Sem este acordo, os concorrentes que não compartilham nossos valores, como a China, decretarão as regras da economia mundial… essa foi uma afirmação feita pelo ex-presidente Barack Obama ao assinalar a importância da aprovação do Tratado Transpacífico. O tratado foi assinado por 12 países: Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura, Estados Unidos e Vietnã, que representam 40% da economia mundial e um terço do comércio global.

Nesta segunda-feira dia 23.01.2017 o atual presidente dos Estados Unidos, D. Trump assinou uma ordem executiva para a retirada do país do Tratado de Associação Transpacífico. Segundo Trump, o Tratado seria prejudicial aos trabalhadores estadunidenses. Este gesto possui, evidentemente, implicações geopolíticas, talvez a principal delas seja o predomínio econômico da China na Bacia do Pacífico, isto devido ao recuo dos EUA. O ex-presidente Obama considerava a região do Pacífico estratégicamente prioritária para as a manutenção da hegemonia economica e militar dos EUA.

O governo da China afirmou que pretende, o mais rápido possível, concluir um acordo de livre-comércio com os países asiáticos. Esta é uma tentativa do governo chinês ampliar sua influência regional, frente à saída dos EUA da Parceria Transpacífico (TPP) . Os líderes asiáticos entraram em conversações para avançar no diálogo para a formação de uma Parceria Econômica Abrangente Regional, envolve, pelo menos, dez países. A China defende essa iniciativa como uma alternativa para o acordo liderado pelos EUA e espera que essas negociações possam atingir resultados rápidos. (China busca fechar acordo de comércio na Ásia, enquanto EUA podem recuar. Isto É – Dinheiro 22.11.2016). A retirada dos EUA da parceria transpacífica representa para muitos países uma vitória da China. O professor de Economia Zou Zhengfang, da Universidade Renmim, disse que o quadro representa uma boa oportunidade para Pequim conseguir mais poder na arena global, a partir da economia, “e ganhar uma voz maior”. (China busca fechar acordo de comércio na Ásia, enquanto EUA podem recuar. Isto É – Dinheiro 22.11.2016).

Dentro da estratégia chinesa, torna-se essencial um papel mais ativo de sua moeda chamada reinmimbi nas transações de financiamento (seja de obras de infraestrutura ou de indústrias) promovidas, geralmente, pelo sistema bancário chinês, sobretudo a ambição de suplantar o dólar como moeda padrão em um futuro não muito distante, o que ocorreria através da chamada diplomacia do reinmimbi. Esta inserção da moeda chinesa seria também ampliada no Banco dos BRICS, banco formado pelos países que compõem esta aliança como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e que possui como foco o financiamento de projetos de infra-estrutura em todo o mundo.

A Diplomacia do Reinminbi

As teses de substituição do dólar como lastro pela moeda chinesa, o Reinminbi,   carecem de uma mínima verificação, pois nos permite questionar se a China terá condições em curto ou médio prazo de suprimir o dólar como padrão monetário e financeiro internacional e impor sua moeda. As perspectivas do sistema financeiro internacional das próximas décadas fazem pensar ou perguntar se o yuan não se tornará a moeda padrão, lastro, substituindo o dólar nas transações comerciais. No entanto, hoje, podemos afirmar que a pergunta é pertinente e merece um esforço mínimo para respondermos se existe ou não esta possibilidade a partir do quadro econômico-financeiro conjuntural.

Os chineses desenvolvem a estratégia de controle e direcionamento de crédito doméstico ofertados por bancos como o Bank of China. Os principais tomadores são as empresas públicas, semi-privadas que possuem a implementação de projetos produtivos e infraestrutura: aeroportos, ferrovia, mobilidade urbana. Faz parte dessa estratégia rígidos controles do sistema financeiro, grandes volumes de depósitos e poupança. As exportações chinesas, por exemplo, saltaram de 19,9 bilhões de dólares em 1980 para 1,9 trilhões de dólares em 2011. O estoque de investimento estrangeiro em 1980 era de 57 milhões de dólares e em 2011, 124 bilhões de dólares. Se o Renminbi fosse utilizado de maneira mais ampla nas transações internacionais, a China não precisaria manter reservas em moeda estrangeira para ajustar seu balanço de pagamento. As instituições chinesas de financiamento do comércio exterior estão promovendo o Renmimbi, moeda referência na celebração de contratos. Instituições como EXIMBANK da China ampliam a oferta de ativos em Renmimbi, no mercado offshore em operações de empréstimo para investidores internacionais. Desta forma, a China amplia a utilização do Renminbi para além de suas fronteiras.

O desejo da China é de se tornar uma potência econômica mundial, estabelecendo um contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional. A expansão da economia chinesa nos primeiros anos do novo século foi responsável por 25% de todo o crescimento econômico global. (CARMODY & UWUSU, 2011, p. 244)

Comércio ChinaÁfrica – América Latina         

A China tem avançado rumo à Africa. O comércio entre China e Africa entre 2000 e 2005 triplicou. No biênio 2003-2004, as importações chinesas oriundas da África cresceram espantosos 87%. Mais de 60% das exportações de madeira africana foram destinadas ao Leste da Ásia, e 25% dos suprimentos de petróleo da China vieram do Golfo da Guiné. A China já é, desde 2005, o segundo parceiro comercial da África (o primeiro são os EUA). A China se tornou a principal nação exportadora para a África desde 2007. (CARMODY & UWUSU, 2011, p. 244).

A geoestratégia econômica da China na África consiste em:  garantia de acesso aos recursos naturais como petróleo e gás natural, a internacionalização das empresas multinacionais chinesas, abertura de novos mercados externos para absorver a produção industrial chinesa; expansão e aprimoramento da agricultura africana para prover a zona urbana chinesa em expansão, aumento do know-how dos trabalhadores chineses sobre o mercado africano. (CARMODY & UWUSU, 2011, p. 244).

Nos anos 90 a China aprimorou sua pauta de exportações de manufaturados, sobretudo mudou o perfil das exportações industriais, antes concentradas em produtos de baixo valor agregado – como têxtil e confecções –, para uma gama cada vez mais diversificada de bens de consumo e de capital, que passaram a representar mais de 50% das exportações industriais chinesas. Tanto a África quanto a América Latina tem recebido investimentos chineses. A América do Sul e Central respondem por 25% dos produtos agrícolas consumidos pela China e por 13% dos produtos minerais, incluindo combustíveis. No caso da África, respectivamente 2,3% e 16,1%. Em outras palavras, quase um terço dos produtos agrícolas e minerais – inclusive combustíveis – importados pela China originam-se destas duas regiões. (BARBOSA, 2011, P. 287).

O grande problema destas relações comerciais entre China, Africa e América Latina é que os chineses são os grandes exportadores de produtos manufaturados. Entre 2000 e 2008, as exportações latino-americanas multiplicam-se por 10,8, enquanto as importações oriundas da China ampliam-se em 10 vezes. Porém esta taxa de crescimento não se manteve constante e de forma linear por muito tempo. O boom de commodities proporcionou um crescimento explosivo entre 2000 e 2005, de 45% a.a., mas entre 2005 e 2008 declinou para 18%. (BARBOSA, 2011, P. 278).

Os principais produtos latino-americanos exportados para a China são minérios (cobre, ferro e níquel), combustíveis (petróleo) e alimentos (soja, farinha de peixe e pescados) ou matérias-primas industriais (lã, couro e celulose). No entanto, a importação latino-americana está concentrada em produtos primários que representam 72% das vendas da região para a China, ao passo que outros 15,8% são manufaturas intensivas em recursos naturais. Do lado chinês para a região, o cenário apresenta-se invertido: 98% das vendas externas chinesas são de produtos industrializados, sendo que 68% do total se encaixam na categoria de alta e média tecnologia e 20% na de baixa tecnologia.(BARBOSA, 2011, P. 282)

Países como Chile e Peru aumentaram o comércio de commodities com a China, no entanto, esses países ainda tem os EUA como o principal mercado e o mesmo acontece com Colômbia, México, Equador e Uruguai.  Brasil e Argentina aumentaram seu comércio com a China, em termos absolutos e relativos na última década. (BARBOSA, 2011, P. 285).

A China, atualmente está financiando a contrução da Ferrovia Transoceânica que ligará o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. Ligará o Porto de Santos, passando por São Paulo, Goiás, Mato Grosso e terminando no Peru. A previsão para seu início é 2022 e contará com investimento brasileiro da ordem de R$ 40 bilhões. A estimativa foi anunciada pelo embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, junto com o governo de Mato Grosso. (Canal Rural, 2016)

A faixa do território brasileiro percorrida pela Ferrovia Transoceânica é de aproximadamente 4.400km de extensão. O ponto inicial é Porto Açu–RJ até Boqueirão da Esperança –AC. A ferrovia continua em território peruano até o Oceano Pacífico. A ferrovia passará por Estados da Federação como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rondônia, Acre e tem como objetivo oficial:

  1. Estabelecer alternativas mais econômicas para os fluxos de carga de longa distância;
  2. Favorecer a multimodalidade;
  3. Interligar a malha ferroviária brasileira;
  4. Propor nova alternativa logística para o escoamento da produção agrícola e de mineração para os sistemas portuários do Norte e Nordeste; e
  5. Incentivar investimentos, que irão incrementar a produção e induzir processos produtivos modernos.

(Disponível em: http://www.valec.gov.br/acoes_programas/FerroviaTranscontinental.php Extraído em 23.01.2017).

A construção da ferrovia deve começar em 2022 e contará com investimentos da ordem aproximadamente 40 bilhões. Essa estimativa foi anunciada pelo embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang com o governo de Mato Grosso. (Disponível em: http://www.canalrural.com.br/noticias/rural-noticias/construcao-ferrovia-transcontinental-deve-comecar-2022-56975 extraído em: 23.01.2017).

Um protocolo de intenções de construção da Ferrovia Transoceânica foi assinado em Ji-Paraná (RO), no dia 08.02.2016, pelo governador de Mato Grosso, Pedro Taques, do Acre, Tião Viana, e de Rondônia, Confúcio Moura. A cerimônia também contou com a presença do embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, e um grupo de 23 empresários chineses. A ferrovia seria uma alternativa ao Canal do panamá que está sobre influência dos EUA. Os investimentos na ferrovia estão calculados em torno de 30 bilhões. Em 2014, a China importou de Mato Grosso produtos no valor de US$ 4,9 bilhões, sendo que US$ 4,6 bilhões foram destinados à importação de soja, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). (AMORIM. 2017)

Em 2015, a China mencionou um investimento de mais de 250 milhões de dólares em obras de infraestrutura na América Latina. É conhecida a parceria sino-brasileira na contrução dos satélites CBRS. Satélites avançados de sensoriamento remoto, chamado Programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) envolveu inicialmente investimentos superiores a US$ 300 milhões, com responsabilidades divididas (30% brasileiro e 70% chinês) que resultou no programa CBERS. ,   É cada vez mais presente no país a presença de empresas chinesas, como as empresas de tecnologia LE NOVO, automobilisticas como JAC MOTORS, LIFAN, KASINSKY e CHERRY. As empresas brasileiras presentes na China são: Aços Villares, Atlas, Banco do Brasil, Banco Itaú BBA, BEC Limited, Caloi, Embraer, Grupo Estado de S. Paulo, Marfrig, Marcopolo, Odebrecht, TAM, Tramontina, TV Bandeirantes, Votorantim, Vale, Riachuelo, Schulz, Petrobrás, Ab Inbev.

Considerações finais

A projeção chinesa na Ásia, África e América Latina demonstra a capacidade de investimentos da China na periferia, sobretudo a exportação de produtos manufaturados e de tecnologia e importação de commodities. Este fato é importante, pois permite a obtenção de matérias primas para a sua consequente agregação de valor a partir da exportação de produtos industrializados. Este fato poderá ser muito importante em uma possível mudança do padrão dólar para o padrão renminbi nas transações monetárias e financeiras. No momento, a China possui uma relevância maior como país que empresta, que possui o maior mercado consumidor do mundo, o país que ocupa um assento permanente no conselho de segurança da ONU, o segundo maior parceiro comercial da África, o maior parceiro comercial do Brasil. A emergência da China, assim como dos BRICS, G-20, torna-se obrigatória uma reforma nos órgãos de gestão do sistema monetário e financeiro que inclua os países emergentes, dentre eles; Brasil e China.

Bibliografia

A construção da ferrovia transcontinental deve começar em 2022: In. Canal Rural – Leia mais no link http://www.canalrural.com.br/noticias/rural-noticias/construcao-ferrovia-transcontinental-deve-comecar-2022-56975 Extraído em 23.01.2017

AMORIM. Paulo Henrique, Ferrovia Transoceânica dá outro passo. Disponível em: https://www.conversaafiada.com.br/economia/ferrovia-transoceanica-da-outro-passo Extraído em 23.01.2017

BARBOSA. Alexandre de Freitas, China e América Latina na nova divisão internacional do Trabalho. In: A China na nova configuração global : impactos políticos e econômicos / organizadores: Rodrigo Pimentel Ferreira Leão, Eduardo Costa Pinto, Luciana Acioly.- Brasília : Ipea, 2011.

CARMODY. Padraig., OWUSU. Francis, A expansão da China para a África: interesses e estratégias. In: A China na nova configuração global : impactos políticos e econômicos / organizadores: Rodrigo Pimentel Ferreira Leão, Eduardo Costa Pinto, Luciana Acioly.- Brasília : Ipea, 2011.

China busca fechar acordo de comércio na Ásia, enquanto EUA podem recuar. Isto É – Dinheiro 22.11.2016. Disponível em: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20161122/china-busca-fechar-acordo-comercio-asia-enquanto-eua-podem-recuar/434547 Extraído em 23.01.2017

Ministério das Relações Exteriores: BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Disponível em http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3672&catid=159&Itemid=436&lang=pt-BR Extraído em 11.12.2016

OURIQUES. Helton Ricardo, As relações econômicas entre China e África: uma perspectiva sistêmica. In: CARTA INTERNACIONAL Vol. 9, n. 1, jan. -jun. 2014 [p. 19 a 43]

Obama diz que sem TPP China decretará regras do comércio mundial .In: G1

10/10/2015. Disponível em: http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/10/obama-diz-que-sem-tpp-china-decretara-regras-do-comercio-mundial.html Extraído em 24.01.2017

Trump assina decreto para retirar EUA de acordo com países do pacífico. In: G1 23/01/2017. Disponível em: http://g1.globo.com/economia/noticia/trump-assina-ordem-para-retirar-eua-da-parceria-transpacifico.ghtml Extraído em 24.01.2017.

Sobre o Autor

Samuel Jesus é Doutor em Ciências Sociais pela UNESP (Samueldj36@yahoo.com..br)

Como citar este artigo

Cite this article as: Editoria Mundorama, "A projeção global da China e a diplomacia do Reinminbi, por Samuel de Jesus," in Revista Mundorama, 11/02/2017, https://mundorama.net/?p=20279.

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