Política Internacional

A Rússia de Putin: Uma Nova Guerra Fria?, por Cristina Soreanu Pecequilo

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p style=”text-align:justify;”>Às vésperas de mais uma reunião do G8 na Alemanha em Junho de 2007, o presidente russo Vladimir Putin realizou uma série de declarações polêmicas, afirmando que a Rússia apontaria mísseis nucleares para o território europeu, visando a garantia de sua segurança nacional. Segundo Putin, esta atitude é uma resposta natural às ações norte-americanas para o desenvolvimento, construção e instalação de um escudo anti-mísseis que tornaria os EUA e seus aliados invulneráveis. Longe de ser uma novidade, tal escudo é um tema recorrente nas relações bilaterais russo-americanas desde os anos 1980 quando Ronald Reagan, então à frente da Casa Branca, anunciou a sua implementação no período final da Guerra Fria. Mas será que um antigo projeto da Guerra Fria, hoje renovado por Bush criará uma nova confrontação bipolar aos moldes da anterior?
Examinando a evolução recente as relações soviético-americanas e, hoje, russo-americanas, é possível identificar que o sistema anti-mísseis sempre foi objeto de controvérsia. Na época do seu lançamento, ao lado das crises sócio-político-econômicas enfrentadas pela antiga URSS, este escudo, conhecido como Iniciativa de Defesa Estratégica (IDE), o Guerra nas Estrelas, funcionou como uma importante fonte de pressão na aceleração da queda do regime. Em termos militares e tecnológicos, não só o IDE parecia oferecer invulnerabilidade, como revelava a incapacidade soviética em competir e responder aos EUA. Política e estrategicamente, o IDE igualmente tinha impactos, revelando a quebra de compromissos diplomáticos no campo do desarmamento, em especial do Tratado Mísseis Balísticos (ABM Treaty) através do qual as duas superpotências se comprometiam a não desenvolver sistemas de proteção.
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p style=”text-align:justify;”>Apesar dos estudos desenvolvidos naquele momento, o IDE não foi implementado, havendo, posteriormente o fim da Guerra Fria em 1989 e da ameaça soviética, o que levou a seu relativo abandono. Por mais de uma década, o escudo ficou em compasso de espera, com os governos de Bush pai e Clinton não o priorizando. Ambas as administrações, em particular a de Clinton, promoveram um repensar nas prioridades e investimentos no setor de Defesa, e no perfil da política externa, favorecendo temas de engajamento político-econômicos, o multilateralismo das OIGs e o intercâmbio com potências regionais. Rússia, Índia, China, as nações da UE, passaram a ser definidas como parceiras estratégicas, reduzindo o nível de tensionamento. A Rússia, pós-desmontagem da URSS em 1991, possuiu um baixo perfil externo, o que também minimizou seu nível de ameaça.
Na realidade, de 1989 a 1999, a Rússia sofreu um período de significativo encolhimento econômico e estratégico. Mergulhada em uma crise sem precedentes, a Rússia sob o comando de Gorbachev e depois Yeltsin perdeu em grande parte o capital político-econômico e estratégico acumulado nos anos anteriores o que levou a um considerável declínio. Durante este período, o país apresentou um alinhamento automático ao ocidente, aderindo às reformas neoliberais em meio a uma transição fragmentada do socialismo ao capitalismo. A desmontagem do Estado russo e o vácuo de poder provocaram uma acelerada queda de padrões de vida e influência política no país, que passou a ser dominado pelo crime organizado e máfias.
Frente a esta realidade, duas correntes se desenvolviam nos EUA a respeito do que seria a política para a Rússia no pós-Guerra Fria, a otimista e a tradicionalista. A partir de uma percepção de fraqueza da Rússia, a primeira pregava a necessidade de apoio à nascente democracia de Yeltsin (a despeito dos seus escândalos de corrupção e falta de comando) e o engajamento russo ao sistema, estando incluída a participação no G7, hoje G8, e a posterior na OMC. No extremo, alguns pediam pela inclusão da Rússia à OTAN reformada, o que se consubstanciou na criação de fóruns de contatos bilaterais Rússia-OTAN e conversações diplomáticas de alto nível.
Enquanto isso, a segunda vertente, a dos tradicionalistas, argumentava que a “Nova Rússia” do pós-Guerra Fria ainda não emergira e era preciso continuar a considerá-la como um risco. Duas visões emergiam: a realista clássica de contenção e a neoconservadora que previa o enfrentamento. Ambas temiam as consequências das instabilidades político-econômicas da Rússia, seu poder residual (e revisionista) no entorno do antigo império, que atravessava regiões européias e asiáticas, fundamentais estrategicamente, e sua influência nas OIGs. Com a saída de Clinton do poder, estas visões prevaleceram, com a segunda interpretação crescendo em importância.
Além disso, a ascensão de Putin ao poder, na esteira de Yeltsin que lhe transferiu o cargo em 1999, sendo depois eleito popularmente em 2000 e reeleito em 2004, pareceu confirmar esta análise. Logo que assumiu, Putin, antigo membro da KGB “limpou” a agenda Yeltsin e deu início a um processo de recuperação do Estado russo que, desde então, tem oferecido um contraponto estratégico aos EUA na Eurásia e nas OIGs, principalmente no Conselho de Segurança da ONU. A questão da Guerra de Kosovo em 1999 na qual a Rússia manifestou-se contrariamente à autonomia e soberania desta província da Sérvia e sua oposição à operação militar da OTAN podem ser identificados como movimentos iniciais desta assertividade. Internamente, a prioridade foi a citada reconstrução do Estado, administrando suas fraturas internas e fazendo uso de vantagens comparativas como as exportações de petróleo e gás.
Ainda em 1999, a Rússia manifestou-se contrariamente à primeira onda de expansão da OTAN ao Leste Europeu, apesar dos contatos bilaterais de alto nível na organização mencionados, ação que se repetiu em 2002 na segunda onda. Segundo a diplomacia dos EUA, este movimento ao leste da OTAN, assim como o da UE, é apenas um reconhecimento ao progresso dos países em suas reformas, fortalecendo a democracia e o livre mercado, não excluindo a Rússia.
A instalação do sistema de defesa anti-mísseis em território europeu, oferecido aos antigos e novos membros da OTAN, também faz parte desta ação, argumentando que o mesmo possui um caráter diferente do que aquele surgido no governo Reagan. A ameaça hoje não seria a Rússia, ou a China, mas sim as pequenas nações bandidas e falidas que ameaçam a segurança internacional por conta de seu investimento indiscriminado em armas de destruição em massa (Irã e Coréia do Norte). Na visão russa, contudo, estas iniciativas são mais um projeto de estrangulamento e pressão de suas fronteiras, do que uma inclusão ao núcleo das democracias.
Em resposta, houve o fortalecimento das ações no entorno e a procura de parcerias mais efetivas na Ásia, na qual se enquadram os intercâmbios energéticos, tecnológicos e estratégicos com Irã e China, e a tentativa de retomar influência na Ásia Central. Em 2001, esta preocupação acentuou-se com o neoconservadorismo de Bush e a Guerra anti-terror no Afeganistão e no Iraque, que tem servido de ponte para a instalação de bases militares norte-americanas, reforçando a atuação de empresas anglo-americanas do setor energético. Mais ainda, existe a preocupação com a instabilidade gerada por estas ações norte-americanas, que podem favorecer movimentos separatistas dentro do país.
Diante deste desafio, paradoxalmente, a Rússia apóia a guerra unilateral contra o terror à medida que pode aplicar seus métodos a suas dificuldades (Chechênia, fundamentalismo islâmico). Ao mesmo tempo, teme suas consequências caso possa gerar a consolidação da presença dos EUA na Eurásia (o que, por enquanto, não aconteceu).
Ou seja, as presentes preocupações de Putin, e suas declarações, vão muito além do escudo anti-mísseis, residindo no papel internacional da Rússia no século XXI e em suas possibilidades e limitações. Mesmo com seus progressos recentes, e seu poder residual, a Rússia não possui hoje quaisquer condições de oferecer um desafio sistêmico similar ao da Guerra Fria aos EUA, seja em nível individual ou em parceria com outras nações, ainda que estas alianças possam vir a converter-se no futuro em ensaios de coalizão anti-hegemônica. E, novamente, destacam-se as parcerias com China e Irã, e igualmente, os intercâmbios com os emergentes Brasil, Índia e África do Sul. Também não se deve desconsiderar os potenciais de parceria econômica e energética entre a Rússia e a Europa Ocidental que, diferente da Oriental, tem enfrentando tensões com os EUA. Na realidade, não só Putin manifestou-se contra o escudo, mas igualmente os aliados transatlânticos que temiam a retomada da corrida armamentista.
A suposta nova Guerra Fria é um movimento mais defensivo do que ofensivo da Rússia em resposta às ações republicanas. Além disso, reflete questões domésticas russas, uma sociedade que se prepara, assim como a norte-americana, para uma disputa presidencial no biênio 2007/2008. É também um movimento defensivo dos EUA que percebem as tendências de multipolaridade do sistema, os pontos de estrangulamento de sua hegemonia e as inúmeras coalizões de geometria variável que tem se estabelecido nos níveis de poder abaixo de sua liderança entre seus amigos e inimigos. As opções estão abertas. Afinal, traçando a trajetória russa em tempos recentes tem-se um Estado que passou de superpotência à decadente, de decadente à emergente, em um período curto, o que certamente traz pressões e dúvidas sobre suas escolhas e impactos sobre a ordem mundial e suas guerras multidimensionais muito mais quentes do que frias.

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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