Caracterizados pela importância dada ao comércio e pela dinâmica de autorregulação do mercado, vendo com maus olhos a intervenção estatal econômica, os ideais liberais foram, desde o fim da II Guerra Mundial, através da hegemonia norte-americana, ganhando espaço no Sistema Internacional (SI). Por sua vez, uma das ferramentas utilizadas para a defesa desses ideais foram as instituições internacionais, sendo estas entendidas e defendidas como espaços seguros propensos à cooperação entre os Estados (Keohane, 1984, 2002).

De modo mais específico, a América Latina, como zona de atuação dos Estados Unidos da América (EUA), teve em diferentes momentos o apoio de mecanismos e instituições financeiras norte-americanas que se direcionaram ao desenvolvimento da região. Criado em 1959 no intuito de ser uma instituição financeira regional para apoiar os países latino-americanos e caribenhos em seu desenvolvimento, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) representou uma ferramenta financeira adaptável para consolidar as vontades dos EUA na América Latina.

Muito se discute sobre o Soft Power norte-americano e a disseminação dos preceitos neoliberais do país através das instituições e agências de financiamento internacional. Entretanto, é necessário avaliar como as instituições financeiras multilaterais têm atuado ao longo dos anos, questionando e avaliando as diretrizes consolidadas. No artigo “O Banco Interamericano e as Diretrizes da Política Externa Norte-Americana para a América Latina: A atuação do BID na Argentina e no Brasil de 1960 a 2017” publicado na revista Meridiano 47: Journal of Global Studies (v. 21, 2020), é questionado se a atuação do BID como ferramenta da política externa dos Estados Unidos na América Latina efetivou as diretrizes liberais da política externa norte-americana.

A partir dos anos 1990 as medidas de privatização, desregulamentação e liberalização se apresentaram como “condição fundamental” para que os países latino-americanos pudessem renegociar suas dívidas e receber recursos de agências como o BID (Moniz-Bandeira, 2002). Neste cenário de desregulamentação a atuação do BID se ampliou no continente, e, apesar da insatisfação de alguns governos latino-americanos, as instituições criadas com o intuito de prover ajuda ao desenvolvimento latino-americano se mantiveram presentes. A presença do Banco se estabeleceu tanto pela relação bilateral direta com os países da região, como através de sua projeção em instituições regionais como a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA).

Ao avaliar a atuação do BID na América Latina diante da análise de dados empíricos econômicos e de investimentos externos diretos recebidos pelos países da região de 1960 a 2019, e de modo mais específico os principais acionários sul-americanos do Banco – Brasil e Argentina –,  o artigo defende que o Banco têm se adaptado aos diferentes contextos regionais desses países, encontrando maneiras de projetar as políticas e interesses norte-americanos na região, como pode ser visto na participação do Banco no Fórum Prosul, criado em 2019 como marco do desmantelamento da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Em resumo, como instituições internacionais co-constitutivas do sistema o qual fazem parte, o BID e os preceitos liberais da política externa norte-americana se adaptaram às novas necessidades e oportunidades do sistema, ampliando sua participação em outras instituições e espaços regionais existentes, assim como incorporando novos eixos e prioridades de atuação. Reitera-se o entendimento defendido por Tussie (1995) de que desde sua criação o BID demonstra uma relação direta ao impulso dos projetos regionais em favorecimento à economia dos Estados Unidos. Por fim, é interessante notar que nos diferentes momentos da atuação do BID na América Latina, o Banco se apresenta e se sustenta como condição fundamental para o desenvolvimento da região, por sua vez, não fica claro se as ações do BID e a incorporação das diretrizes de política externa norte-americana são benéficas à América Latina e à resolução dos problemas intrínsecos à região.

Referências Bibliográficas

 Keohane, R. O. “After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy”. Princeton: Princeton University Press, 1984.

Keohane, R. O. “Power and Governance in a Partially Globalized World”. New York: Routledge, 2002.

Moniz-Bandeira, L. A. “As políticas neoliberais e a crise na América do Sul”. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília. vol. 45, n. 2, p. 135-146, 2002

Tussie, D. 1995. “The Inter-American Development Bank”. Lynne Rienner Publishers, Inc: Colorado.

Leia o artigo publicado em Meridiano 47

Neves, Bárbara Carvalho. 2020. “O Banco Interamericano E As Diretrizes Da Política Externa Norte-Americana Para a América Latina: A atuação Do BID Na Argentina E No Brasil De 1960 a 2017”. Meridiano 47 – Journal of Global Studies 21 (junho). https://doi.org/10.20889/M47e21006.

Sobre a autora

Bárbara Neves é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (barbara.neves@unesp.br).

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria Mundorama, "O BID e as diretrizes da política externa dos EUA para a América Latina, por Bárbara Neves," in Revista Mundorama, 30/06/2020, https://mundorama.net/?p=27297.

 

 

Anúncios