A Guerra Fria foi o confronto com o maior potencial destrutivo da história. Em função da longa duração, da proximidade histórica e dos filmes hollywoodianos, esse conflito permanece vivo no imaginário popular. Talvez por isso, a escalada da competição estratégica entre Estados Unidos e China foi classificada por muitos como uma “nova Guerra Fria” (E.g. KAPLAN, 2019).

O rótulo, porém, é enganador e a própria dinâmica de Hollywood revela a razão. A rivalidade entre estadunidenses e soviéticos foi retratada em diversos filmes de ação da década de 1980, período da presidência de Reagan e do recrudescimento do enfrentamento bipolar. A maior indústria cultural do planeta fez filmes como: “Amanhecer Violento” [Red Dawn, 1984] que retratou a surpreendente invasão soviética ao solo dos Estados Unidos respondida por estudantes que tomam armas em defesa do seu país; “Rocky IV” [1985] que projetou a luta de boxe entre o valoroso e incansável Rocky Balboa, dos Estados Unidos, e o gigante impiedoso Ivan Drago, da União Soviética, que anunciava ser indestrutível: “I cannot be defeated. I defeat all men.” Outro filme desse período é “Rambo III” [1988] que narrou a ida do indestrutível militar americano John Rambo ao Afeganistão para ajudar os rebeldes locais na guerra contra os soviéticos.

Contudo, sobreveio a queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria. Com isso o apelo dramático do inimigo soviético também decaiu. Outras ameaças assumiram o protagonismo cinematográfico, despontando invasões alienígenas, meteoros em rota de colisão com a terra e ataques terroristas às grandes cidades dos Estados Unidos. Na famosa franquia de filmes “Duro de Matar” [Die Hard, 1988; 1990; 1995; 2007] os antagonistas do policial John McClane são terroristas que atacam o solo norte-americano. A ameaça terrorista também foi a premissa de outras obras como “Nova York Sitiada” [The Siege, 1998] e as séries de ação “24 Horas” e “Homeland”.

Nesse novo contexto internacional as refilmagens e continuações dos filmes clássicos dos anos oitenta foram forçadas a inovar. “Rocky Balboa” [2006] realizou um drama geracional no qual um Rocky envelhecido enfrentou um jovem campeão de boxe. Em “Rambo IV” [2008] John Rambo combateu uma facção do exército de Myanmar que havia sequestrado um grupo de missionários. E a refilmagem de “Amanhecer Violento” [2012] recontou a invasão aos Estados Unidos agora realizada pela Coréia do Norte. Esse panorama ajuda a revelar que Hollywood ainda não tematizou explicitamente a competição estratégica entre Estados Unidos e China nos seus filmes.

Isso, contudo, não foi fortuito. Os realizadores do filme “Amanhecer Violento” decidiram, por exemplo, que o inimigo escolhido para substituir a União Soviética seria a China. Dessa forma, eles inseriam certa verossimilhança no roteiro, pois aludiam ao meteórico crescimento econômico chinês e aos diversos episódios de tensão entre as duas potências.

Emergiu, porém, um dilema inconcebível para a década de oitenta. Após as filmagens, os distribuidores revelaram forte receio de se vincular a uma obra que atrairia a repulsa de Pequim, o que dificultaria os seus negócios com um dos maiores mercados para os filmes americanos (FRITZ, HORN, 2011). Atualmente, a China é, depois dos Estados Unidos, o principal mercado em arrecadação de bilheteria do planeta. Em 2017 a arrecadação de bilheteria foi de 8,6 bilhões de dólares, na China, e 11 bilhões, nos Estados Unidos (FRATER, 2017).

Sob o risco de não entrar nas principais salas de cinema, os realizadores optaram por gastar mais 1 milhão de dólares e alterar digitalmente todo o filme, retirando a China do papel de invasor. Para substituí-la foi escolhida a Coréia do Norte, um país sem importância para a indústria cinematográfica de Hollywood (FRITZ, HORN, 2011). A prioridade dos negócios, porém, defenestrou a verossimilhança: o filme afirmava que um país pobre, com uma população muito menor do que a dos Estados Unidos, atravessaria todo o oceano pacífico para invadir a maior potência tecnológica e militar do planeta.

Na ausência de um antagonista crível e do clima político dos anos oitenta, o filme não agradou e, quando foi aos cinemas, teve uma recepção morna do público, bem como uma avaliação muito negativa dos críticos, alguns atônitos com a tresloucada ideia central. O filme, porém, não maculou os distribuidores e teve menores dificuldades em entrar nas salas de cinema.

A intervenção em “Amanhecer Violento” foi a mais extrema, porém não foi a única. Também ocorreram mudanças em outros filmes – como a retirada de vilões chineses de “Homens de Preto 3” e “Piratas do Caribe: No fim do Mundo” – o que levou Walker (2013) a classificar que Hollywood estaria com uma “síndrome chinesa”.

A ausência do inimigo chinês nos filmes hollywoodianos e a introdução do surrealismo em “Amanhecer violento” revelam por que a analogia histórica com a Guerra Fria é frágil. Na velha competição estratégica entre Estados Unidos e União Soviética as superpotências militares tinham mínimas relações econômicas e comerciais entre si. No caso de Estados Unidos e China ocorre o oposto, sendo os laços econômicos tão fortes que produziram a intervenção cirúrgica em “Amanhecer Violento”; a qual se deu sem pressões diretas de Pequim, isto é, foi feita a partir das próprias dinâmicas dos negócios (FRITZ, HORN, 2011).

A nova natureza da competição estratégica revela, por consequência, que os marcos analíticos criados para compreender a Guerra Fria não são necessariamente adequados para entender o atual cenário de competição geopolítica e geoeconômica entre Washington e Pequim. Lembra Kirshner (1998, p. 64-65) que a separação entre Economia internacional e Segurança internacional é um desdobramento e atavismo da Guerra Fria, sendo inadequada para compreender a atual política internacional. Para analisar adequadamente as relações sino-americanas é preciso visualizar a competição de segurança e a competição econômica, e assim nem os tradicionais estudos de economia, que expurgam a dinâmica do poder doméstico e internacional, nem os de segurança internacional, que tornam irrelevantes ou silenciam sobre os conflitos econômicos, oferecem aporte adequado. Essa nova realidade demanda a integração de níveis analíticos, tratar em conjunto o econômico e o político, sendo a disciplina de Economia Política Internacional um bom ponto de partida.

Referências

FRATER, P. China Box Office Expands by $2 Billion to Hit $8.6 Billion in 2017. Variety. 2017. Disponível em: https://variety.com/2017/film/asia/china-box-office-expands-by-2-billion-in-2017-1202650515/ Acesso em 20 de Julho de 2019.

FRITZ, B.; HORN, J. Reel China: Hollywood tries to stay on China’s good side. La Times. 2011 Disponível em: https://www.latimes.com/entertainment/la-xpm-2011-mar-16-la-et-china-red-dawn-20110316-story.html Acesso em 22 de Abril de 2019.

KAPLAN, R. “A New Cold War Has Begun”, Foreign Policy. Disponível em: https://foreignpolicy.com/2019/01/07/a-new-cold-war-has-begun/ Acesso em 14 de setembro de 2019.

KIRSHNER, J. Political Economy in Security Studies after the Cold War. Review of International Political Economy. 5:1, p. 64 – 91. Spring 1998.

WALKER, T. Hollywood’s China syndrome: Plots and characters changed to suit huge. 7 abril, 2013. Disponível em: https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/news/hollywoods-china-syndrome-plots-and-characters-changed-to-suit-huge-new-audience-8563099.html Acesso em: 6 de fevereiro de 2020.

Sobre o autor

Mateus de Paula Narciso Rocha é Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU.

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "Uma nova guerra fria? Estados Unidos, China e a ausência cinematográfica do “inimigo chinês”, por Mateus de Paula Narciso Rocha," in Revista Mundorama, 23/03/2020, https://mundorama.net/?p=26919.