No auge da ofensiva da organização terrorista Estado Islâmico (EI ou Daesh), em meados de 2015, para a derrubada do governo do presidente Bashar al-Assad, na Síria, e a ocupação de partes do território iraquiano, via promoção e expansão de conflitos sectários, alguns dos principais serviços de inteligência do mundo consistentemente estimavam suas forças combatentes em até 80 mil homens, dos quais 30 mil seriam estrangeiros. Dentre esses últimos, alguns dos principais contingentes seriam originários de Tunísia, China, Rússia, Arábia Saudita, Turquia, Jordânia, França, Reino Unido, Alemanha e Bélgica.

Em seus esforços para instaurar um califado que abrangeria os territórios de Iraque, Síria e Líbano em uma primeira fase, expandindo-se para Jordânia e, eventualmente, Israel em um segundo momento, o Daesh logrou obter o controle de cidades estratégicas no Iraque, como Mossul – a segunda maior do país –, Ramadi e Fallujah, e na Síria, tais como Raqqa, a capital de facto do Califado, Palmira e Dabiq. Esta última, embora de reduzida importância estratégica, reveste-se de grande significado simbólico, por se tratar, de acordo com interpretações de tradições e profecias islâmicas, do local onde os “exércitos de Roma e de Jerusalém” seriam finalmente derrotados pelas forças do Islã. Não por acaso a revista eletrônica online do grupo, publicada em inglês e utilizada como instrumento de propaganda e cooptação, é intitulada Dabiq. Estima-se que, então, cerca de 10 milhões de pessoas viviam em áreas controladas pelo EI, de tamanho equivalente ao do Reino Unido.

Todavia, sistemáticas derrotas militares do grupo nos conflitos civis na Síria e no Iraque resultaram em importantes perdas territoriais, fazendo com que, dentre as anteriormente mencionadas, apenas as cidades de Mossul e Raqqa ainda permaneçam sobre controle do Daesh. Da mesma forma, os seguidos revezes têm causado a desorganização da estrutura logística do grupo e reduzido seu orçamento operacional em até 50%.

Dessa forma, embora uma vitória definitiva das forças de oposição ao EI – sejam as capitaneadas pelas tropas sírias, com auxílio de militares russos e iranianos, bem como de elementos do movimento libanês Hizballah, sejam as lideradas pelos Estados Unidos em conjunto com um amálgama de agrupamentos rebeldes dito “moderados” – ainda não se afigure visível, não será irrazoável afirmar que o fim dos projetos de implantação de um Califado nos  moldes pretendidos pelo Daesh se avizinha de forma clara.

Em cenário de possível dispersão das atividades do EI, torna-se necessário analisar eventuais opções estratégicas que podem vir a ser adotadas –muitas já estão, de fato, sendo implementadas – por esses jihadistas, os quais, grosso modo, podem ser agrupados em quatro categorias distintas. A primeira diz respeito aos indivíduos supostamente pertencentes ao núcleo duro da organização, ligados diretamente a Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Daesh, ou às unidades vinculadas a seus principais comandantes. Esses elementos deverão permanecer em território sírio e iraquiano. Entretanto, em lugar de utilizarem confrontação militar direta, deverão optar pelo recurso a técnicas de guerrilha, incluindo emboscadas, ataques suicidas e raides esporádicos contra alvos considerados estratégicos, buscando se estabelecer em áreas ainda não sob o controle total de Damasco ou Bagdá, enquanto recuperam sua capacidade operacional e logística e promovem seu rearmamento.

O segundo grupo está relacionado àqueles militantes que atuam na periferia do “núcleo duro”. Esses indivíduos podem perceber o declínio do EI como sendo de difícil reversão, situação que poderá levá-los a desertar das fileiras do grupo e buscar abrigo em outras organizações terroristas, aparentadas ideologicamente, atuando na região, como a Jabhat Fateh al-Sham (antiga Frente al-Nusra) e  Ahrar al-Sham. Esta última, também conhecida como Harakat Ahrar al-Sham al-Islamiyya, ou Movimento Islâmico dos Homens Livres do Levante, já é em si uma coalizão pouco consistente de diversos movimentos salafistas. Não se deve descartar, ainda, a hipótese mais extrema de que alguns desses militantes busquem alguma forma de aproximação com a al-Qaeda.

Embora esses dois grupos desposem certos valores comuns, como a oposição ideológica ao Ocidente e o recurso a uma narrativa extremista, divergem frontalmente quanto à sua abordagem relativa ao uso da violência – em termos de intensidade, natureza e legitimidade de alvos –, quanto aos instrumentos e meios para capitalizar sentimentos antiocidentais e mesmo quanto aos fins últimos dessas organizações. Nesse sentido, a formação de um califado islâmico nunca foi um objetivo declarado da al-Qaeda. Ao contrário, suas ações subterrâneas sempre foram voltadas para a captação do maior número possível de seguidores, a fim de formar um movimento global islâmico que levasse a Jihad a solos ocidentais, porém poupando os povos e países do Oriente Médio. Embora essas variáveis configurem fissura cuja transposição não se dará facilmente, certos radicais que porventura desertarem do Daesh podem considerar que a filiação à rede criada por bin Laden permanece como única opção para continuar sua luta.

A terceira categoria concerne aos mercenários estrangeiros que se encontram proibidos de retornar a suas pátrias. Essencialmente mais instáveis e com menos vínculos locais, mas comprometidos com o ideal do califado ou da expansão da luta islâmica, esses insurgentes costumam vagar por regiões afligidas por conflitos étnico-tribais e/ou sectário-religiosos para alugar seus serviços a senhores da guerra. Grosso modo, são esses mujahidins transnacionais que têm atuado nos diversos conflitos que se estendem da Líbia à Chechênia. Nesse sentido, não existem dúvidas de que grupos vinculados ao Estado Islâmico, de forma organizacional ou ideológica, teriam interesse em contar com a experiência desses combatentes para espalhar o terror, possivelmente redirecionando suas atividades para o norte da África, incluindo-se aí o Egito, para a região do Sahel e, como recentes atentados demonstram, até para o Irã.

A última categoria diz respeito aos “repatriados” ou “retornados”, que representam não apenas a pior ameaça para a comunidade internacional, mas também o mais complexo desafio para organismos antiterroristas. Operando sob o comando das lideranças restantes do EI, Esses elementos buscarão retornar a seus países de origem, de forma a atuar como células adormecidas e agentes de cooptação, proselitismo e radicalização. Serviriam, ademais, como plataformas avançadas para a realização de ações terroristas, seja na modalidade “lobo solitário”, a mais provável, seja por meio da formação de pequenas unidades extremistas operacionais. Os ataques registrados na Europa desde 2015 (Paris, Bruxelas, Nice, Munique, Manchester e Londres, dentre outros) seguem esse roteiro de forma evidente. Essa tendência deverá se acentuar de forma inversamente proporcional ao declínio do Daesh na Síria e Iraque.

Enquanto a Europa permanece dividida em torno de questões relacionadas a temas como desglobalização e ascensão aqui e ali de governos de corte nacionalista/conservador, bem como os debates em torno do Brexit, o combate ao terrorismo permanece periférico e só ganha relevância quando algum ato extremista é cometido. Nesse meio tempo, militantes jihadistas se aproveitam dessa reatividade e rumam a seus países de origem determinados a cometer atentados que colocarão as sociedades ocidentais em estado de permanente insegurança.

Autor

Marcos Degaut, 46, é Doutor em Segurança Internacional e Pesquisador  na University of Central Florida (EUA), além de ter publicado dois livros sobre terrorismo internacional.

Como citar

Cite this article as: Editoria Mundorama, "Estado Islâmico e o Conflito Sírio: opções Estratégicas dos Jihadistas, por Marcos Degaut," in Revista Mundorama, 29/06/2017, https://mundorama.net/?p=23709.

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