O ano de 2019 vem sendo marcado por intensas negociações em torno da nova edição do programa Horizonte 2020, o maior programa europeu de financiamento à pesquisa e à inovação. Neste momento, também está sendo construído, no Chile, como parte da European Southern Observatory (ESO), organização europeia de colaboração astronômica, o Extremely Large Telescope, que proporcionará, por exemplo, avanço na produção de conhecimento sobre planetas extra-solares. Outra construção científica internacional de grande porte, exemplar por envolver países em conflito, é o Projeto Synchrotron-Light for Experimental Science and Applications in the Middle East (SESAME), inaugurado em 2017. Aqui no Brasil, articula-se a entrada para o Projeto Genoma Humano, notando-se também, para além de pesquisadores, a inclusão de outros atores em iniciativas de internacionalização apoiadas pelo governo, como as startups selecionadas pelo Programa StartOut Brasil para participar de programas de imersão em ecossistemas de inovação de outros países.

Exemplos como esses demonstram a relevância da interação entre os campos das Relações Internacionais (RI) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), cujas dinâmicas apresentam importantes consequências para a inserção internacional dos países e regiões no século XXI. Não obstante, cumpre destacar que tal interação não é nova. No período da Guerra Fria, a associação entre Estado e ciência foi marcante, como demonstram as disputas pela hegemonia das tecnologias militares e espaciais entre as duas superpotências. O desenvolvimento científico e tecnológico, contudo, não se restringe a processos nacionais, observando-se intenso intercâmbio transnacional entre seus agentes – universidades, cientistas, laboratórios e empresas. Em vista disso, historiadores e outros cientistas sociais refletiram sobre a desnacionalização da produção científica (CRAWFORD, SHINN E SÖRLIN, 1993), apontando o caráter cada vez mais espontâneo das redes de colaboração entre pesquisadores (WAGNER, 2008).

Há algumas décadas, ainda que de forma incipiente, o campo de Relações Internacionais vem dedicando atenção ao tema da CT&I, traçando, por exemplo, um panorama dos impactos de dinâmicas científicas e tecnológicas sobre as relações internacionais. É o caso do artigo de John Ruggie (1975) “International Responses to Science and Technology”, que destaca, entre outros pontos, que as negociações internacionais voltadas para lidar com a interdependência criada pelos avanços científicos e tecnológicos são influenciadas, por exemplo, por disparidades nos padrões de interação entre cientistas, empresas e governos e no valor conferido à CT&I dentro de cada país (valor simbólico, valor comercial, mérito científico). Outra obra relevante é a de Eugene Skolnikoff (1993), com destaque para o livro “The Elusive Transformation: Science, technology, and the evolution of international politics”, que considera o impacto dos avanços científicos e tecnológicos sobre as relações internacionais relevante, porém incremental, prevalecendo a soberania como princípio central da ordem internacional, embora a autarquia não seja mais uma opção em um mundo marcado pela necessidade de cooperar com outros países, inclusive para acessar novos conhecimentos e garantir a competitividade.

Atualmente, um tema específico englobado pela interface entre RI e CT&I vem ganhando relevância: a diplomacia científica. O conceito é recente, e difundido por diversos autores e canais, na tentativa de englobar práticas internacionais envolvendo ciência e tecnologia com delimitações variadas. Importa reconhecer, neste sentido, a delimitação oferecida por cada definição.

A maior parte dos autores que se dedica ao seu estudo parte de um relatório produzido pela Royal Society em parceria com a American Association for the Advancement of Science, o qual reconhece que ainda não há uma definição sólida da diplomacia científica e propõe sua categorização em três dimensões:

  1. informing foreign policy objectives with scientific advice (science in diplomacy);
  2. facilitating international science cooperation (diplomacy for science);
  3. using science cooperation to improve international relations between countries (science for diplomacy) (THE ROYAL SOCIETY, 2010:6)

Ruffini (2017) concorda que os fenômenos abarcados pela diplomacia científica se restringem à interseção entre ciência e política externa, não devendo se confundir, por exemplo, com iniciativas de cooperação científica internacional promovidas sem a interferência estatal. Nesse sentido, a definição que propõe para o termo é all practices in which actions of researchers and of diplomats interact” (RUFFINI, 2017:16). Flink e Schreiterer (2010) convergem com a ideia de que a presença de atores estatais é chave para a compreensão da diplomacia científica, embora reconheçam que esta também possa englobar parcerias público-privadas envolvendo atores para além dos cientistas, como empreendedores e startups (caso da swissnex). Ou seja, embora haja divergências sobre se a diplomacia científica deva incluir apenas cientistas ou também outros atores privados, como empresas, as abordagens sobre a diplomacia científica mencionadas convergem na avaliação da centralidade dos propósitos estatais, sejam eles econômicos, políticos, científicos ou voltados para a resolução de problemas globais (LEITE E GAYARD, no prelo).

Legrand e Stone (2018), por seu turno, não limitam a diplomacia científica às atividades orientadas por estratégias produzidas pelo Estado. Eles reconhecem, para além dos Ministérios das Relações Exteriores, o papel de ministérios funcionais, organizações internacionais e atores privados na definição das políticas públicas de modo geral e também como atores da diplomacia científica (sendo que no caso dos cientistas incluem também análises sobre o papel dos cientistas sociais). A diplomacia científica é percebida como parte fundamental da política internacional contemporânea, caracterizada pela desagregação e pela fragmentação do policy-making transnacional, em que Estados perdem a capacidade de coordenação para outros atores.

A breve revisão acima permite perceber diferentes enfoques e olhares sobre a diplomacia científica. Conforme pode ser notado, alguns trabalhos a entendem como parte de estratégias estatais, promovendo-se as redes científicas internacionais com o fim, por exemplo, de estreitar laços com países que configurem ameaça à sua segurança ou atrair talentos de outros países. Outros trabalhos, por seu turno, ressaltam que atores não estatais também são centrais na diplomacia científica e na própria definição das estratégias estatais. Além disso, enquanto alguns restringem a análise à interface entre ciência e diplomacia, outros também permitem incorporar o papel de outros atores e dinâmicas do sistema de inovação, como empresas e as suas relações como os cientistas, na diplomacia científica. Neste último caso, talvez o termo “diplomacia da inovação” (CRUZ JUNIOR, 2011; SILVA, 2018), ou o termo “diplomacia da ciência, da tecnologia e da inovação” (AWTI, 2017), seja mais adequado. Não obstante, todos os trabalhos partilham um entendimento de que a diplomacia científica está em ascensão e propõem instrumentos analíticos complementares para sua compreensão.

Aqui no Brasil, a importância do tema pode ser averiguada, por exemplo, pelo fato de o Itamaraty contar atualmente com uma aba sobre o Programa de Diplomacia da Inovação; e pela recente realização da primeira edição do Curso intensivo em Diplomacia Científica e Diplomacia da Inovação (InnscidSP) pela USP. No entanto, a oferta de produções sobre o tema ainda é limitada, sendo a mesma fundamental para que agentes decisórios e implementadores possam reunir informações qualificadas para a elaboração de suas estratégias. Nesse sentido, e tendo em vista a necessidade de promover o debate público sobre o tema, convidamos pesquisadores, especialistas e operadores da diplomacia científica e da diplomacia da inovação a enviarem suas contribuições para o Mundorama.

Referências

AWTI (Advisory Council for Science, Technology and Innovation). STI Diplomacy: advancing the internationalisation of science, technology and innovation. Advisory Report. Haia: AWTI, 2017. Disponível em: https://www.awti.nl/documenten/adviezen/2017/05/16/vertaling-sti-diplomacy. Acesso em 19 set. 2019.

CRAWFORD, Elisabeth; SHINN, Terry; SÖRLIN, Sverker. “The nationalization and denationalization of the sciences: an introductory essay.” In CRAWFORD, Elisabeth; SHINN; Terry e SÖRLIN, Sverker (eds.) Denationalizing Science. Dordrecht: Ed. Spinger Netherlands, 1992, p. 1-42.

CRUZ JÚNIOR, Ademar Seabra da. Diplomacia, desenvolvimento e sistemas nacionais de inovação: estudo comparado entre Brasil, China e Reino Unido. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011.

FLINK, Tim; SCHREITERER, Ulrich. “Science diplomacy at the intersection of S&T policies and foreign affairs: toward a typology of national approaches.” Science and Public Policy, nov. 2010, p. 665-677.

SILVA, Pedro Ivo Ferraz da. “Fundamentos teóricos e práticos para uma Diplomacia da Inovação”. Cadernos de Política Exterior, v. 4, n. 7, 2018, p. 307-330.

LEGRAND, Timothy; STONE, Diane. “Science diplomacy and transnational governance impact.” British Politics, v. 13, n. 3, 2018, p.392-408.

LEITE, Iara; GAYARD, Nicole. “Quatro abordagens sobre a interação entre cientistas e Estados nas relações internacionais.” R:I (no prelo).

RUFFINI, Pierre-Bruno. Science and diplomacy: a new dimension of international relations. Cham, Switzerland: Springer, 2017.

RUGGIE, John Gerard. “International Responses to Technology: Concepts and Trends.” International Organization, v. 29, n. 3, 1975, p. 557-583.

SKOLNIKOFF, Eugene. The elusive transformation: Science, technology, and the evolution of international politics. Princeton, New Jersey: Ed. Princeton University Press, 1993.

THE ROYAL SOCIETY. “New frontiers in science diplomacy: navigating the changing balance of power.” RS Policy document 01/10, jan. 2010.

WAGNER, Caroline. The new invisible college. Washington, DC: Ed. Brookings Press, 2008.

Sobre as autoras

Iara Costa Leite é Doutora em Ciência Política (IESP/UERJ), professora adjunta do Departamento de Economia de Relações Internacionais da UFSC e coordenadora do grupo do CNPq Relações Internacionais e Ciência, Tecnologia e Inovação (RICTI). Atualmente realiza pós-doc no iRel/UnB e é pesquisadora visitante da School of History and Sociology do GeorgiaTech

Nicole Aguilar Gayard é Doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp) e Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "Interfaces entre Relações Internacionais e Ciência, Tecnologia e Inovação: um olhar sobre a diplomacia científica, por Iara Costa Leite & Nicole Gayard," in Revista Mundorama, 27/09/2019, https://mundorama.net/?p=26170.