Política Internacional

Fórum Social Mundial e Fórum Econômico de Davos, dois atores intermitentes no cenário das RI contemporâneas, por Murilo Vilarinho

A nova configuração das relações internacionais, no mundo hodierno, tem sido respaldada pela emergência de significantes arquiteturas institucionais e não institucionais de poder (Organizações governamentais e não governamentais, redes, coalizões) que colocam em xeque, em alguma medida, o espaço da governança global (ROSENAU, 2000), gerido, tradicionalmente, pelo ator estatal de natureza westfaliana e organismos eclipsados por esse.

Na política internacional, o Fórum Social Mundial (FSM) pode ser entendido como um exemplo dessa contraposição, além de ser ator que representa não apenas a sociedade civil organizada internacionalizada, mas também a conformação de um espaço em que democracia, bem como discussões de ideias, contrapõe, na cena mundial, os ditames do neoliberalismo e os impactos indesejados de mercados transnacionais e da governabilidade oriunda do sistema econômico e financeiro mundiais.

Evidentemente, a relação de atores como o FSM com a sociedade internacional não, necessariamente, é de comodismo, mas impulsionada pelo dinamismo político virtual por meio do qual economia, sociedade, cultura, capital privado, política se tornam aspectos a serem dialogados e criticados, ações que visam, em teoria, a salvaguardar formulações de alternativas em conjunto que possam, em última instância, produzir alguma ação à distância (HELD, 1997).

Desde que foi criado em 2001, sediado, pioneiramente, em Porto Alegre, e transpassado as fronteiras nacionais, tornando-se espaço mundial, o FSM tem-se apresentado como local de proposições para o estabelecimento de uma sociedade planetária que se opõe ao imperialismo. Neste ano, ele voltará a ocorrer no Brasil, na Bahia, em março, tendo como lema a perspectiva “Resistir é criar, resistir é transformar” (FSM, 2018), o que significa uma empreitada interessante, principalmente, em face do Fórum Social Econômico, o qual, no início do ano de 2018, acolhido em Davos, na Suíça, uma vez mais deixou entrever seu papel de anfitrião do neoliberalismo.

O Fórum Econômico Mundial de Davos é espaço em que o neoliberalismo é proclamado. Em sua 48 edição, esse

(…) aims to rededicate leaders from all walks of life to developing a shared narrative to improve the state of the world. The programme, initiatives and projects of the meeting are focused on Creating a Shared Future in a Fractured World. By coming together at the start of the year, we can shape the future by joining this unparalleled global effort in co-design, co-creation and collaboration. The programme’s depth and breadth make it a true summit of summits. (FEM, 2018).

Porta-voz de líderes empresariais, banqueiros, políticos, intelectuais, ricos e poderosos, o FEM, idealizado por Klaus Schwab, objetiva discutir agendas nas quais se priorizam problemas ambientais, conflitos internacionais, pobreza (THE ECONOMIST, 2018). Em resumo, apesar de o Fórum possibilitar a discussão desses temas e formular relatórios que auxiliarão os países a balizarem suas propostas de administração e política exterior, esse, bem como o G-7, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, é criticado pelos movimentos antiglobalização, dos quais o FSM é um dos mais expressivos.

O FEM, neste ano, reuniu significantes chefes de Estado e de Governo, por exemplo, a chanceler alemã Angela Merkel, o Primeiro-Ministro italiano Gentiloni, o Primeiro –Ministro canadense Trudeau, o Presidente americano Trump, oo indiano Narendra Modi, o francês Macron, o brasileiro Temer, os quais discursaram sobre temas econômicos, integração, futuro econômico europeu, questões domésticas.

Em tempos de tanta incerteza política internacional, considerando-se os reflexos nocivos do Brexit para União Europeia; a política externa, quase que avessa aos ideais democráticos, de Trump, baseada em uma diplomacia instável e arrefecedora e em um posicionamento protecionista; o desejo de desenvolvimento de uma política externa europeia comum, mais ativa e desenvolvida, segundo a concepção da chanceler alemã em concordância com o pensamento de Macron, o FEM é um ambiente que merece atenção das diplomacias de todo o mundo, já que esse se apresenta como um termômetro político para estratégias políticas de médio e longo prazo.

A defesa da globalização, como aspecto fundamental para o desenvolvimento mundial; críticas ao modo de condução da administração Trump, pautada por posições isolacionistas e de antiglobalização; críticas à desigualdade social, denunciadas pela diretora da Oxfam , Winnie Byanyima perfizeram pautas de discussão entre os líderes, ativistas e ONGs.

O Brasil foi representado pelo Presidente Temer, o qual, em sessão plenária no Fórum, discursou, salientando a prosperidade do país, as oportunidades comerciais que esse resguarda, a queda do risco-país, a participação multilateral e o prestigio voltados para acordos internacionais de monta, tais como o de Paris sobre mudança climática, para a solução de controvérsias em organismos como OMC entre outros elementos; além de pontuar temas polêmicos de política doméstica, por exemplo, o dito “conserto” da Previdência Social.

Apesar de o clima ter sido de otimismo em Davos, o FSM, em março, figurará como o contraponto dos trabalhos desse. “Resistir é transformar”, perspectiva defendida, neste ano, como ponta de lança daquele movimento da sociedade civil organizada, além das questões sociais mundiais que perpassa pelos assuntos fome, pobreza, migrações, gênero, o FSM certamente buscará defender mais democracia nas sociedades, mais estabilidade governamental, desenvolvimento e cooperação planetários- aspectos que deveriam ser permeados por todas as agendas diplomáticas presentes em Davos, todavia as ditas grandes democracias parecem não contemplar, de modo auspicioso, grande parte desses intentos. FSM e FEM, indubitavelmente, podem ser considerados, enfim, dois ambientes de influência na política internacional.

Referências

BRASIL. Presidência da República. Discurso do Presidente da República, Michel Temer, durante Sessão Plenária do Fórum Econômico Mundial 2018 – Davos/Suíça

Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-planalto/discursos/discursos-do-presidente-da-republica/discurso-do-presidente-da-republica-michel-temer-durante-sessao-plenaria-do-forum-economico-mundial-2018-davos-suica. Acesso em 31 jan. 2018.

FORUM ECONÔMICO MUNDIAL. Fórum Econômico Mundial. Disponível em: https://www.weforum.org/events/world-economic-forum-annual-meeting-2018/about. Acesso em: 30 jan. 2018.

FORUM SOCIAL MUNDIAL. Fórum Social Mundial. Disponível em: https://wsf2018.org/o-fsm-2018/. Acesso em 30 jan. 2018.

HELD, David. La democracia y el orden global. Del Estado moderno al gobierno cosmopolita. Barcelona: Paidós, 1997.
ROSENAU, James N. Governanca, Ordem e Transformacao na Politica Mundial. In: Rosenau, James N. e Czempiel, Ernst-Otto. Governança sem governo: ordem e transformação na política mundial. Brasilia: Ed. Unb e Sao Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.

THE ECONOMIST. The Donald versus Davos Man. Disponível em: https://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2018/01/daily-chart-15. Acesso em: 30 jan. 2018.

Sobre o autor

Murilo Vilarinho, Doutor em Sociologia e docente na Universidade Federal de Goiás.

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria, "Fórum Social Mundial e Fórum Econômico de Davos, dois atores intermitentes no cenário das RI contemporâneas, por Murilo Vilarinho," in Revista Mundorama, 06/02/2018, https://mundorama.net/?p=24411.

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