental, conflito nuclear, mudanças climáticas e pandemias.

Não faz tanto tempo, a rigor, foi exatamente no dia 31 de dezembro 2019, que a Organização Mundial da Saúde (OMS), obteve informações de casos de pneumonia na China, mais precisamente na cidade de Wuhan, província de Hubei. Era a virada do ano novo. Ficarão na lembrança, as emissoras de televisão noticiando o fato, obviamente sem provocar qualquer alarde ao distinto público, em geral, menos atento. Afinal, o clima era de comemoração e descontração. Não se imaginava que aquele momento, seria o marco inicial de uma profunda crise humanitária, envolvendo distintas culturas e civilizações, que a partir de um determinado ponto geográfico (continente asiático), pudesse se espraiar para todo o planeta. Uma peste global, impressionante e dramática,  detonada pela COVID-19, uma doença que deflagrou uma guerra biológica, silenciosa e devastadora.

 Com a trajetória célere e avassaladora do vírus, a partir da China, migrando para outras rotas de contaminação com Itália, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos, transportada pelos fluxos da globalização, invadindo regiões e alcançando contingentes expressivos de indivíduos e coletividades; áreas urbanas e rurais estão sofrendo fortes impactos, mas resistem e lutam diante de um cenário adverso.  A Covid-19 gerou também conflitos geopolíticos indisfarçáveis.Vale lembrar que, logo no início da pandemia, muitos países adotaram um discurso cético, além de proliferar em várias partes do mundo episódios de sinofobia (Bringel, 2020). A globalização da Covid-19 manifesta as diferenças e  contradições  das sociedades contemporâneas, expondo com mais virulência o abismo da desigualdade social (Hupffer et al, 2020). A percepção de uma lógica democrática da Covid-19, afetando igualmente a todos, sem distinção de classes, credos e cores, não encontra abrigo no mundo real, pois no mapa mundi das desigualdades, a Covid-19 mata principalmente os que habitam a geografia da fome (Sato et al, 2020).

No dia 26 de maio de 2020, a Organização Pan Americana de Saúde comunicou que a América do Sul havia se tornado o novo epicentro da pandemia do coronavírus no mundo, destacando que o Brasil é o país mais afetado da região (OPAS, 2020). Alguns meses antes, a cidade de São Paulo já tinha se tornado uma das principais portas de entrada do coronavírus na América do Sul, logo chegando ao Rio de Janeiro e outras áreas urbanas brasileiras. Fluxos incontidos da doença chegaram nos principais centros urbanos da América do Sul. Bairros pobres da periferia de São Paulo, Buenos Aires e Lima, não por acaso, capitais mais afetadas do continente sul-americano, enfrentam picos frequentes de infecções.

A pandemia na Pan-Amazônia: tragédias e resistências

 A realidade está mostrando, com muita contundência, as marcas do colonialismo e subdesenvolvimento que vigoram na Amazônia, no Brasil e demais países latino-americanos, “as mais antigas periferias da economia-mundo capitalista” (Becker, 2005). Estes espaços e outras regiões pobres do sul global (América latina, África e parte da Ásia), estão agora no olho do furacão da Covid-19. O trem desgovernado do coronavírus desconhece fronteiras nacionais e limites geográficos. A bola da vez é a América Latina, que se transformou no novo epicentro mundial da pandemia. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta a pior recessão econômica da história para esta região, com 9,4% de queda do Produto Interno Bruto (PIB).

A atual crise epidemiológico-sanitária, atinge em cheio o coração da sociobiodiverdade pan-amazônica (megadiversidade cultural e megabiodiversidade), desestruturando territórios, grupos indígenas, comunidades tradicionais e ribeirinhas,  que vivem, de forma paradoxal, na porção continental estratégica do ponto de vista ecológico, geopolítico, geoeconômico e simbólico do planeta (Costa, 2015; Amin, 2015). A Covid-19 se soma aos problemas históricos de ausência de ações de vigilância sanitária na região, falta de assistência e baixa governança dos governos em ações emergenciais em socorro aos índios e comunidades locais, configura uma situação de genocídio, absolutamente inaceitável, pois as comunidades indígenas representam a riqueza do patrimônio sócio-cultural de diferentes etnias, “são guardiãs cruciais da biodiversidade, um papel reconhecido pelo IPCC, grupo de especialistas da ONU sobre mudanças climáticas” (AFP, 2020).

Em diferentes frentes de batalha contra a Covid-19, os múltiplos mosaicos de Amazônias ( dos planaltos, planícies, andes, guianas, etc.),  entrelaçados por culturas e saberes, buscam se defender e reagir, diante da agressividade do coronavírus. Porém, não conseguem evitar o destino impiedoso. De acordo com a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), já são mais de 389 mil casos confirmados e 13 mil mortes pela doença na Pan-Amazônia, até 24 de junho. Entre as populações indígenas, são 11,3 mil infectados e 780 mortos, representando aproximadamente 147 povos afetados pela Covid-19. A Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), através da Rede Transfronteiriça Covid-19, tem realizado pesquisas e capacitado agentes na área da vigilância sanitária na tríplice fronteira do Alto Solimões. Trata-se de iniciativa colaborativa entre instituições e profissionais da saúde para enfrentamento do novo coronavírus , na região Brasil, Colômbia e Peru.

Na Amazônia brasileira, que corresponde a 67,8% da Pan-Amazônia, a pandemia avança sem tréguas, num cenário caótico. A combinação de altas taxas de desmatamento, período de secas e incêndios, afrouxamento da fiscalização pelas instituições competentes e a intensificação da pandemia, conformam a “tempestade perfeita” na Amazônia devorada pela inépcia e desgovernança. O descaso do governo federal é escandaloso com as políticas de combate à Covid-19. Faltam medidas enérgicas de proteção aos índios e populações regionais da Amazônia. A rigor, a situação do Brasil no contexto nacional e internacional é constrangedora, diante do fracasso do país na condução do maior surto de epidemia dos últimos cem anos.

Principais metrópoles da região, Manaus e Belém foram diretamente atingidas, e se tornaram base de disseminação da Covid-19 para o interior da Amazônia. No Estado do Amazonas, onde  o  sistema  de  saúde  pública  já colapsou e onde não existem leitos com respiradores e de UTI para o atendimento de novos casos severos ou críticos da COVID-19, estudos tem indicado que “atrasar a chegada da   doença   por   meio   do   distanciamento   social,   para   que   uma   infraestrutura adequada  de  saúde  seja  implementada,  é  uma  das  medidas  mais  importantes  e deve ser priorizado como estratégia para reduzir o número de óbitos por COVID-19 na região, especialmente nas pequenas cidades do interior do estado” (Ramalho, 2020).

Na Amazônia oriental, o Arquipélago do Marajó – maior espaço fluvio-marítimo do planeta, que abriga 16 municípios, dentre eles, muitos com os piores Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, a pandemia se dissemina entre ribeirinhos, índios e quilombolas, aproveitando-se das  dificuldades e limitações da governança pública.Ali residem “populações desfavorecidas e marginalizadas que correm maior risco de serem infectadas pelo coronavírus, por conta da superlotação de residências em bairros pobres, baixo acesso à saúde e saneamento básico, trabalhos informais desempenhados na rua ou em postos que não permitem o seu desenvolvimento remoto e contínuas viagens de barco, principal meio de transporte” (Vieira et al, 2020). Não obstante, as ilhas marajoaras atraíram apoios diversos, em destaque para a Campanha Marajó Vivo, com engajamento de instituições da sociedade civil, religiosas, comunitárias, profissionais autônomos, professores e comunicadores, enfim, uma rede de solidariedade que objetiva atender a população com informações e ações de suporte para o enfrentamento da pandemia.

Outras diferentes respostas de governos e instituições não governamentais (Igrejas, sindicatos, associações), estão sendo mobilizadas em defesa das populações da Pan-Amazônia. Universidades públicas e privadas, centros de pesquisa, grupos em plataformas como Facebook e aplicativos, conectam experiências e articulam apoio para os municípios (envio de máscaras, castilhas, cestas básicas, equipamentos) e viabilizam demandas junto às órgãos e setores da administração pública. Programas radiofônicos e distribuição de kits educativos com a participação de comunidades locais, são exemplos de resiliências e defesas da pátria. Em muitas regiões, nas esferas estadual e municipal, foram formados Comitês de Enfrentamento e Combate à Covid-19. Em outras Universidades formaram grupos científicos de acompanhamento institucional, que inclusive subsidiam tomadas de decisões de governadores e prefeitos. Artistas e instituições promovem e atuam em campanhas e lives em ajudas humanitárias (Instituto Mpumalanga, SOS Rainforest Live e outros).

Conclusão

A geopolítica da pandemia segue um curso inexorável de mortes, traumas e tristezas nas diversas partes do planeta. As dinâmicas nacionais e locais de espalhamento do coronavírus, manifestam grandes assimetrias de impactos e resiliências entre países e continentes. As condições de enfrentamento da pandemia são desproporcionais no contexto de imensas desigualdades globais e regionais. Sem duvida, grande parte da Pan-Amazônia está sendo sacrificada e padecendo por quase completa ausência de assistência por parte dos governos. A Covid-19 desnudou as mazelas sociais das populações que habitam a Pan-Amazônia. Na maior bacia hidrográfica do mundo, grande parcela dos amazônidas vivem subnutridos e absolutamente indigentes em termos de saneamento básico e água de boa qualidade.

Tempos de pós-pandemia não é um mundo fabricado pelo surgimento do novo coronavírus, mas uma realidade complexa onde se misturam e se condicionam as diversas dimensões da crise de civilização atual. Vivemos numa época de acirramentos de conflitos e contradições pretéritas, embora muitas lições, sinais e caminhos estejam sendo emitidos para mudar a trajetória das tragédias que nos acompanham e, mais na frente, do precipício que se aproxima. No contexto da Pan-Amazônia, o cenário mais realista, aponta para a continuidade da sanha do desenvolvimento insustentável, embora se acredite nas forças e coalizões em torno da cooperação e de um modelo de desenvolvimento menos agressivo.

Por uma infinidade de benefícios e serviços que presta para a saúde planetária, a Pan-Amazônia deveria ser valorizada com políticas públicas de inclusão e investimentos nacionais e internacionais de grande porte. Urge mobilização de instituições globais, governos nacionais e locais, além da ampla participação da sociedade civil, no sentido de assumir compromissos e esforços concretos, que priorizem ações coordenadas e integradas, no sentido de frear e controlar a pandemia (testes, mapeamentos, medicações e infraestrutura), disponibilizando recursos e equipamentos para garantir atendimento aos que necessitam.

Referências bibliográficas

 AFP. (2020). Tribos indígenas da América do Sul pedem ajuda por causa da Covid-19. https://www.acritica.com/channels/governo/news/tribos-indigenas-da-america-do-sul-pedem-ajuda-por-causa-da-covid-19. Acesso 17/06/2020.

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HUPFFER, H. M.; ATZ, A. P.; TEIXEIRA, J. P. (2020). A globalização da Covid-19 e a distribuição desigual dos riscos sociais e econômicos. In: SOBRINHO, L. L. P; CALGARO, C.; ROCHA, L. S. (Orgs.) Covid-19: ambiente e tecnologia. Itajaí: Editora da Univali.

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Sobre o autor

Alberto Teixeira da Silva é professor titular aposentado de ciências sociais da Universidade Federal do Pará – UFPA (alberts.ufpa@gmail.com).

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "A Covid-19 na Pan-Amazônia, por Alberto Teixeira da Silva," in Revista Mundorama, 16/07/2020, https://mundorama.net/?p=27371.