Quando no final de 2019, em Wuhan, província de Hubei, na China, foram detectados os primeiros seres humanos afetados por uma nova síndrome respiratória aguda – posteriormente denominada COVID-19 – poucos imaginavam que algumas semanas depois essa doença causaria significativas mudanças nos hábitos de vida de grande parte da população global. Em 11 de março, Tedros Adhanom, diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou que o COVID-19 havia se tornado uma pandemia, o que motivou diversos governos a adotarem medidas de distanciamento social, isolamento e até mesmo, quarentena. Desde então, a crise tem colocado em evidenciado algumas das contradições metabólicas do capital (Harvey, 2020), a exemplo da ausência de estruturas e proteção social, frágeis sistemas de saúde e empregos precários. Com base em tal contexto, no presente artigo constam algumas observações sobre os efeitos das mudanças socioeconômicas geradas pelo combate ao COVID-19 nos sistemas agroalimentares e a defesa da criação de ações globais, envolvendo os diversos níveis de governo e a sociedade civil, para mitigar um dos seus mais inevitáveis efeitos: a acentuação da fome.

A fome pode ser tanto causa como consequência de infecções coletivas como a que estamos vivendo. Ao mesmo tempo em que populações com fome endêmica tendem a ter o sistema imunológico mais frágil (Castro, 1984), devemos ter em mente que os efeitos de contenção das epidemias também podem repercutir em crises coletivas de fome aguda (Maluf, 2020).

Exemplos de pandemias anteriores indicam que em populações com carências nutricionais, os índices de letalidade podem ser maiores. Sobre isso, Davis (2020) remonta ao exemplo da Gripe Espanhola, de 1918, e seus efeitos em partes da Índia Ocidental como o Punjab e Bombain. Nesses casos, devido a uma grande escassez de alimentos motivada por massivas exportações de cereais para a Grã-Bretanha, parte considerável da população estava à beira da inanição quando foi atingida pela pandemia. Devido a isso, tais pessoas “[…] se tornaram vítimas de uma sinistra sinergia entre a desnutrição – que suprimiu sua resposta imunológica à infecção e produziu uma inflamação bacteriana, bem como uma pneumonia viral” (Davis 2020, não paginado). No caso da COVID-19, como o pico de infecções ainda não chegou aos grandes bolsões de fome, a exemplo do continente africano, os exemplos de epidemias anteriores devem servir de alerta para os possíveis efeitos catastróficos que podem ser presenciados em tais regiões.

Nos últimos anos, a fome tem crescido em escala global, chegando ao número de 820 milhões de pessoas em 2018 (FAO, 2019). Com a epidemia, existe uma tendência de que esses dados cresçam ainda mais. Mesmo ainda não tendo uma clara noção sobre a extensão do COVID-19, isso tem sido previsto em análises de sujeitos, coletivos e instituições com diferentes perspectivas como pesquisadores do tema (e. g., Ribeiro 2020; Alentejano 2020; Smaller and Murphy 2020; Nicholls and Altieri 2020), uma articulação de mais de 80 movimentos sociais e organizações da sociedade civil brasileiros (Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável 2020) e até mesmo grandes corporações como Nestlé, Pepsico e Unilever (Harvey 2020). Dentre os fatores que podem motivar maiores picos de fome no contexto pós-COVID-19 constam o aumento do desemprego, a desestruturação de cadeias de abastecimento, a diminuição da demanda ocasionada pela crise econômica e a consequente inviabilização de unidades de produção familiares etc.

Nesse sentido, faz-se importante discutir sobre quais tipos de ações deverão ser adotadas para evitar um colapso dos sistemas alimentares assim que as restrições de contenção do COVID-19 foram minimizadas ou então, eliminadas. Na sequência, são apontadas duas propostas que poderiam abordar a questão da fome por meio de uma perspectiva estrutural.

Uma primeira questão a se considerar é que um dos principais fatores que faz que a fome persista no mundo, mesmo com uma produção agrícola suficiente para abastecer com sobras a população, é que o alimento tem sido tratado como uma mercadoria como outra qualquer. Não existem eficazes mecanismos de proteção social direcionados aos grupos da população de países com baixa renda per capta que não conseguem acessar uma quantidade de alimentos que supra suas carências nutricionais. Desde o Agreement on Agriculture (Acordo sobre a Agricultura), estabelecido no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, países do mundo todo, especialmente os do Hemisfério Sul, são condicionados a aderir ao livre-mercado. Porém, ao mesmo tempo em que grandes empresas agroalimentares – muitas das quais amplamente internacionalizadas na sua divisão de capital – acumulam com as exportações de gêneros alimentares, uma parcela significativa da população desses países tem que se submeter ao consumo precarizado de alimentos, o que explica o crescimento recente dos ultraprocessados (alimentos ricos em amido, açúcares, sódio e gorduras trans, considerados nutrientes críticos) (FAO, 2019b). De tal modo, a minimização do aumento da fome ocasionado pelo COVID-19 deverá passar pela reconsideração do papel que a comida tem tido na globalização neoliberal, devendo ocorrer uma grande guinada por parte dos governos na garantia universal do Direito Humano à Alimento Adequada.

Uma segunda proposição parte do fato de que, como destacado pelo Primeiro-Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed (2020), não são todos os países do globo que possuem condições de efetivar massivos pacotes de ajuda econômica para a contenção dos efeitos da crise como tem sido feitos pelos Estados Unidos, o Reino Unido, a China, o Japão e outros. Nesse sentido, faz-se necessário pensar na elaboração de uma política global de combate à fome acentuada pelo COVID-19. Essa política global deveria ter fundos para garantir que nos países mais afetados fossem implementadas ações de garantia de renda mínima, alimentação escolar, compra de alimentos produzidos pela agricultura familiar e especialmente, o incentivo a modelos de produção sustentáveis e voltados, preferencialmente, aos mercados locais (Smaller and Murphy 2020).

Portanto, assim como ocorreu nas grandes crises do capitalismo, a exemplo da quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929; do choque do petróleo de 1974 e da falência do banco Leman Brothers, em 2008; o pós-COVID-19 tende a ter como um de seus efeitos mais dramáticos a acentuação da fome em escala global. Evitar ou minimizar esse processo exige a criação de ações conjuntas dos diversos níveis de governos e a reestruturação do status quo das políticas alimentares, de modo a garantir o acesso universal a comida saudável e culturalmente apropriada.

Referências

Ahmed, Abiy. 2020. “If Covid-19 Is Not Beaten in Africa It Will Return to Haunt Us All | Free to Read.” Financial Times, March 25, 2020. https://www.ft.com/content/c12a09c8-6db6-11ea-89df-41bea055720b.

Alentejano, Paulo Roberto. 2020. “Crise do coronavírus alerta para necessidade de repensar produção alimentar.” Brasil de Fato (blog). 2020. https://www.brasildefato.com.br/2020/04/10/artigo-crise-do-coronavirus-alerta-para-necessidade-de-repensar-producao-alimentar.

Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável. 2020. “AliaGarantir o direito à alimentação e combater a fome em tempos de coronavírus.” 2020. http://alimentacaosaudavel.org.br/garantir-o-direito-a-alimentacao-e-combater-a-fome-em-tempos-de-coronavirus/6243/.

Castro, Josué de. 1984. Geografia Da Fome: O Dilema Brasileiro: Pão Ou Aço. Rio de Janeiro: Edições Antares.

Davis, Mike. 2020. “The Coronavirus Crisis Is a Monster Fueled by Capitalism.” In These Times, March 20, 2020. https://inthesetimes.com/article/22394/coronavirus-crisis-capitalism-covid-19-monster-mike-davis.

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. 2019a. “The State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI): Safeguarding against Economic Slowdowns and Downturns.” Rome. https://www.wfp.org/publications/2019-state-food-security-and-nutrition-world-sofi-safeguarding-against-economic.

———. 2019b. “Ultra-Processed Foods, Diet Quality, and Health Using the NOVA Classification System.” Rome. http://www.fao.org/fsnforum/resources/fsn-resources/ultra-processed-foods-diet-quality-and-health-using-nova-classification.

Harvey, David. 2020. “Anti-Capitalist Politics in the Time of COVID-19.” Jacobin. 2020. https://jacobinmag.com/2020/03/david-harvey-coronavirus-political-economy-disruptions.

Harvey, Fiona. 2020. “Coronavirus Could Double Number of People Going Hungry.” The Guardian, April 9, 2020, sec. World news. https://www.theguardian.com/world/2020/apr/09/coronavirus-could-double-number-of-people-going-hungry.

Maluf, Renato. 2020. “Para repensar o modelo agrícola em tempo de crise.” Outras Palavras (blog). 2020. https://outraspalavras.net/outrasmidias/para-repensar-o-modelo-agricola-em-tempo-de-crise/.

Nicholls, Inés, and Miguel Altieri. 2020. “A agroecologia em tempos de covid-19.” Brasil de Fato (blog). January 4, 2020. https://www.brasildefato.com.br/2020/04/01/artigo-a-agroecologia-em-tempos-de-covid-19.

Ribeiro, Silvia. 2020. “Coronavírus, agronegócio e estado de exceção.” Brasil de Fato (blog). 2020. https://www.brasildefato.com.br/2020/03/02/artigo-coronavirus-agronegocio-e-estado-de-excecao-por-silvia-ribeiro.

Smaller, Carin, and Sophio Murphy. 2020. “Why We Need a Global COVID-19 Stimulus Package.” Food Tank (blog). April 3, 2020. https://foodtank.com/news/2020/04/we-need-a-global-stimulus-package-to-avoid-a-covid-19-hunger-crisis/.

Sobre o autor

Estevan Leopoldo de Freitas Coca é Professor Adjunto da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "A pandemia do COVID-19 e a fome como desafios globais, por Estevan Leopoldo de Freitas Coca," in Revista Mundorama, 13/04/2020, https://mundorama.net/?p=26959.

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