O artigo de Gianfranco Caterina, “Gagarin in Brazil: reassessing the terms of the Cold War domestic political debate in 1961”, publicado no vol. 63, n.1, da RBPI, sublinha as intersecções entre cultura e Estado, enfatizando o papel de elementos materiais e simbólicos. Sob o pano de fundo da expansão soviética nos anos 1950 e 1960, a viagem do astronauta Yuri Gagarin ao Brasil acende reações da elite brasileira e influencia o debate doméstico sobre a Guerra Fria. Caterina procura, ao longo do estudo, relacionar a diplomacia cultural soviética com os esforços da modernização no Brasil. Sobre esse tópico – e seus impactos duradouros dessa relação bilateral – o autor concedeu uma entrevista à RBPI.

O argumento do artigo é desenvolvido com base em uma extensa base documental-histórica. Contudo, algumas limitações persistiram como, por exemplo, a ausência de registros, no Arquivo de Estado da Federação Russa, da visita de Gagarin ao Brasil. Na sua opinião, a que se deve essa ausência de registros? Foi possível suprir essa ausência a partir do levantamento de documentos midiáticos?

Foi possível, sem dúvida. Argumento que a visita deixa clara uma mudança na percepção de importantes atores políticos brasileiros a respeito da URSS. A cobertura que a imprensa brasileira fez da visita de Gagarin ao país foi impressionante. A crescente massificação da mídia no início da década de 1960, em todo o mundo, ajudou a tornar o cosmonauta uma celebridade internacional instantaneamente após seu voo espacial pioneiro em abril de 1961. Sua notoriedade, na época, era só comparada a de políticos ilustres ou de algumas estrelas do cinema norte-americano ou europeu. Dessa forma, seria natural esperar que a figura de Gagarin despertasse muita curiosidade em diversos círculos no Brasil. Deve-se destacar ainda que muitos desses grupos, a princípio, não nutriam nenhuma simpatia pelo socialismo soviético. Jornais brasileiros de diferentes orientações ideológicas mostram o fascínio de lideranças políticas domésticas (civis e militares) com o cosmonauta e, por consequência, com o programa espacial soviético. O impacto dos feitos soviéticos nesse campo – especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil – precisa ser melhor estudado. O programa espacial da URSS deve ser entendido como ponta de lança na narrativa de modernização da superpotência socialista. Como o historiador Tobias Rupprecht afirma, a autorrepresentação soviética no exterior havia sido alterada de berço da revolução mundial para um país tecnologicamente avançado e sofisticado, capaz de superar os EUA em alguns campos do conhecimento humano. Nesse processo, a retórica político-partidária de tom militante havia sido diminuída de forma significativa. O anticomunismo no Brasil passaria a ser contrabalançado com certo fascínio, por parte importante das elites políticas brasileiras, com a modernização soviética.

Com relação ao arquivo russo mencionado, não é fácil especular sobre os motivos dessa ausência de registros. Pude constatar, in loco, que o Arquivo Estatal da Federação Russa (GARF), em Moscou, possui um rico acervo a respeito da diplomacia cultural soviética – e isso inclui trocas com o Brasil. Visitei-o em 2017 buscando documentos para minha tese de doutoramento. É possível, no entanto, que registros russos dessa visita estejam em outro arquivo.

A tentativa brasileira de reaproximação diplomática com a URSS, em 1961 com Jânio Quadros no poder, seria um “alvo natural” para a ofensiva cultural soviética. Na sua opinião, o que configura esse “alvo natural”? De que maneira a Política Externa Independente (PEI), marca desse período, pode ser considerada uma variável permissiva dessa ofensiva cultural soviética?

O Brasil era, em julho de 1961, um “alvo natural” para essa ofensiva cultural pois era o único país da América Latina com capacidade de influência regional que não mantinha relações diplomáticas plenas com a URSS. Argentina e México não tiveram laços cortados com a superpotência socialista na segunda metade da década de 1940. Além disso, o fiasco norte-americano com a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em abril, combinado com o voo espacial pioneiro de Gagarin, indicavam um momento oportuno para a URSS buscar aumentar sua influência na América Latina. Pelo lado brasileiro, o governo Jânio Quadros se aproximava da URSS visando o restabelecimento de relações diplomáticas por razões econômicas (possibilidades comerciais e financeiras), buscando oportunidades de cooperação técnica-científica e reafirmando, na prática (sobretudo por razões de política doméstica e interamericana), a retórica autonomista da Política Externa Independente.

Até abril de 1962 Gagarin visitaria vários países (Finlândia, Canadá, Hungria, França, etc.) e, para cada uma dessas missões, foram emitidas diretrizes específicas e pontos de discussão (“talking points”) para o cosmonauta. O senhor poderia explanar sobre essas diretrizes e, mais especificamente, sobre os pontos de discussão para a viagem de Gagarin ao Brasil?

Seria muito interessante saber os pontos específicos de discussão para a viagem de Gagarin ao Brasil. Infelizmente, não encontrei esses registros na Rússia. Em relação às diretrizes específicas e pontos de discussão de modo geral, a literatura afirma que o tenente general Nikolai Kamanin (principal responsável pela seleção e treinamento dos cosmonautas) era quem os redigia e zelava para que fossem respeitados. O historiador Slava Gerovitch, no entanto, afirma que a influência de Kamanin nesse campo foi muitas vezes confrontada com opiniões divergentes vindas da cúpula do Partido Comunista da URSS (PCUS). Kamanin, de acordo com Gerovitch, buscava uma retórica capaz de estabelecer uma conexão com as populações locais por meio de propostas amplas e sem confrontação (busca pela paz internacional e cooperação), ao passo que a cúpula do PCUS tinha como objetivo ligar diretamente os sucessos do programa espacial com o sistema socialista soviético. Na prática, percebe-se um tom conciliador em países capitalistas e uma característica mais ideológica em visitas a países socialistas.

Os logros da modernização soviética e seus registros econômicos impressionaram vários setores da população brasileira, incluindo sua parcela mais conservadora. Apesar disso, Jânio Quadros encontrava forte oposição ao seu governo no Congresso Nacional. Por que as conquistas da modernização soviética e um ensaio de aproximação diplomática entre Brasil e a URSS não confluíram em um maior apoio a Quadros no Congresso Nacional?

O Brasil tinha necessidades mais urgentes – especialmente no campo econômico – e o restabelecimento de relações diplomáticas com a URSS não geraria frutos significativos de forma imediata. Havia diversos obstáculos administrativos, burocráticos e culturais para que as relações econômicas se tornassem realmente relevantes. Quadros teve papel importante, do ponto de vista pessoal, ao ajudar a encaminhar a aproximação entre os dois países em bases concretas. Entretanto, ao mesmo tempo, isso foi feito de uma maneira que, ao dar destaque demasiado a esse processo ao público doméstico, levou a expectativas exageradas do lado brasileiro (tanto do ponto de vista comercial, como financeiro e técnico) e a críticas que poderiam ter sido evitadas. Com crescentes dificuldades em lidar com o Congresso, Quadros ainda seria fustigado dentro da própria direita – governador Carlos Lacerda à frente – pelo caráter autonomista de sua política externa. É importante lembrar que o presidente vinha de um partido político pequeno e que a UDN (único partido conservador de alcance nacional) resolveu apoiá-lo pois percebeu que sua candidatura era uma oportunidade para ganhar o poder depois de sucessivas derrotas. No campo das esquerdas, o presidente era criticado por sua política econômica restritiva que buscava equilibrar as contas, diminuir o desequilíbrio externo e domar a inflação. Mesmo com a mudança na autorrepresentação soviética, conforme vimos, o tópico do restabelecimento de relações diplomáticas com a URSS recomendava que isso deveria ser encaminhado de forma discreta, sem alarde e com algum cuidado com sensibilidades domésticas que persistiam. Foi exatamente essa abordagem que guiou o chanceler San Tiago Dantas, o primeiro-ministro Tancredo Neves e o presidente João Goulart ao concretizar o reatamento em novembro de 1961 após a renúncia de Jânio ocorrida três meses antes.

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Caterina, Gianfranco. (2020). Gagarin in Brazil: reassessing the terms of the Cold War domestic political debate in 1961. Revista Brasileira de Política Internacional, 63(1), e004. Epub March 09, 2020.https://doi.org/10.1590/0034-7329202000104

About the authors

Gianfranco Caterina, Fundação Getúlio Vargas, History, Rio de Janeiro, Brazil

Tiago Tasca, Assistente editorial da Revista Brasileira de Política Internacional

How to cite this interview

Cite this article as: Antônio Carlos Lessa, "Gagarin in Brazil: reassessing the terms of the Cold War domestic political debate in 1961, uma entrevista com Gianfranco Caterina, por Tiago Tasca," in Revista Mundorama, 16/03/2020, https://mundorama.net/?p=26886.