Do ponto de vista da Política Exterior, o corrente processo de transição de governo é marcado pela relevância e pela transformação nos contatos com Washington. Essa questão teve desenvolvimentos importantes no dia 29 de novembro, quando o presidente eleito, Jair Bolsonaro, recebeu o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton. Dois dias antes, seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, viajara para a capital estadunidense. Tais eventos indicam o recíproco interesse em aumentar as conexões entre o governo em formação e os EUA, o que não é nenhuma novidade e replica situações passadas. Para a potência, é importante criar vínculos com aqueles que administrarão o maior país da América do Sul; já para o futuro governo brasileiro é essencial criar pontos de contato com os líderes da principal potência em termos mundiais. O que acontece em Washington tem impactos no Brasil e é esperado que os governos brasileiros busquem acesso direto à Casa Branca.

Nesse sentido, a atual transição lembra a de 2003, quando um outro líder, Luiz Inácio Lula da Silva, chegava ao poder. Naquele momento, não haviam relações sólidas entre a Casa Branca e o Partido dos Trabalhadores (PT) e era essencial ao estreante fazer conexões com Washington (SPEKTOR, 2014). Mesmo uma administração de centro-esquerda, com um passado de críticas à potência, entendia que relações cordiais eram necessárias. A continuidade sugere que as relações com os EUA são de grande importância e inescapáveis a qualquer governo

Essa comparação poderia levar a imaginar a existência de permanências fortes na Politica Exterior brasileira, de modo que as mudanças de governo não tivessem impacto significativo em políticas de Estado. Contudo, a atenção aos símbolos, ao contexto político e ao modo como tal aproximação foi feita mostra as grandes discrepâncias entre como os governos citados conceberam as relações com a potência – e seu lugar no plano mais geral da Política Exterior brasileira.

Spektor (2014, p. 39) narra que ao encontrar Lula pela primeira vez no Salão Oval, em 2002, Bush mostrou-se intrigado com o fato do então presidente eleito usar um broche com uma estrela vermelha, o símbolo do PT, em sua lapela. O uso do broche provavelmente foi calculado: tratava-se de um governo que precisava encontrar um equilíbrio entre adaptar-se aos constrangimentos dos contextos nacional e internacional e, ao mesmo tempo, cumprir as promessas sobre políticas redistributivas que o levaram à presidência. Lula precisava adaptar-se, mas também responder à sua base eleitoral e ao seu partido político, que se constituiu como de esquerda e crítico ao Consenso de Washington. Usar um broche que ostentava as suas origens parecia interessante nesse contexto.

Por outro lado, preservar boas relações com Washington tirariam uma pressão importante de um governo que assumia a contragosto do mercado financeiro, em meio ao aumento do risco país, da inflação e da desvalorização da moeda nacional. Lula precisava mostrar-se como razoável para os agentes do mercado e as relações com Washington eram interessantes nesse sentido. Forjar relações com os líderes da potência era uma necessidade, um constrangimento para o governo do Partido dos Trabalhadores. Lula e Bush estabeleceram relações interpessoais satisfatórias, apesar da política exterior autodenominada “altiva e ativa” e da diversificação de parcerias que Celso Amorim buscou adotar no Itamaraty (AMORIM, 2015).

Já com relação a Bolsonaro, as manchetes do dia 29 de novembro mostravam que o presidente-eleito bateu continência ao conselheiro do presidente estadunidense, em ato que não teve reciprocidade (DOLZAN, 2018). Seu filho, enquanto na capital estadunidense, deixou-se fotografar com um boné do material preparado para a campanha presidencial que poderá levar Trump à reeleição em de 2020 (BULLA, 2018). Esses episódios mostram que o presidente eleito não parece se importar em parecer subordinado à potência.

Ao contrário, instrumentaliza as relações com os EUA para legitimar-se como um líder secundário da extrema direita antiglobalização que ascende no plano global. O governo em formação cita a Itália e a Hungria – outros países liderados pela extrema direita – como parceiros essenciais. Assim, ao contrário de 2003, quando a transição foi marcada pela combinação de um governo de esquerda no Brasil e um governo conservador em Washington, agora há convergência ideológica entre os líderes de ambos os países. Nesse contexto, Bolsonaro parece buscar a reedição de uma “aliança especial” com Washington, na qual as relações com a potência tornam-se estruturantes da estratégia de Política Exterior (LIMA, 1994).

Contudo, a história recente mostra que os momentos de intensa parceria com os EUA foram efêmeros. De acordo com Spektor (2014, p. 250), desde a redemocratização, “todos os governos” do Brasil tiveram desilusões com Washington e “começaram com mais interlocução na Casa Branca do que tinham ao fim dos respectivos mandatos”. As desilusões com a capital estadunidense não são exclusivas desde período, também estiveram presentes ao longo do tempo, especialmente após a Segunda Guerra Mundial e a consolidação da industrialização brasileira, quando o país passou a buscar formas de desenvolvimento econômico e modernização militar nem sempre apoiadas pelo Norte, levando a dificuldades e interesses divergentes (BANDEIRA, 1989).

Os anos de 1964 e 1990 merecem ser citados como momentos em que estratégias de promoção da “aliança especial” foram iniciadas. Castelo Branco buscou alinhamento com os EUA, porém, ao longo do regime autoritário as relações tornaram-se cada vez mais difíceis, apesar da proximidade no combate ao comunismo. Já em 1990, a imposição de rápidas reformas econômicas apoiadas por Washington – entre outros aspectos – levaram o governo a perder popularidade e, eventualmente, a renunciar em meio à abertura de um processo de impeachment. Os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso acabaram por colocar limites à “aliança especial”. Tendo em vista esse histórico, restam mais dúvidas que certezas sobre o futuro das relações Brasil-Estados Unidos. A questão se torna ainda mais complexa em razão do recente aprofundamento das relações com a China, que se tornou o primeiro parceiro comercial do Brasil e que passa gradualmente a ser percebida como um adversário por Washington.

Apenas a vontade política não é suficiente para mudar o curso da história e as dificuldades no relacionamento com os EUA não foram impostas apenas por decisões governamentais, mas também por cálculos estratégicos e pressões de grupos econômicos. Assim, as relações bilaterais dependerão não apenas de como Washington reagirá à súplica brasileira, mas também de como as disputas políticas internas ocorrerão no interior do novo governo.

De qualquer forma, há um sentido racional nas ações de Bolsonaro em buscar aproximar-se de Trump. Afinal, um mundo no qual fosse outro o presidente dos EUA, um defensor do sistema multilateral e da ordem internacional liberal, tornaria mais difícil a situação de um líder que nega o aquecimento global e não demonstra comprometimento com a defesa dos direitos humanos. Para Bolsonaro, é vital aproximar-se da extrema direita global e, dessa forma, evitar o isolamento que se imporia em outro contexto da política internacional.

Referências
AMORIM, C. Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva. São Pualo: Benvirá, 2015.
BANDEIRA, L. A. M. Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente (1950-1988). 1a edição ed. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1989.
DOLZAN, M. Bolsonaro presta continência para assessor de Segurança Nacional de Trump [online]. O Estado de S. Paulo. 29 de novembro de 2018. Disponível em https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-se-reune-com-assessor-de-seguranca-nacional-de-trump,70002626247. Acesso em 8 de dezembro de 2018.
BULLA, B. ‘A questão não é se, é quando’, diz Eduardo Bolsonaro sobre mudar embaixada para Jerusalém [online]. O Estado de S. Paulo. 27 de novembro de 2018. Disponível em https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,a-questao-nao-e-se-e-quando-diz-eduardo-bolsonaro-sobre-mudar-embaixada-para-jerusalem,70002624012. Acesso em 8 de dezembro de 2018.
LIMA, M. R. S. DE. Ejes Analíticos y Conflicto de Paradigmas en la Política Exterior Brasileña. América Latina/internacional, v. 1, n. 2, p. 27–46, 1994.

SPEKTOR, M. 18 Dias. Quando Lula e FHC se reuniram para conquistar o apoio de Bush. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

Sobre a autora

Lívia Pere Milani é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas – Unesp/ Unicamp/ Puc-SP.

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria Mundorama, "As relações com os EUA no âmbito do processo de transição de governo no Brasil, por Lívia Milani," in Revista Mundorama, 13/12/2018, https://mundorama.net/?p=25000.

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