Em outubro de 1949, os comunistas chineses sob liderança de Mao Zedong (1893 – 1976) tinham tomado o poder após uma longa guerra civil. Mao deixou claro que a China guardava, em sua história, a união dos cinco povos sob uma Grande Família, a ser simbolizada na bandeira oficial chinesa atual. Era um plano carregado de ambição, pois o novo regime deveria reestruturar o país devastado após anos de conflito com os japoneses desde 1937. Mao tinha planos de modernizar a China em poucos anos, e isso incluía uma plena integração de seu território, a explorar todas as suas reservas naturais e potenciais. Os planos foram consubstanciados e levados a cabo, principalmente, no uso dos homens do Exército de Libertação Popular (ELP). Em setembro de 1949, portanto um mês antes de Mao chegar a Pequim, foram irradiadas mensagens por rádio afirmando de que o Tibete deveria ser parte indivisível e inalienável da nova China, e qualquer ameaça a isso despertaria a ira do ELP. Pois já havia estacionado em Kham (região oriental tibetana), uma força da ELP de cerca de 20 mil homens, e seriam impensáveis os confrontos com o que o governo tibetano pudesse mobilizar em Kham, cerca de 3500 homens. Ademais, Kham sempre fora uma região fronteiriça do Tibete, e muitos khampas consideravam os tibetanos como os verdadeiros rivais, e não teriam nenhuma resistência em apoiar as tropas chinesas comunistas.

Em outubro de 1949, o governo tibetano reconheceu as dificuldades e enviou cartas para governos estrangeiros, pedindo apoio contra a iminente invasão comunista. As respostas foram desalentadoras. Os britânicos tinham recém negociado a saída com os indianos e paquistaneses, e não desejaram maior envolvimento nessa região asiática. Por sua vez, os indianos não estavam dispostos a desagradar o novo governo chinês, com quem tinha muito a tratar e negociar. Mas os comunistas chineses ainda assim consideraram o Tibete como região de intervenções estrangeiros no passado. E essa atitude foi exacerbada com a decisão do governo tibetano em expulsar todos os representantes chineses, incluindo os representantes chineses, os ambans, de Lhasa em 1949.

Não foi apenas uma questão de estrangeiros e libertação do Tibete. Os chineses atravessaram um século de humilhações seguidas nas mãos de britânicos, europeus e japoneses. A rejeição do 13º Dalai Lama em 1913 sobre as demandas chinesas foi ainda outro fator agravante no orgulho chinês. Além do mais, o Tibete era uma região de fronteira vital, a sudoeste e oeste, e, caso fosse independente, as fronteiras com a China seriam estabelecidas ao longo do rio Yangzi, um terreno de fácil acesso e de difícil defesa contra eventuais agressores aos olhos chineses. Com a anexação do Tibete, as fronteiras iriam se estender ao longo da imponente cordilheira dos Himalaias que manteve o isolamento seguro do Tibete por séculos.

Mao Zedong não desejava combates contra os tibetanos. Pois sabia que uma força militar chinesa no Tibete agravaria ainda mais a relação entre os dois governos. Almejava um acordo pacífico, negociado, assim como muitos tibetanos. A questão era como seriam os termos desse acordo a ser alcançado. Um breve encontro já havia ocorrido na Índia, e o representante tibetano no país e o embaixador chinês em Delhi chegaram logo a paralisações nas negociações, com a posição chinesa a defender a integração do Tibete e a pronta e categórica recusa por parte do conselho em Lhasa, o Kashag.

Em 23 de maio de 1951, um representante tibetano negociou o status do Tibete a se submeter ao comando de Pequim. Para os chineses, esse acordo negociado foi um tremendo sucesso, a justificar o Tibete como parte integrante da China. Observadores e a comunidade internacional ficaram chocados com os fatos, mas poucos puderam compreender que as negociações foram realizadas dentro dos limites das circunstâncias históricas.

Em 7 de julho de 1951, centenas de lamas e oficiais tibetanos se reuniram e, após dias de debates, a maioria decidiu que o Dalai Lama deveria retornar da Índia e aceitar o tratado com os chineses. A resistência tibetana não poderia ser considerada mais seriamente diante da força do EPL estacionados nas fronteiras, e se decepcionaram com a parca ajuda ofertada pela comunidade internacional. Nesse sentido, os primeiros representantes do EPL começaram a se dirigir a Lhasa, e as altas autoridades tibetanas, incluindo o 14º Dalai Lama, começaram a tomar o rumo de volta de Yadong, sob a escolta de um general chinês. Um mês depois, o Dalai Lama mandou um telegrama a Mao aceitando os termos do acordo. Nos próximos meses de 1951, milhares de tropas chinesas começaram a chegar a Lhasa, carregando cartazes e retratos de Mao e outros símbolos da China comunista. Ao final do ano, havia cerca de 8 mil soldados em Lhasa, e outros milhares foram para a fronteira com a Índia. Foi o início de uma nova era.

Mao tinha ficado impressionado como Lênin e Stálin tinham conseguido espalhar seus governos tão rapidamente sobre tantos povos e etnias diferentes, na criação da União Soviética. O líder chinês propôs vigilância e restrição a um senso exagerado de importância e chauvinismo da etnia han sobre os outros povos chineses, e da importância de se respeitar as diferenças entre eles na nova China. No entanto, ao longo da década de 1950, o discurso começou a mudar para a realidade política. Ao Tibete, havia sido oferecido, e não negociado, uma autonomia dentro do espaço soberano chinês comunista. Isso foi feito, de toda maneira, de forma branda e gradual. Entre 1951 e 1959, os comunistas chineses buscaram cortejar a elite tibetana e mantiveram as estruturas tradicionais tibetanas. Feito isso, os chineses ganharam adeptos entre parte da elite tibetana, inclusive o 14º Dalai Lama.

Em Pequim, Mao tinha consciência das limitações da política tibetana, e queria ganhar os corações dos tibetanos com o tempo, investindo generosamente na construção de estradas, escolas, hospitais, bancos, portos e reformas dos grandes mosteiros. Fazendo isso, Mao começou a ligar cada vez mais a economia e sociedade tibetana com o resto da China, distanciando dos seus acessos à Índia. Os chineses patrocinaram grandes festivais e orações tradicionais, e promoveram as autoridades religiosas dos mosteiros. Foi natural, pois, que muitos tibetanos começaram a enxergar os chineses com novos olhos, na década de 1950. Os costumes chineses começaram a inundar Lhasa, especialmente entre a elite: a língua, roupas, música e penteados. Os tibetanos que haviam visitado a China voltaram maravilhados com a modernidade que tinham visto.

O Dalai Lama, apesar de propor novas reformas, era mais cauteloso a respeito das mudanças e da realidade chinesa. Mao, visando ganhar o lama, convidou-o com todas as honras para Pequim em 1954, na inauguração do novo Congresso Nacional do Povo. Os eventos posteriores da visita ecoaram os eventos dos séculos anteriores, com Mao apresentando seus ministros aos lamas e autoridades tibetanas, portando-se como os imperadores chineses do passado. O Dalai ficou comovido com a atenção dada aos mais pobres no discurso de Mao, e pensou que esse ideal comunista condizia com os ensinamentos dos bodisatvas de colocar o bem-estar dos outros antes do próprio.

Como efeito prático, o Tibete foi estabelecido como Região Autônoma e o governo tibetano seria agora composto a partir de um Comitê Preparatório que incorporou a estrutura do governo tibetano anterior. Na verdade, essa reforma política resultou num enfraquecimento do Dalai Lama e do Kashag, pois agora representavam uma fração num novo comitê executivo. Outras propostas chinesas vieram à tona. A moeda tibetana seria substituída pela chinesa e o exército tibetano foi dissolvido, que produziu alguns rebeldes militares a buscar novas bases de atuação.

Em novembro de 1956, o 14º Dalai Lama e ministros do Kashag foram recebidos em Delhi pelo primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru (1889 – 1964). Alguns dias depois, o lama foi prestar homenagens a Gandhi, onde parte de suas cinzas foram lançadas ao sagrado rio Yamuna. E nessa ocasião, o Dalai prometeu de que jamais faria uso da violência, conforme defendia o líder indiano. Em janeiro de 1957, o Dalai voltou para a fronteira com o Tibete, em Kalimpong, e encontrou-se com a comunidade de exilados na cidade.

A situação no Tibete, no entanto, não estava indo nada bem. Os rebeldes em Kham estavam cada vez mais impacientes. O Dalai pediu a cooperação dessa comunidade. O Karmapa, o maior lama de Karma Kagyu popular entre os de Kham, instruiu aos seus fiéis calma e serenidade. Outro erudito da escola de Karma Kagyu, Khenpo Gangshar (1925 – 1980-81) (MUKPO, 2006), passou a ensinar que todos os budistas deveriam tomar atitude benévola e ativa nesse mundo, e a evitar o que é nocivo, ecoando as palavras de Buda. Mas o espírito combativo em Kham não foi evitado. Diante das demandas de Pequim, o Kashag procurou conter os rebeldes, mas com pouco resultado, apenas a expulsar apenas alguns refugiados khampas de Lhasa. Essa atitude ao longo do tempo, do governo tibetano com relação aos khampas, fez com que muitos desses se sentissem abandonados e ressentidos no Tibete Central.

No início de 1957, Mao discursou perante os membros mais proeminentes do PCC e afirmou que havia contradições no Partido e dentro da China. O excessivo chauvinismo da etnia han deveria ser contido e que as outras nacionalidades chinesas (como os tibetanos) deveriam ser respeitadas para uma fase de transição ao comunismo. Mas ao afirmar isso, Mao deixou claro que não havia nenhuma consulta aos tibetanos, e que todas as nacionalidades chinesas deveriam se adequar ao plano nacional. Ao final do discurso, Mao concluiu que a China deveria ter mais discussões, críticas e propostas, se almejasse avançar, como expressou em tom metafórico ao comparar com o florescimento de cem flores. Muitos levaram as palavras do líder a sério, e assim, depois de algum tempo, Mao começou uma política repressiva contra todos aqueles considerados contra o projeto revolucionário. Em Kham, os efeitos dessa repressão foram logo sentidos. Uma das primeiras vítimas foi o mais proeminente representante tibetano do governo chinês na região, Punwang, deixando o Dalai Lama inconformado e cada vez mais impaciente. Entre os khampas, as atitudes passaram para os conflitos armados. Isso foi ainda mais agravado depois do anúncio de Mao, no verão de 1958, do Grande Salto Adiante, prometendo multiplicar a produção chinesa em vários setores em poucos anos. As unidades de produção seriam cooperativas a incentivarem umas às outras. O plano nacional foi um desastre, resultando em cerca de 20 milhões de mortos, muitos por doenças acarretadas pela fome (MACEDO, 2016). No Tibete, o número de vítimas chegou às suas fronteiras, em Sichuan, antiga parte oriental de Kham. À medida que mais terras eram coletivizadas, as pessoas passaram a migrar e fugir dos planos de Mao, indo se refugiar em mosteiros com a anuência de monges e lamas.

O cataclismo, portanto, estava visível no horizonte dos tempos no início de 1959. Nesse período, o governo tibetano encontrava-se paralisado e sem um posicionamento a respeito dos rebeldes khampas. O Dalai Lama estava retirado para concluir seus estudos que o levaria ao grau de geshe (título acadêmico da tradição tibetana). E os exames finais ocorreriam logo no Ano Novo Tibetano, coincidindo com o Festival da Oração, uma das mais tradicionais de Lhasa. Um dos generais chineses que permaneceu à época em Lhasa, Tan Guasen, propôs um grande festival de dança para celebrar a aprovação do lama a ser realizado no amplo auditório da sede do EPL próximo de Lhasa. Os exames finais do lama ocorreram em março, e foram realizadas grandes procissões, em cada um dos grandes mosteiros, primeiro em Drepung, depois em Sera e, por fim, em Ganden.

Na manhã do dia 16 de março de 1959, começaram os rumores de que o lama havia sumido. Alguns consideraram isso como ato dos chineses, outros como uma fuga ao exílio. Os manifestantes fortificaram-se em pontos em Lhasa para fazer frente às tropas chinesas. No dia 20 de março de 1959, os chineses passaram novamente a atirar contra Norbulingka, a dispensar a multidão. Na manhã seguinte, as batalhas mais sangrentas começaram e o lado tibetano encontrava-se em clara desvantagem. Houve tenaz resistência de khampas, mas em sua maior parte, foram rendidos ou mortos pelo fogo chinês. As notícias violentas chegaram ao ouvido do Dalai Lama, e este percebeu que não havia volta para Lhasa, e assim decidiu ir adiante para a Índia, solicitando a Nehru um pedido de asilo.

À época que o Dalai Lama chegou à Índia para o exílio em 1959, já havia uma numerosa comunidade tibetana no exterior. Chefes e líderes de outras escolas tibetanas, como as de Karmapa, Sakya Trizin e Dudjom Rinpoche. Muitos outros tentaram fugir, mas foram detidos e pegos pelo EPL e alguns até morreram na tentativa. A maioria dos que escaparam foram os primeiros que se dirigiram ao Sikkim, na Índia, e ao Butão. Outros, do grupo rebelde dos khampas, foram recebidos pelo rei Mahendra (r. 1955 – 1972) do Nepal. Apesar de Nehru ter concedido asilo ao Dalai Lama na Índia, o chefe de governo indiano afirmou não poder reconhecer a independência do Tibete.

O 14º Dalai Lama, aproveitando-se da visibilidade tibetana, começou a fazer conferências e entrevistas para a imprensa internacional e buscou se reunir com lideranças e embaixadores estrangeiros. Nas Nações Unidas, houve certa vitória aos tibetanos no exílio ao ser aprovada a Resoluções 1353 de 1959 e a 1755 de 1961 apelando para o respeito dos direitos humanos do povo tibetano e pela sua vida cultural e religiosa. Mas o número de países que tinham oferecido apoio e asilo foi pouco, em geral, em nada se comparando à generosidade indiana. Em 1960, Nehru sugeriu ao Dalai Lama para se instalar na cidade de Dharamsala, e a cidade tornou-se sede do que muitos consideram como o governo tibetano no exílio.

A elite política tibetana no exílio logo começou a se dividir sobre quais rumos e ações deveriam ser tomadas. Alguns consideraram o Dalai como um colaborador e traidor diante das suas negociações com os chineses. Outros, como o irmão do Dalai, Gyalo Thondup (1928 – ), passaram a buscar adaptar os ideais comunistas para revigorar o atrasado sistema de governo tibetano, consubstanciado no Kashag, o qual foi paulatinamente sendo abolido à medida que os membros mais velhos do conselho foram morrendo.

O governo em Pequim, todavia, ainda considerava como melhor administrar e apaziguar as lideranças tibetanas e introduzir reformas de maneira cuidadosa. Mas a visão, do lado tibetano, começou a mudar para a negativa na cooperação, pois foram vistos o desgaste da intervenção chinesa, o desprezo em geral da sociedade internacional e o desmonte das estruturas tradicionais no Tibete. O governo chinês propôs uma medida administrativa mais direta e eficiente, visando conter os crescentes questionamentos, com a criação do Comitê Preparatório da Região Autônoma do Tibete. As mudanças nesse sentido foram logo sentidas na década de 1960, com o deslocamento forçado de milhares de monges que lutaram nas rebeliões para campos de trabalho pela China. Mosteiros e templos tibetanos foram esvaziados e suas propriedades fundiárias desapropriadas. Essa perseguição aos rebeldes se estendeu para além de Lhasa. Os monges do templo de Sakya foram acusados de reacionários e mais tibetanos foram capturados ou foram para o exílio.

Em outubro de 1966, o furor da Revolução Cultural se voltou como vandalismo cultural nunca visto na China. Lugares históricos foram atacados e depredados em Pequim, pilhas de livros foram queimadas e templos e estátuas foram destruídos. Os eventos posteriores no Tibete foram decorrentes desse novo tempo. O general Zhang Guohua foi designado para levar as reformas da Revolução Cultural ao Tibete. E assim o militar chinês buscou então recrutar e formar um corpo de jovens tibetanos para a Guarda Vermelha Tibetana que deveriam visar a destruição das tradições no Tibete. Objetos e propriedades religiosas que representavam o passado tirânico deveriam ser destruídos, assim como templos, mosteiros, escolas e estupas budistas. Hábitos antigos, como os festivais religiosos deveriam ser abolidos, assim como a recitação de mantras e os atos de peregrinação a locais sagrados, como ao sagrado Monte Kailash (local onde os budistas consideram como centro do universo, e os hindus como morada do deus Xiva). Os monges deveriam ser debandados e servir de utilidade em obras públicas designadas. Retratos de lamas e outras autoridades religiosas deveriam ser destruídos.

Somente alguns poucos locais foram poupados, como o Palácio do Potala, por sugestão de Zhou Enlai (1898 – 1976), premiê da República Popular da China entre 1949 até sua morte, assim como o mosteiro de Tashilhunpo e da histórica imprensa de Derge. O medo, a coerção e a histeria tomaram conta no Tibete desde 1959, e qualquer manifestação contrária resultaria em confinamento, sessões de doutrinamento e execução. Os representantes da velha ordem tibetana, monges, lamas e aristocratas foram denunciados e humilhados em público, vestindo sinais de que eram criminosos. Toda a distinção da identidade e cultura tibetana, resultado de séculos de inovações e mudanças férteis, deveria ser apagada e substituída pelo ideal do socialismo chinês.

Por volta de 1966, grande parte da herança tibetana já havia sido perdida. Em seu lugar, retratos de Mao e cultos à sua imagem. Ainda assim, o Grande Timoneiro orientou a Guarda Vermelha de todas as regiões a buscar obliterar qualquer fonte ou autoridade reminiscente, mesmo dentro dos quadros do PCC. Assim iniciou-se uma fase ainda mais sangrenta da Revolução Cultural no Tibete. Pois as velhas lideranças, consideradas reacionárias, foram afastadas e presas.

A vida dos mosteiros tibetanos foi irremediavelmente afetada depois dos eventos da década de 1960. Vários monges, abades e lamas foram afastados, perseguidos ou fugiram. O maior impacto da divulgação da causa e identidade tibetana no exterior foi a própria atuação do 14º Dalai Lama. Em 1973, o lama fez sua primeira viagem para a Europa e reuniu-se com o papa. O líder tibetano da tradição Gelug afirmou que sua viagem era mais de natureza religiosa e cultural e evitou críticas a Mao e China comunista. Seu humor, humildade e equanimidade começaram a render-lhe simpatia no público internacional, gradativamente. E assim a consciência pública mundial começou a ficar mais informada a respeito do Tibete e do rico e diversificado budismo que ali floresceu por séculos.

O equilíbrio de poder na China passou a mudar depois da morte de Mao Zedong em 9 de setembro de 1976. O PCC começou a se renovar nos seus quadros de liderança. Deng Xiaoping (1904 – 1997), antigo aliado de Mao, dotado de uma forte visão pragmática e reformista, passou a planejar mudanças na área econômica da China. Ao Tibete, a abordagem de Deng sempre fora de respeito e gradualismo nas mudanças. Assim, Deng buscou construir novos laços com o Dalai Lama e a comunidade tibetana no exílio. O contato inicial foi feito com o irmão do Dalai, Gyalo Thondup, que tinha se mudado para Hong Kong. Gyalo foi a Pequim e os dois entenderam sobre a importância da visita do lama à capital chinesa. No entanto, a questão da independência não foi tratada. Como gesto de boa vontade, Deng libertou os prisioneiros políticos incluindo os que participaram dos levantes de 1959 no Tibete.

A partir de meados da década de 1980, houve reviravolta na política chinesa ao Tibete. Temeroso das críticas crescentes na sociedade chinesa por reformas democráticas, Deng Xiaoping e o PCC passaram a tomar uma atitude cada vez mais conservadora e repressiva. O Dalai Lama, vendo desaparecer qualquer perspectiva de acordo com os chineses, passou a viajar e liderar uma campanha para ganhar o apoio dos governos na Europa e América do Norte. Em setembro de 1987, o Dalai fez seu famoso discurso nos EUA a respeito dos direitos humanos no Tibete em Washington. E de que o Tibete foi invadido e a administração chinesa era ilegal e abusiva.

Deng Xiaoping, ansioso em negociar com o Dalai Lama diante das crescentes inquietações tibetanas, propôs que o lama poderia voltar ao Tibete, mas desde que não fosse defendida a independência tibetana. Mas logo após um discurso do Dalai em Estrasburgo, considerado como apologético à independência tibetana, Pequim resolveu fechar novamente os canais de negociação. Em 5 de março de 1989, a Lei Marcial foi decretada no Tibete, a evitar qualquer perturbação decorrente dos 30 anos de aniversário do levante de 1959.

Em fins de 1989, foi concedido ao 14º Dalai Lama o Prêmio Nobel da Paz. No seu discurso de premiação, o lama buscou explicar a singularidade da cultura tibetana e da necessidade de viverem em harmonia com os chineses, desde que seja com base na igualdade, respeito, confiança e benefício mútuo. E lembrou-se da histórica boa convivência com que chineses e tibetanos tinham firmado num tratado do século 9 d.C. que se encontra em frente ao templo de Jokhang.

Pequim começou a rever sua política ao Tibete. Em 1999, o novo líder do PCC, Jiang Zemin (g. 1993 – 2003), anunciou um ambicioso plano, “Abertura ao Oeste”, propondo pesquisas e sondas em busca dos potenciais naturais e minerais do Tibete e regiões ocidentais chinesas. Ano seguinte, iniciaram-se as obras de uma ligação ferroviária moderna para Lhasa, concluídas em 2006, tornando o acesso ao Tibete muito mais fácil aos chineses. Pelo lado do Dalai Lama, sua causa foi se tornando célebre, desde a última década do século 20, com a visibilidade de livros e filmes. A maior vitrine da causa tibetana no início do século 21 foram as preparações para as Olimpíadas de Pequim em 2008, quando apresentou-se uma oportunidade para que fossem vistos os protestos a favor da causa tibetana.

Os protestos tibetanos foram considerados como uma manifestação desesperada de uma nova inserção do Tibete que sempre se sentiu marginalizada nas decisões oficiais em Pequim. A língua e cultura tibetana foram durante muito tempo, desde 1959, reprimidos ou ignorados. O maior símbolo religioso deles, o Dalai Lama, continua exilado, fragilizando a identidade religiosa budista tibetana. Caso haja integração maior com a China, desapareceriam os valores, tradições, crenças, pensamentos, língua, costumes e tradições tibetanas, construída ao longo dos séculos? Ou caberia apenas um único caminho, a luta pela independência plena, para a existência da identidade tibetana? Ou haveria alguma maneira da China e o Tibete conviverem em harmonia, respeito e autonomia? Essas questões devem permanecer para reflexões, pois disso dependerá o futuro do Tibete.

Referências

MACEDO, Emiliano Unzer. História da Ásia: uma introdução à sua história moderna e contemporânea. Vitória: SEAD/ Ufes, 2016, p. 85.

MUKPO, Diana J. Dragon Thunder: My Life with Chogyam Trungpa. Boston: Shambhala, 2006, pp. 67-68.

Sobre o autor

Emiliano Unzer Macedo é professor do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (prof_emil@hotmail.com).

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "O Lama e o Dragão – as Relações entre o Tibete e China desde 1949, por Emiliano Unzer Macedo," in Revista Mundorama, 16/07/2019, https://mundorama.net/?p=25747.

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