As ações externas do novo presidente da Argentina causaram frisson na política mundial. Em 50 dias de governo, Maurício Macri (da coalizão Cambiemos) condenou prisões políticas e invocou a cláusula democrática do MERCOSUL durante eleições legislativas na Venezuela, reabriu negociações com investidores internacionais, buscou canais de negociação com o Reino Unido na disputa pelas Malvinas/Falklands, foi protagonista no Fórum Econômico Mundial (Davos, Suíça) e anunciou uma “reaproximação” com Europa, Estados Unidos…e Brasil[i].

No cômputo geral, a investida diplomática em múltiplas frentes[ii] contrasta fortemente com a política externa insular da ex-presidenta justicialista Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015).

As novidades na Argentina provocaram ondas de euforia e pânico em doses desiguais nos vizinhos. Para o Brasil, o timing é dos piores. Confrontada com um processo de impeachment, Dilma Rousseff não foi a Davos. Em meio a denúncias de corrupção em diversos níveis de governo, a economia patina – além da queda do PIB, a inflação superou o teto da meta, aumentou o endividamento das famílias, o Real perdeu metade do seu valor e empresas como a Petrobrás viram seu valor de mercado desabar. Promessas de liderança regional permanecem apenas em discursos do passado recente. Rousseff acaba de anunciar uma redução do investimento em organismos internacionais[iii]. Subitamente, a carruagem altiva se tornou, a contragosto, abóbora.

Não surpreende que o flamante mandatário argentino busque ser visto como liderança emergente.  Mas é inusitada ver pânico quando a Argentina reconhece o Brasil como seu parceiro prioritário.

A ascensão relativa da Argentina e a queda relativa do Brasil se entrelaçam num impasse incômodo. O estágio de interligação das economias tornou realidade o velho sonho da integração regional. 25 anos após o Protocolo de Assunção, 30 anos após a reaproximação nuclear após o fim de suas ditaduras civis-militares, Brasil e Argentina são parceiros de primeira ordem.

Junto com a integração, veio interdependência assimétrica.  O Brasil absorve 46% das exportações industriais argentinas (80% das exportações automotivas). Mesmo sem seu PIB declinar, a Argentina exportou para o parceiro 27% a menos do que em 2014.  Com montadoras dando férias coletivas e fechando instalações no Brasil[iv], exportações de veículos e peças argentinas caíram 33% em 2015.

Ao invés de unir esforços para aumentar a competitividade conjunta, os dois países investem em próprias matrizes produtivas e disputam acesso a mercados externos. Sem consultas ao MERCOSUL, Rousseff assinou acordos de comércio e investimentos com China, Alemanha, Colômbia e Estados Unidos em 2015. Na Argentina, o órgão criado com capital público e privado para impulsionar as exportações sob CFK (ExportAr) cederá lugar para uma agência de atração de investimento externo direto (Agencia de Inversiones) criada a partir de um pool de ministérios[v]. Essa decisão de Macri faz parte do plano estruturado para quebrar o isolamento da gestão CFK – ao custo de dolorosas negociações com os “fundos abutres[vi]. Após a moratória técnica de 2014, investimentos externos minguaram na Argentina.  A nova Agencia despertou interesse no retorno a Davos, após 13 anos[vii].

O efeito combinado dos desequilíbrios interdependentes é massivo. Em 4 anos, o comércio Brasil-Argentina se reduziu 42%[viii] – retornando a patamares da crise mundial de 2008.

Transformações no perfil internacional dos dois países acentuaram as contradições de sua relação. O Brasil se tornou o segundo maior produtor global de alimentos e acaba de colher safra recorde (mais de 209 milhões de toneladas de grãos[ix]) mesmo numa baixa internacional das commodities. Macri se elegeu com a promessa de retomar o crescimento econômico (estagnado ao fim da gestão CFK). Suas primeiras medidas puseram fim ao câmbio artificial e desoneraram a exportação de produtos agrícolas[x]. Em 2016, a Argentina começou a exportar grãos para países emergentes como Vietnã e Coréia do Sul (mercados considerados estratégicos[xi] para o Brasil de Rousseff).

Impasses na agricultura, indústria e serviços motivaram o governo CFK a bloquear negociações do MERCOSUL com a União Europeia[xii]. Estas incluíam comercio e investimentos que poderiam vitalizar a combalida economia brasileira no governo Rousseff. O Brasil ofereceu à Argentina negociações de livre comércio para acelerar as negociações com a UE[xiii]. Macri reluta em aceitar esses termos[xiv].

O descompasso tem um alto preço. Apenas um décimo das exportações do MERCOSUL se originam de cadeias regionais de produção (peças, equipamentos, bens de capital)[xv]. A integração logística da América do Sul – pensada há 25 anos como tarefa do MERCOSUL – está nas mãos da China, na tentativa de implementar uma ferrovia transoceânica (que atravessará a Floresta Amazônica). Em negociações bilaterais complementadas pela CELAC, a China relegou ao ostracismo o MERCOSUL.

Brasil e Argentina lidarão com outra interdependência assimétrica muito em breve[xvi]. Na última década, a China passou a ser a maior parceira comercial e investidora dos membros do MERCOSUL. Em meio à desindustrialização no Brasil (declínio de 8.3% em 2015[xvii]), investimentos chineses assumiram obras de infraestrutura consideradas estratégicas no PAC II[xviii]. E empréstimos chineses compensaram a escassez de investimentos internacionais na Argentina pós-moratória[xix].

À medida que Argentina e Brasil foram se afastando, paradoxalmente, pelo incremento de sua interdependência, outros poderes regionais e mundiais ganharam oportunidades de ação. Além da China, Chile, Peru, Colômbia e México projetam sua Aliança do Pacífico rumo ao norte. E os EUA encontraram terreno fértil para propor sua Parceria Trans-Pacífica[xx] mais rápido que se imaginava.

A sintonia de palavras entre Cristina e Dilma velou muitos desequilíbrios na interdependência assimétrica. Após a cortina de fumaça, o abismo se fez visível. Hora de conversar em outros termos. O apoio pregresso de Dilma ao candidato derrotado Daniel Scioli[xxi] não ofusca as cartas na mesa.

A tentativa da Argentina de Macri se reaproximar do Brasil de Dilma é uma necessidade pragmática.

Diálogo indireto principiou durante as eleições na Venezuela. Após críticas de Macri[xxii], o Brasil se pronunciou. Via Itamaraty, defendeu inequivocamente o estado democrático de direito e a escolha soberana do eleitorado local[xxiii]. Não há mais espaço na América do Sul para golpismos e aventuras.

O momento de cada país é inquietante. Problemas complexos nos cercam. Começar a responder é um desafio que Argentina e Brasil podem encarar separados. Estatísticas e expectativas convergem para uma imagem pendular: em termos relativos, a Argentina sobe e o Brasil desce.

A densidade de nossos vínculos, entretanto, faz com que toda decisão seja sentida de lado a lado. O aumento da interdependência política e econômica nos trouxe dilemas e contradições comuns. E conversas sobre a proximidade incômoda. Assuntos não faltam: MERCOSUL, UE, Venezuela, China.

O passado tem utilidade limitada. No governo Carlos Menem (1989-2000) o Brasil era um parceiro comparativamente menor. O Brasil de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) pouco fez para ajudar uma Argentina comparativamente menor em meio ao abismo político-econômico de 2001.

Na cooperação, não há respostas prontas. Na crise, Argentina e Brasil podem redefinir sua relação.

[i] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1737861-macri-se-afasta-de-bolivarianos-e-busca-reaproximacao-com-brasil-e-eua.shtml

[ii] http://www.cfr.org/argentina/futureargentinaconversationsusanamabelmalcorra/p37519

[iii] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1738670-para-economizar-governo-vai-rever-participacao-em-orgaos-internacionais.shtml

[iv] http://oglobo.globo.com/economia/montadoras-operam-com-50-da-capacidade-menor-nivel-em-25-anos-18491592

[v] http://www.lanacion.com.ar/1869375lanzanlaagenciaquebuscarainversionesparaelpais

[vi]http://www.infomoney.com.br/bloomberg/mercados/noticia/4610032/governomacrinaoperdetempoentrajusticaparapagardivida

[vii] http://www.lanacion.com.ar/1864758mauriciomacrisobresuvisitaadavosargentinafuerecibidaconunenormeentusiasmo

[viii] http://www.ieco.clarin.com/economia/comercio-Brasil-Argentina-cayo-mitad_0_1501650092.html#cxrecs_s

[ix] http://exame.abril.com.br/economia/noticias/brasil-bate-recorde-de-colheita-de-graos-em-2015

[x] http://www.clarin.com/br/Receitaagricolaargentinomedidasgoverno_0_1502250126.html

[xi] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1730186-dilma-quer-priorizar-acordo-comercial-com-ue-oriente-medio-e-asiaticos.shtml

[xii] http://www.pagina12.com.ar/diario/economia/229200020160208.html

[xiii] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-02/brasil-vai-propor-argentina-livre-comercio-no-setor-automotivo

[xiv] http://www.lanacion.com.ar/1870238-el-gobierno-rechazara-la-pretension-de-brasil-de-liberar-el-comercio

[xv] César, G.R.C.C. “Integração da América Latina”. Jornal dos Economistas, n.319 (2016), pp.3-6.

[xvi] Gama, C.F.P.S. (2015). “A Aliança Brasil-China num Sistema Internacional em Transformação”. SRZD. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/249738

[xvii] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/02/1736192-industria-cai-83-em-2015-e-tem-pior-resultado-desde-2003.shtml

[xviii] http://brazilmodal.com.br/2015/jornalmultimodal/semcaixagovernadoresnegociamprojetosdiretamentecomasiaticos/

[xix] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/27/internacional/1451250863_783895.html

[xx] Gama, C.F.P.S. (2015). “A parceria Trans-Pacífica e os Desafios da Economia Global em Recuperação”. SRZD. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/256015

[xxi] http://www.ebc.com.br/noticias/politica/2015/10/candidato-presidencia-da-argentina-confia-em-dilma-e-na-democracia

[xxii] http://www.lanacion.com.ar/1852137-tras-la-derrota-del-chavismo-macri-no-pedira-aplicar-la-clausula-democratica-contra-venezuela

[xxiii] Ministério das Relações Exteriores do Brasil, “Nota: Inauguração da Assembleia Nacional Venezuelana”. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12819:inauguracao-da-assembleia-nacional-venezuelana&catid=42&Itemid=280&lang=pt-BR

 

Carlos Frederico Pereira da Silva Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pesquisador do BRICS Policy Center

 
 

Cite this article as: Editoria Mundorama, "Diálogos Indiretos: Argentina e Brasil redefinem uma relação em crise, por Carlos Frederico Gama," in Revista Mundorama, 26/02/2016, https://mundorama.net/?p=18403.

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