Ásia-Pacífico

China e Índia, emergência e evolução cultural, por Paulo Antônio Pereira Pinto

China e Índia ocupam interesse permanente no noticiário internacional. Os chineses já despertavam atenções, desde o início do processo de abertura da República Popular ao exterior, na década de 1980. Os indianos, mais recentemente, passaram a provocar enorme curiosidade, pela ruptura gradual com modelo de desenvolvimento tradicionalmente fechado, em descompasso com a globalização[1]. Narrativas sobre estes assuntos, muitas vezes, limitam-se ao crescimento da economia e às relações de cooperação/competição neste setor entre os dois países. O estudo a seguir busca ir além do perfil econômico da evolução regional, com ênfase na importância de sua dimensão cultural.

O estudo da emergência atual da China e Índia deveria buscar, nessa perspectiva, o entendimento de como suas culturas evoluíram, se adaptaram ou permaneceram estáveis.

 Chamam atenção, por um lado, declarações da China, a partir de 2005, de que sua condição atual de potência emergente deve ser entendida como uma nova fase histórica, marcada por “ascensão pacífica” do país, destinada a beneficiar seu entorno imediato e relações com o exterior. Segundo este discurso chinês, estaria em curso, praticamente, o ressurgimento da influência político-cultural que o antigo Império do Centro exercia sobre as nações situadas ao Sul de suas fronteiras. Isto é, historicamente – sempre de acordo com Pequim – laços foram mantidos com o Sudeste Asiático, com base em relacionamento “pacífico”, que a RPC, agora, procuraria “reacender”.

Por outro, a Índia não busca nem expandir sua cultura, nem suas instituições democráticas. O que os indianos parecem analisar com grande interesse são os quesitos necessários para a preservação da segurança de sua multiculturalidade, no contexto de entorno imediato pacífico. A liderança atual indiana, portanto, parece entender que a inquietação mundial, provocada por rivalidades étnicas e religiosas, poderá afetar, também, a estabilidade de seu próprio país. Daí, Nova Delhi ter que exercer amplo leque de interlocução com culturas que rodeiam a Índia.

As origens das duas civilizações

Verifica-se, a propósito, que mesmo existindo no Oriente e no Ocidente características sociais comuns a toda a humanidade, China e Índia foram historicamente influenciadas por formas específicas de organização, determinadas pelo clima e relevo regionais, e pelo conjunto de crenças e valores que levaram a instituições políticas e ideologias diferentes de outras partes do mundo.

Inicialmente, serão tratadas condicionantes geográficas, que contribuíram para moldar as civilizações daqueles dois países, que, apesar de distintas, compartilham, no entanto, de efeitos de uma natureza ao mesmo tempo rica e invasora.

O clima, nessa perspectiva, permite distinguir claramente as regiões geográficas que formam a Ásia. Ao Norte, se estende a Ásia continental, isto é a Sibéria; ao Centro, aparecem desertos imensos; no Oeste, o clima mediterrâneo predomina, com algumas variações – todos estes tipos climáticos encontram equivalentes em outras partes do mundo. No Subcontinente Indiano, contudo, há um fenômeno original, sem réplica alhures. Trata-se das monções, que ocorrem, em geral, de abril a setembro, e se caracterizam por fortes chuvas, que, tanto ajudam a desenvolver a agricultura, quanto podem causar inundações, colocando em risco a vida humana.

A vida, naquela região, está ligada a variações deste clima das monções, que provoca ventos dos oceanos em direção ao continente, no verão, e do continente em direção aos oceanos, no inverno. O relevo também influenciou a ocupação humana, na medida em que reduziu as opções de áreas habitáveis.

A ocupação humana organizada na Ásia ocorreu, na China, a partir do terceiro milênio antes de Cristo. A civilização chinesa desenvolveu-se nas grandes planícies do Norte, onde a terra é amarela, chamada de loess, e favorece a agricultura. A Índia foi povoada cerca de mil anos depois, com o surgimento de cidades com estruturas básicas. A grande pluviosidade foi, sem dúvida, o motivo que atraiu sucessivas levas de novos habitantes.

A Ásia das monções apresenta uma mistura complexa de civilizações de origens diversas, resultante de invasões sucessivas. Não se pode falar, nem no passado, nem hoje, em “unidade étnica”, na medida em que “raças” diferentes dividiram esta região e a ocuparam, em diferentes áreas e períodos. O “globalismo”, portanto, aconteceu em diferentes momentos.

Em função do relevo, a Índia permanece fechada à Ásia Central. A imensa barreira imposta pelo Himalaia separa solidamente a planície chinesa da bacia do rio Ganges. Em contrapartida, a Índia se abre em direção ao Ocidente. Apesar de quase desértico, o planalto iraniano – vizinho ao subcontinente indiano – não é intransponível e, portanto, sucessivas levas de imigrantes chegaram à Índia, procedentes da Ásia Ocidental, atravessando a Pérsia.

A Índia é, também, aberta ao exterior através do Golfo de Bengala, proporcionando-lhe uma vocação marítima e ligações comerciais milenares com diferentes partes do mundo.

Segundo dados disponíveis, os primeiros habitantes da Índia foram tribos “arianas” ou “indo-europeias”, originárias da Europa. Os “arianos” (Aryas) não modificaram as culturas encontradas no território que vieram a ocupar. Introduziram, no entanto, o sistema de divisão da sociedade em “castas” estanques, que viria a alterar definitivamente as relações sociais em âmbito estrito e rígido.

Por influência dessas novas levas migratórias, são fortalecidos os vínculos com a Indochina, sem que este sistema de castas seja exportado para aquela sub-região. Registra-se, contudo, que a “ação civilizadora” exercida no Sudeste Asiático, a partir do ano Mil antes de Cristo é de origem indiana.

Enquanto isso, a China – separada da Índia, ao Sul, pelo Himalaia – abre-se para o Norte e Noroeste, interagindo com povos da Mongólia, Turquestão, planície Caspiana e Mar Negro. Os contatos dos chineses com o exterior são feitos por via terrestre. A China é, portanto, muito menos voltada para o mar, do que a Índia. Sua influência estende-se até o Japão, transitando pela península coreana. Atinge, também, parte da Indochina. O mundo chinês é, portanto, mais concentrado sobre si próprio, do que o indiano.

O povoamento destas regiões é muito antigo. As populações foram se adaptando às condições naturais, aprendendo a utilizar a terra com criatividade, tornando-se sociedades agrícolas.

 No mundo rural chinês e indiano, grandes impérios foram fundados e se estenderam durante séculos. Invasões do exterior desempenharam papel determinante, na evolução cultural da China e Índia. A chegada dos europeus, por exemplo, provocou tomada de consciência nacionalista crescente naqueles países, culminando com revolta generalizada, após o término da Segunda Grande Guerra.

A Ásia é uma expressão geográfica. Não corresponde a uma civilização particular. Agrupamentos humanos muito variados se espalharam por seu território. Uma “civilização asiática” se apresenta, apenas, no Extremo Oriente. Naquela área, com efeito, a vida humana se relaciona mais com o continente do que com o mar e seu litoral.

Pode-se, falar, portanto, de um mundo do Oceano Pacífico e do Índico. Cada um destes deve ser estudado separadamente. A natureza e a história, no entanto, concederam traços comuns a estes dois vastos conjuntos, diferenciando-os do mundo Ocidental.

A espiritualidade nas duas culturas

Apesar de diferenças notáveis, entre as culturas chinesa e indiana, a espiritualidade asiática é marcada pela submissão às forças da natureza, bem como pela busca de riqueza e desenvolvimento puramente interior dos indivíduos.

Assim, é possível notar, com respeito à espiritualidade oriental, uma submissão quase que mística à ordem das coisas que o espírito humano espera penetrar de forma dócil.

A sabedoria chinesa não tem a mesma profundidade que o misticismo indiano. Enquanto se endereça a uma povoação de camponeses, o Confucionismo desenvolve uma moral de simpatia humana e resignação.

Sabe-se que o primórdio da história da China é marcado pela falência de grandes Impérios. Assim, segundo dados históricos disponíveis, a dinastia “Chang” floresceu no Segundo Milênio antes de Cristo, tendo sucumbido a invasores conhecidos como os “Tchéous”.

Em seguida, um novo Império se organiza, mas é tão vasto que se fraciona em principados hostis uns aos outros. A Guerra Civil se intensifica até que uma família mais forte, a dos “Han”, impõe sua autoridade. Os quatro séculos de paz assegurados pelos Han são seguidos por novo período de anarquia até que veio a ser instalada a dinastia Tang (entre 618 e 907 DC).

Estas lutas internas, no entanto, não impediram que a China estendesse sua influência sobre a península coreana e ilhas japonesas.

Tais conflitos marcaram profundamente a mentalidade chinesa em dois aspectos principais: o camponês viveu sempre na ignorância sobre as causas dessas profundas alterações na vida política do país, enquanto consolidou completa indiferença quanto ao que se passava além do seu grupo social de interesse mais próximo; e o comércio e a agricultura se desenvolveram à margem dos grandes movimentos políticos que sacudiram o Império chinês, através dos séculos.

Enquanto isso, na Índia, até a chegada dos conquistadores turco-afegãos, no século XII, as sucessivas levas de invasores ou novos imigrantes foram sendo absorvidos pelas civilizações já estabelecidas na área. Assim acontecera com gregos, hunos e diferentes grupos e tribos da Ásia Central.

Com turcos e afegãos, no entanto, veio novo elemento cultural que não foi absorvido pelo Hinduísmo – o Islã.

Mesmo que estas duas religiões tenham permanecido separadas e distintas a civilização que chegou à Índia com o Islã começou a influenciar todos os aspectos da vida local, criando o que alguns estudiosos chamaram de uma cultura Indo-Islâmica, particularmente no Norte do país.

Dois debates são criados, com respeito ao relacionamento entre a Índia e o Islã. O primeiro é histórico. Estudiosos ocidentais descrevem as dinastias turco-afegãs e suas sucessoras, Mughals, como o período de regência muçulmana na Índia. Outro grupo de acadêmicos discorda. Para estes, a comunidade muçulmana não exerceu poder, tendo, na verdade, o compartilhado com lideranças comunitárias locais.

O segundo debate diz respeito à teoria de que haveria duas “nações” na Índia, após a chegada do Islã àquele país. Este ponto-de-vista justifica a divisão atual do subcontinente, com a criação do Paquistão.

Os que se opõem a tal interpretação assinalam que o sentimento de nacionalidade surgiu, na Índia, apenas em meados do século XIX. Havia uma elite muçulmana, naquela época, mas o país fora governado pelos ingleses.

 Tais debates podem parecer obscuros, mas conduzem ao âmago da questão da identidade indiana, na medida em que coloca o país em condição de absorver influências externas, sem perder seu sentido de identidade.

Caberia, por exemplo, comparar as posturas chinesa e indiana, no processo de absorção de influências ocidentais, a partir do início do século XVIII.

 No que diz respeito à China, estes aportes do exterior ocorreram no momento em que sua civilização e sistema de governança estavam enfraquecidos. Neste país, as pressões exercidas de fora, portanto, foram mais traumáticas do que na Índia.

No caso chinês, houve evolução no sentido a um “nacionalismo” e totalitarismo, que se fundiram durante a fase maoísta. Na Índia, as influências externas levaram a uma democracia vigorosa.

Entre os séculos IX e XVIII D.C. a Índia se cobre de templos, enquanto a influência espiritual indiana se estende pelo Sudeste Asiático. Os imensos conjuntos de Angkor Vat, no Camboja, e os templos de Bangkok são alguns exemplos do papel espiritual desempenhado pela Índia.

No século VI antes de Cristo, uma nova concepção espiritual, o Budismo, se expandiu a partir do Himalaia. Verifica-se, a propósito, que o Budismo não pretende, inovar,  complementar,  combater ou substituir o Bramanismo. Desenvolveu-se ao lado do Bramanismo, sem confirmá-lo ou contradizê-lo.

O Budismo foi apresentado à Índia em momento de grandes convulsões sociais, provocadas por guerras internas e invasões externas. Seria, em grande medida, uma forma de consolo a povoações rurais que não dispunham de grandes expectativas quanto a sua própria existência. As relações estreitas entre a natureza, a vinculação profunda num mundo camponês, limitado por laços familiares, são ainda mais sensíveis no universo chinês do que no espaço indiano.

O Budismo exerceu influência sensível na China. Durante a Dinastia Tang (618 a 907), manifestou-se através da influência no desenvolvimento de esculturas. Os chineses guardaram do Budismo, acima de tudo, o desprendimento das coisas deste mundo. Mas, com frequência, seguiram sua própria via.

No século VI antes de Cristo, Confúcio veio propor-lhes soluções bem distintas do Budismo. Tendo como ponto de partida, também, sua sociedade contemporânea, Confúcio chegou a solução bastante distinta daquela do Budismo. Isto porque o “momento presente” também não lhe parecia perfeito – longe disso – mas ele identificava possibilidades de transformações. Estas aconteceriam através do controle dos impulsos pessoais. Não seria necessário, como acreditam os budistas, “escapar de tudo”. Pelo contrário, caberia adaptar-se.

Confúcio, assim, apresenta uma filosofia que considera o homem dentro da natureza, que se expressa pelo culto do passado, considerado como uma Era melhor, e pela comunhão com o mundo material. Daí resulta, para seus seguidores, a busca permanente da harmonia que se manifesta através do gosto por uma escrita extraordinária. A caligrafia é bela em seus menores detalhes. A pintura de paisagens, como se refletissem o estado da alma, é também levada a extremos do bom gosto.

A pintura, ademais, é influenciada por outro aspecto do pensamento chinês: o taoísmo, que é uma doutrina mais recente do que o Confucionismo. O taoísmo é uma forma de meditação sobre a ordem da natureza, muito mais mística do que o Confucionismo, na medida em que se submete à essência do mundo para poder penetrá-lo.

Alguns pensadores concluem que a espiritualidade oriental apresenta grandezas e fraquezas, na medida em que, por um lado, é superior ao pensamento ocidental, que jamais soube dedicar a mesma humildade e busca de compreensão – a exemplo da espiritualidade oriental – às leis do mundo, aceitá-las e ir além delas. A “simpatia universal” que, no entanto, submete o pensamento asiático à passividade, dificulta a luta das pessoas daquela parte do mundo, contra as forças da natureza, as destruições provocadas por sucessivas guerras e o condicionamento de hábitos consagrados por heranças milenares.

A sociedade indiana, por exemplo, é o resultado da assimilação de centenas de influências culturais, originárias da Europa e Ásia. A Índia incorporou, portanto, costumes e crenças das diferentes civilizações que a invadiram ou lá se estabeleceram. Como resultado, hoje existem no país 17 línguas oficiais e algumas centenas de dialetos.

Mas a Índia não foi apenas “importadora” de cultura. Foi também “exportadora”. O Sânscrito, como se sabe, é uma língua originária na Índia e raiz de línguas indo-europeias, como o grego e o latim.

O Budismo nasceu na Índia, derivado do Hinduísmo, mas praticamente desapareceu de seu país de origem, espalhando-se pela Ásia e outras regiões. O Hinduísmo, no entanto, foi difundido pelo Sudeste Asiático, mas continuou a florescer, principalmente no território indiano.

Verifica-se, a propósito, que o Hinduísmo parece adaptar-se perfeitamente à sociedade indiana – há quem diga que, nesse caso, a religião influencia a sociedade e vice-versa. Isto é, a profusão de “deuses” oferece ampla escolha de devoção aos fiéis a teria ajudado no estabelecimento de sistema de castas que sobrevivem há três mil anos.

China e Índia – “Chindia”: vasto espaço para a convivência entre diferentes culturas.

Cabe registrar que o desafio maior, no momento, seria o de imaginar como China e Índia poderão voltar a influenciar-se mutuamente – conforme prevaleceu há séculos, quando processo de “cross fertilization” levou ao que alguns estudiosos chamaram de “hinduanisação da China”, na medida em que – segundo estes – o antigo “Império do Centro” – guardadas as devidas diferenças de proporções e de momentos históricos – veio a importar tanto do Budismo indiano, quanto os europeus absorveram do Cristianismo.

O mais importante seria considerar a possibilidade de formação de enorme espaço de cooperação cultural, caso viesse a ressurgir, com naturalidade e de forma pacífica, o intercâmbio de ideias, manifestações artísticas e material genético, via Sudeste Asiático, que existiu, há séculos, entre hinduístas e chineses.

China e Índia são, hoje, o foco de comparações inesgotáveis, para os leitores ocidentais, seja a respeito de seus respectivos processos de desenvolvimento econômico, seja quanto à inserção de cada país no cenário internacional, inclusive com o emprego de “soft power”. O mais interessante tem sido o esforço de analistas indianos para explicar, ao seu próprio país, a “China”.

Isto porque, como se sabe, o intenso intercâmbio comercial, a “cross-fertilization” cultural e mesmo a mistura étnica que prevaleciam, havia séculos, entre as duas civilizações, foram suspensos, a partir de 1962, com a guerra fronteiriça entre os dois países.

Parte-se do princípio, nessa perspectiva, de que atual geração indiana, após mais de quarenta anos de distanciamento, procura interpretar o comportamento chinês, no âmbito das condicionantes de sua própria cultura. Citam, por exemplo, a “sacudida de cabeça hindu, à esquerda e à direita” – que para os hindus significa “ser a verdade sempre contextual e que, portanto, a resposta a cada pergunta deve ser interpretada como afirmativa ou negativa, dependendo da conveniência dos interlocutores”.

Da mesma forma, é explicado que tamanha é a necessidade chinesa de “não perder face” que um “sim” dito de forma muito enfática pode, disfarçadamente, significar um “não”. Isto é, um chinês busca sempre não ser exposto ao constrangimento de, através de uma negativa, aparecer incapaz de satisfazer ao pedido ou responder a pergunta da outra parte. Assim, haverá sempre um “sim”, como resposta, mesmo que seu significado seja o de um “talvez” ou um “não”.

Os receituários ora disponíveis, para que a China seja mais bem entendida na Índia, procuram, também, esclarecer as diferenças entre os dois países, no campo espiritual.

É, então, explicado aos indianos que os chineses contam, em sua mitologia, com centenas de “deuses” e “deusas”, além de seres sobrenaturais, como o dragão. Não haveria, segundo o ponto de vista local, o conceito de um “Ser Divino Todo Poderoso” ou “Deus”. Conflitos relacionados com a reencarnação ou renascimento – encontrados no Hinduísmo – ou com o pecado – vigentes no Catolicismo, Judaísmo e Islã – estariam ausentes entre os chineses.

Enquanto isso, os indianos, seguidores do Hinduísmo ou Bramanismo, com seus “deuses” maiores ou menores, seus templos e cerimoniais, desenvolveram sua espiritualidade, em torno da crença no “Bhrama”, que é a unidade. Assim, cada “alma” é uma parte destacada desta unidade, que só se reencontra quando volta a se fundir no “todo”. Daí, a perene espera pelo retorno ao “Universal”.

Os chineses, de sua parte, desfrutariam de uma civilização extremamente prática, onde interessaria o “aqui” e o “agora”. A ética social prevaleceria sobre questões espirituais. Tal realidade teria três origens: o Taoísmo, o Budismo e o Confucionismo.

O Taoísmo ditaria o perfil místico da China.  Seu princípio básico é o de que o mundo, como um todo, funciona em torno de dois polos, que se expandem alternadamente, enquanto representam limites recíprocos. Trata-se do “Yang” e do “Yin”. O yang é tudo o que for masculino, quente, agudo, iluminado, pesado e seco; o yin é o feminino, frio, macio, escuro, leve e molhado. A desarmonia entre os dois extremos provoca desordens e doenças.

O Taoísmo misturou-se com crenças e práticas tribais, dando origem ao culto de numerosos “espíritos” e “entidades”, associados à água, fogo, vento, chuva, rios, arroz, portões, paredes, entre outros. A maioria das entidades objeto de devoção dos chineses são ancestrais, guerreiros, reis, dignitários e sábios. Por exemplo, os “Oito Imortais” foram pessoas que, através da realização de “obras dignas de reconhecimento e vidas plenas de alegrias” foram agraciados com o “pêssego da vida eterna”, o que os tornou imortais. Suas imagens “guiam e ajudam os fiéis”, em momentos de necessidade.

Em virtude do espírito prático da mentalidade chinesa, o Budismo chegou ao país com sua “Escola Mahayana”, cujo objetivo principal seria não o de tornar-se um Buda, mas, sim, o de, com persistente esforço individual, invocar a intervenção divina – do Buda – para que as dificuldades do mundo material se tornem mais suportáveis.

Segundo seus adeptos, haveria diversos níveis de “paraísos” e de “infernos”, com diferentes recompensas e punições. Os que demonstrassem comportamento mais correto seriam contemplados com a entrada no “paraíso mais elevado”, onde conviveriam com o “Imperador de Jade”, que, segundo a referida crença, seria o que mais próximo haveria da noção de um “Deus”.

A “corte divina” do Imperador de Jade seria idêntica a uma versão terrestre, com um exército, burocracia, família real e “parasitas de plantão”- estes em busca de favores. Seu julgamento, no entanto, é justo e sem caprichos: o bem é recompensado e o mal punido.

Por ocasião das celebrações do Ano Novo Lunar, os fiéis chineses queimam dinheiro de papel, como símbolo de pagamento para que “deuses que habitam suas casas” viagem até à referida corte do Imperador de Jade e relatem favoravelmente sobre as famílias que os hospedam. Outro recurso é o de oferecer doces ao “deus da cozinha”, para adoçar-lhe os lábios e permitir um discurso favorável àquela entidade maior.

Tais explicações, na Índia, fazem a China parecer bastante utilitária e simplista, preocupada mais com a “face” dos que seguem o ramo prevalecente do Budismo, enquanto os hinduístas privilegiam e convivem com complicado sistema de castas e formas de vida – inclusive na de animais – que podem se suceder, em reencarnações futuras.

Cabe ressaltar que, em momento algum, as diferenças assinaladas procuram identificar obstáculos a um possível renovado bom entendimento entre as duas civilizações. Pelo contrário, buscam-se, sim, coincidências herdadas por interlocuções, durante séculos, de diferentes formas, no campo econômico, político e cultural.

Pode ser que, na prática, entre os dois países, forme-se um vasto espaço cultural, a facilitar a convivência entre diferentes culturas. Esta “Chindia” poderia proporcionar e priorizar o ressurgimento de formas tradicionais de relacionamento entre diferentes povos, que conviviam entre e através de suas fronteiras.

Para tanto é necessário, ainda, que sejam superadas divergências entre Nova Delhi e Pequim, principalmente no que diz respeito a suas fronteiras.

Conclusão

Conforme mencionado no início deste artigo, China e Índia ocupam, hoje, espaços quase idênticos nas atenções mundiais.

A importância maior da atual emergência da China e da Índia encontra-se, no entanto, na análise de como estas culturas evoluíram e se adaptaram aos sucessivos desafios históricos que lhe foram impostos. Que tipo de influência estas alterações terão no cenário internacional? A China tem reiterado que sua condição atual de potência emergente deve ser entendida como uma nova fase histórica, marcada por “ascensão pacífica” do país, destinada a beneficiar seu entorno imediato e relações com o exterior. Nesse contexto, cabe examinar o crescente compromisso de Pequim com as nações ao Sul de suas fronteiras, que representariam o agrupamento regional onde aconteceria, prioritariamente, esta “ascensão chinesa”.

Quanto ao fenômeno indiano, cabe avaliar se existe, realmente, processo sustentável de crescimento ou se não se trata, por um lado, de exercício promocional do Governo de Nova Delhi, com sua campanha de divulgação de oportunidades de investimento, ou, por outro, de contraofensiva de empresas multinacionais assustadas com sua excessiva dependência da economia chinesa e, portanto, interessadas em criar alternativa para seus investimentos.

Ao contrário dos chineses, os indianos nunca procuraram expandir sua cultura, nem suas instituições democráticas. Sua grande preocupação parece ser a garantia da segurança interna de sua multiculturalidade, em ambiente internacional estável. A liderança atual indiana, portanto, parece entender que a inquietação mundial, provocada por rivalidades étnicas e religiosas, poderá afetar, também, seu próprio país. Daí, Nova Delhi ter que exercer amplo leque de interlocução com culturas que rodeiam a Índia.

Na medida em que se consolide a emergência destes dois países, que possuem laços de vizinhança milenares, bem como se desenvolvam cooperação mais intensa e troca de ensinamentos sobre como administrar seus respectivos processos de crescimento exponenciais, haverá, sem dúvida, impacto significativo no ordenamento político internacional.

Basta lembrar que, há pouco mais de 50 anos, foram ambos os promotores dos chamados Cinco Princípios de Convivência Pacífica. Caberia, agora, desejar que contribuam para um relacionamento internacional baseado no respeito mútuo entre culturas diversas.

As comparações entre os países que adotam como símbolo, respectivamente, o elefante e o dragão seriam inúmeras. Conta lenda regional, contudo, que o dragão teria o hábito de devorar o filhote do elefante. Enraivecido o pai da cria seria capaz de enfrentar o inimigo. Ao término da peleia, o dragão estrangularia o paquiderme que, com seu peso, cairia ao chão, esmagando o adversário com seu peso. Haveria destruição mútua.

Espera-se, nesta perspectiva, que a competição entre os dois gigantes asiáticos continue a ocorrer em termos pacíficos e simbólicos, prevalecendo os traços favoráveis da elegância do elefante e da imponência do dragão.

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Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).