Política Internacional

Crise de civilização e a pandemia da Covid-19, por Alberto Teixeira da Silva

A pandemia da Covid-19 coloca em xeque ideários e crenças de bem estar e prosperidade prometido pela modernidade. Estamos vivendo uma duradoura e agonizante crise de civilização. As turbulências e impactos trazidos pela Covid-19, revelam as fragilidades e vulnerabilidades políticas, humanas e institucionais em escala planetária. Expressam as contradições do sistema produtivista/consumista vigente, no contexto da modernidade enlouquecida pela acumulação de bens e colonizada pelo progresso material, cuja lógica se baseia na concentração de riquezas, na mercantilização da natureza, nas crescentes assimetrias de poder e no definhamento da democracia liberal e representativa.

Na esteira de processos que sintetizam e definem uma época global de perplexidades (Dreifuss, 1996), estamos atravessando uma quadra histórica estonteante e assustadora. A pandemia da Covid-19 coloca na roda dos debates acalorados e difusos,  o caráter multidimensional do atual momento histórico e crítico que passa a humanidade. O mundo está sendo confrontado com velhas e novas questões sistêmicas, que suscitam múltiplos desafios e agendas de políticas públicas. Embora apareça, em primeiro plano, a questão sanitária, o impasse atual do capitalismo relaciona e rearticula crises civilizacionais multifacetadas (geopolíticas, econômicas, ambientais, culturais, epidemiológicas, etc).

O novo coronavírus (SARS-CoV-2), não veio do céu como praga ou surgiu por acaso. Ao contrário, deriva das intervenções dos humanos no curso da era do Antropoceno, “em que o homem passou a ser o principal vetor de mudanças biogeoquímicas no planeta” (Veiga, 2019). Portanto, é parte das dinâmicas de difusão de epidemias pretéritas de outros coronavírus (síndrome respiratória aguda grave – Sars e síndrome respiratória do Oriente Médio – Mers), no cenário frenético das agressões que os biomas estão sofrendo em todo planeta, devido à “degradação ambiental, à caça ilegal e ao comércio de animais silvestres, além da hiperglobalização” (Read, 2020).

 Adentramos numa perigosa escalada de problemáticas simultâneas, verdadeiras “emergências globais” (mudanças climáticas, tensão nuclear, exacerbação de conflitos étnicos-políticos, desigualdades sociais) que se somam cumulativamente e aprofundam uma crise do modelo civilizacional sem precedentes. Como afirma o sociólogo Boaventura Souza Santos “a pandemia vem apenas agravar uma situação de crise que a população mundial tem vindo a ser sujeita” (Santos, 2020, p. 6). Pandemias e o aumento de doenças respiratórias amplificam o conjunto de riscos (crises ecológicas, crises financeiras globais e crises de ameaças terroristas) da sociedade global (Beck, 2006).

A Covid-19 manifesta de forma inédita e singular, uma situação de medo global. “Trata-se de todo temor totalizante sentido por todos os habitantes de um coletivo, na expectativa de uma enorme quantidade de mortes que potencialmente ou de fato atingirá a todos e acabará o mundo conforme foi conhecido até um determinado momento” (Ribeiro, 2020). O potencial de transmissão e contaminação da Covid-19 encontra terreno fértil no contexto de uma sociedade global, cada vez mais interconectada, integrada e interdependente. Não por acaso, a partir da cidade chinesa de Wuhan (lócus privero), foi fulminante a forma que a doença se alastrou para os vários continentes, sem respeitar fronteiras e soberanias. Países que desdenham da crise ou demoraram para agir, como por ex: Itália, Espanha e Estados Unidos (EUA), estão no topo de infectados e perdas humanas. Governos mais reativos e preparados, implementaram medidas duras e racionais, achatando a famosa “curva” de forma célere, como a China.

Na tormenta da pandemia, irmãs siameses, economia e política, se imbricam como resposta ao combalido receituário neoliberal.  O Fundo Monetário Internacional (FMI), recomenda gasto público, sem equilíbrio fiscal. Os Estados nacionais reagem com desembolsos bilionários na tentativa de salvar o que restou da economia, destroçada pela Covid-19. A crise trouxe também conseqüências políticas e geopolíticas, constituindo um teste para os governos nacionais e para a governança global. Embora enfraquecida pelas posições nacionalistas e contrárias aos esforços de políticas multilaterais por parte dos EUA, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem acionado mecanismos e protocolos médicos e institucionais, no sentido de orientar ações e estratégias dos países no combate a pandemia. Por outro lado, os conflitos e disputas em EUA e China, que já vinham numa escalada crescente, ganham outros contornos. Vale observar que o avanço da China na questão do comércio internacional, tem incomodado a maior potência econômica do planeta. No rastro da belicosidade entre esses países, abundam e se propagam as teorias conspiratórias, sem distinção político-ideológica.

No Brasil, o cenário do campo de batalha contra a Covid-19, parece ser longo e trágico. Debilitado pela aceleração de crises internas e externas, que já vinham se arrastando nos últimos anos e a falta de liderança político-institucional em contê-las (sobretudo no âmbito do governo federal), exatamente no momento crucial de responder ao agravamento e avanço da Covid-19 num território continental imenso e desigual. Estratégias adequadas e responsáveis de isolamento social/quarentena que os governos subnacionais (estados e municípios) estão executando, são decisivas para defender as suas populações, sobretudo as mais vulneráveis, que vivem nas médias e pequenas cidades. Cidades como Belém, Manaus, Macapá, já estão praticamente com sistemas de saúde colapsados. Contudo, caso não se oriente, rapidamente, uma política estruturada e emergencial para atacar as vulnerabilidades em termos de estrutura hospitalar, equipamentos médicos e apoio logístico; o interior da Amazônia (pequenos núcleos urbanos, áreas indígenas, quilombos e populações de unidades de conservação) será devastado pela Covid-19.

Enfim, os tempos atuais suscitam a urgente necessidade de refletir e revisar os padrões de desenvolvimento que tem orientado as sociedades no mundo globalizado. Mudanças do ventos pós-pandemia devem orientar mudanças de paradigmas, caso contrário, as próximas crises epidemiológicas poderão ser mais frequentes, intensas e letais. Com as lições do presente, espera-se maior capacidade da governança global em aglutinar compromissos e esforços para uma concertação no âmbito da cooperação internacional. A reconstrução da economia mundial pós-pandemia passa pelo diálogo vital economia-ecologia, que combine num sistema de produção mais resiliente e solidário, com o fortalecimento de agendas globais como Acordo de Paris (Clima) e Agenda 2030 (Desenvolvimento Sustentável). A sociedade mundial precisa reinventar-se, forjar outros projetos de sociabilidade que coloque a ciência, a educação e os direitos de cidadania no coração da vida pública dos países e do mundo. A pandemia impõe a transição para outro mundo a ser desenhado e construído sob o signo de uma “nova economia”, “nova cultura” e “nova política”, ainda que num cenário permanente de insegurança, de incerteza e de medo.

Referências

 BECK, Ulrich (2006). La sociedad del riesgo global. Madrid: Siglo XXI de Espanã Editores, S.A.CASTELLS, Manuel (2017). Ruptura: la crisis de la democracia liberal. Madrid: Alianza Editorial, S.A.

DREIFUSS, René Armand (1996). A época das perplexidades. Petrópolis, RJ: Vozes.

READ, Ian. (2020). Como epidemias moldaram o Brasil e legaram marcas profundas à sociedade. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/03/como-epidemias-moldaram-o-brasil-e-legaram-marcas-profundas-a-sociedade.shtml. Acesso 21/04/2020.

RIBEIRO, Gustavo Lins (2020). Medo global. Boletim n.5 (Cientistas sociais e o coronavírus,ANPOCS).26/03/2020.http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2311-boletim-n-3-as-ciencias-sociais-e-a-saude-coletiva-frente-a-atual-epidemia-de-ignorancia-irresponsabilidade-e-ma-fe-3

SANTOS, Boaventura de Sousa (2020). A cruel pedagogia do vírus. Lisboa: Edições Almedina, S.A.

VEIGA, José Eli da (2019). O antropoceno e a ciência do sistema terra. São Paulo: Editora 34.

Sobre o autor

Alberto Teixeira da Silva é Professor titular aposentado de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará – UFPA (alberts.ufpa@gmail.com).

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria Mundorama, "Crise de civilização e a pandemia da Covid-19, por Alberto Teixeira da Silva," in Revista Mundorama, 12/05/2020, https://mundorama.net/?p=27092.

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).