Rastrear o diamante é incomparavelmente mais complexo que o couro. Graças ao Protocolo de Kimberley, o mundo deu pequeno passo exigindo comprovação da sua procedência. Com isso, salvam-se vidas e evitam-se conflitos.
Protocolo semelhante pode e deve ser feito com o couro e com o cálculo biliar. Obrigaria aos gigantes da indústria calçadista declarar a procedência do tecido epitelial bovino nos produtos exportados. Sapatos, bolsas ou tênis de couro, além de provenientes de boiadas pastando em áreas desmatadas, resultam de práticas clandestinas de comércio. Se por muito menos a carne já sofreu ameaça de boicote na Europa e na América do Norte, por que não boicotar o couro contrabandeado?
Falta à Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai consciência da dimensão da biopirataria e da lucratividade do contrabando dos derivados da bovinocultura. Daí a importância de recuperar a arte terapêutica de usar líquidos e partes retiradas do organismo animal, conhecida como opoterapia. Apesar desses quatro países abrigarem importantíssimo quinhão do rebanho bovino mundial, por lá e na Amazônia as políticas da indústria pecuarista não falam disso.
Há quem afirme que o cálculo biliar ou a colelitíase relaciona-se à alimentação. Presume-se que ele se forma especialmente no gado criado nas regiões cuja constituição química do solo das pastagens é pródiga em elementos alcalinos.
Resultante da precipitação do colesterol, do ácido graxo e do corante da bile, o cálculo biliar ainda no matadouro vale em peso mais que o próprio ouro. Tamanho, formato e tonalidade – ocre aproximando-se do vermelho e às vezes ao amarelo – variam nas pedras cujos segredos da sua utilidade guardam-se a sete chaves.
O cálculo biliar, raro de se achar, sem sombra de dúvida representa o de mais caro na rês. Uma boa pedra equivale ao valor de vários bois. Nos abatedouros, furando a vesícula biliar o líquido escorre por uma peneira. Se presente, os cálculos retêm-se em espécie de joeira dentro de caixa lacrada ou trancada a cadeado. Em grandes frigoríficos, câmaras de circuito fechado acompanham o procedimento. Como em qualquer mina, quem lida com gemas submete-se a meticulosa revista.
Depois de aberta a caixa, coletados de forma cuidadosa e rapidamente secos, envoltos em algodão como preciosidade, esses cálculos do tamanho de grão de cereal ou até do ovo de passarinho entram nos milionários negócios das máfias na Amazônia e alhures. Contrabandeados para o exterior às vezes pelas mãos insuspeitas dos próprios donos de frigoríficos, no sudeste brasileiro coletam-se por meio de grupos supostamente comandados de Barretos e do Centro-Oeste a partir de Campo Grande e Cuiabá. Matadouros clandestinos que abatem vacas velhas, com maior freqüência extraem cálculos biliares geralmente trocados por brindes e quinquilharias.
Em proporção praticamente idêntica à dos humanos, nem todas as reses possuem cálculos biliares, essa fortuna produzida na Argentina, no Brasil, Índia, EUA e países de grande rebanhos. No mundo do contrabando, ela é a menina dos olhos da bovinopirataria. Ilegalmente saem com receptadores garantidos na República Popular da China, no Japão, na Suíça, na Alemanha e na Itália. Repita-se, esse produto vale mais que o ouro.
No Brasil e na Argentina, os dois maiores provedores mundiais de tal contrabando, os serviços de inspeção animal e vigilância sanitária nem sequer sabem do prejuízo por tal incúria. As informações coletadas por esse pesquisador, ainda que desencontradas, sugerem o uso do cálculo biliar bovino em centros de altíssima tecnologia farmacológica na Alemanha e Suíça.
No Japão, em tempos antigos, tal produto entrava na composição de tinturas finas. Hoje, seu uso em fases particulares da opoterapia serve na preparação de medicamentos. Se anti-cancerígenos, anti-inflamatórios ou se para fortalecimento de potência sexual, isso continua incógnito.

A presença no mundo da pecuária nacional

As manadas em regiões de fronteira, no estado do Mato Grosso, parte delas propriedades de grupos árabes especialistas na lavagem do dinheiro, são acobertados por laranjas. Somadas às que pastam nos campos paraguaios e bolivianos, entram e saem fugindo do fisco. O somatório das boiadas propriedades de brasileiros e estrangeiros dentro das fronteiras beira a cifra de duzentos milhões de cabeças, ou seja, possui o Brasil o maior rebanho bovino do mundo superando a Índia.
Nas exposições agropecuárias, constata-se o centenário saber fazer do pecuarista responsável pela formidável adaptação e melhoramento genético de seu plantel. Repassada e aperfeiçoada de pai para filho, essa acumulação aprimorada de conhecimento cresceu órfã de apoio do Estado. Mesmo com a Embrapa, falta política pública tecnocientífica para extrair valor agregado do novilho antes e depois dele entrar no abatedouro.
Oposto a uma linha de montagem, o frigorífico com conceitos empresariais do passado desmonta, descarna e retalha o boi sem explorar o valor real das peças. Ignora como transformar agregando-lhes valor. A prova disso está no fraco uso industrial e farmacológico dos subprodutos da bovinocultura. Demonstra que o agronegócio pecuário por exportar sem valor agregado reflete mais subdesenvolvimento que desenvolvimento.
A cultura da carne nas relações internacionais envolvendo práticas religiosas e tradições culturais está ainda por chegar aos frigoríficos nacionais. Os cursos de comércio exterior preocupados com disciplinas levando a nada, tampouco ajudam por não ter o pé no chão, ensinando o que vale importar e como exportar produtos com valor agregado.
Proprietários de frigoríficos jamais imaginavam que para satisfazer ao consumidor de confissão islâmica – aproximadamente um quarto da população mundial – teriam de direcionar para Meca as instalações de seus matadouros, inclusive o de aves. Tardiamente entenderam o ritual religioso determinando a forma de abate para atender a demanda de outro exigente e bom pagador que é o mercado judeu. Agora respeitam o gosto do chileno que prefere importar o dianteiro, por brasileiros e argentinos considerado menos nobre. Aprenderam porque o chinês e o japonês pagam bem por partes por eles apreciadíssimas e aqui destinadas ao lixo ou na fabricação do sabão.

Do bioetanol ao biodiesel

Concentrando em si grande bocado das prioridades, o bioetanol dá magro espaço a outras modalidades da agroenergia, por exemplo, o biodiesel de gordura animal. Projeto pouco falado, ele aguarda pauta nos frigoríficos nacionais de expressão. Ainda fora do reduzidíssimo clã de sub-produtos da carne no mercado internacional, a maior parte da produção frigorífica tradicionalmente se orientou para a exportação sem valor agregado. Por isso, as atenções para a engenharia industrial a serviço do beneficiamento da carne e até do biodiesel de gordura animal raramente se manifestam. Acomodados diante da mentira mil vezes repetida e transformada em verdade de que a maior parte do custo do frigorífico é ainda o do boi, os pecuaristas prosseguem equivocados por tal diagnóstico imutável no tempo.
Sem pôr em prática ação efetivamente preventiva reduzindo tais índices de desmatamento, a própria burocracia governamental apressa o processo de perda da soberania nacional no espaço amazônico. Espaço impossível de ser moralmente defendido caso não se estanquem os avanços da degradação sócio-ambiental . Voltando à bovinocultura, pastando nos conformes de sua natureza, o boi orgânico na negligência da política ambiental, mesmo com a excelência da qualidade e sabor de sua carne, jamais ele prevalecerá à imagem das queimadas ou da destruição do ecossistema.
A degradação ecológica joga no abismo qualquer tentativa de provar as vantagens do boi orgânico. Desprovidos dos privilégios dos exportadores do etanol, somente com a solução desses problemas poderão os frigoríficos entrar em mercados tecnicamente refratários à carne “made in Brasil” fortalecendo as negociações multilaterais da Rodada Doha da Organização Mundial de Comércio.
A marca da qualidade da exportação bovina in natura e da industrializada inexistirá na falta de convergências por mudanças de mentalidade e na continuada desunião dos produtores afetando na base a cadeia produtiva. O pecuarista se acenar com gestos concretos pressionando pela vacinação coletiva contra a febre aftosa e contra incêndios florestais ajudará a impedir o aumento desleal das áreas de pastagens baixando o preço da carne nos mercados.
Nos EUA, na UE e na Austrália, a agropecuária beneficia-se de tecnologias que agregam às suas exportações qualidade e valor. Aqui, ao contrário, continua-se especializando na exportação de commodities. Nessa hora, percebe-se a necessidade de coisas mais além da Alca, Área de Livre Comércio das Américas numa ponta, e na outra o projeto Casa, Comunidade Sul-Americana de Nações, substituída em abril de 2007 pela União de Nações Sul Americanas.
A agenda externa brasileira concentra-se em grandes projetos, no G-20, por exemplo. Procura alterar a favor da periferia, negociações comerciais agrícolas, mas perde no micro e no macro por ser surda e muda diante das forças do contrabando em redes.
O baixo poder aquisitivo da população e a ditadura do superávit primário reforçam a opção pelas commodities. Hoje, o Brasil é o maior exportador mundial da carne bovina in natura. Rússia, Países Baixos, Reino Unido e Itália são ao mesmo tempo importadores e re-exportadores dessa carne, parte dela vendida como salsichas, salames, etc. Só Deus sabe como ela de fato é certificada.
Teimosos e esmerando na qualidade, pecuaristas e frigoríficos brasileiros, argentinos e uruguaios estão excluídos do clube integrado por cerca de cinqüenta grandes grupos controladores do mercado mundial da carne. Assim permanecerão até que criadores e donos de frigoríficos daqui e dos vizinhos comecem a trabalhar em conjunto. Isso será difícil porque tradicionalmente ludibriam um ao outro. Adotam posturas suicidas de desentendimento fomentado à concorrência destrutiva nesses tempos de globalização onde redes de interesses servem para quase tudo.
A presença de diplomacia ativa aconselhando caminhos para que produtores da região exportem somando forças nos nichos do comércio internacional desobrigaria à carne “made in Brazil” entrar nos países árabes pelas mãos de atravessadores. Ela chega ao Egito, por exemplo, apenas quando chancelada por comerciantes dos Países Baixos e da França entre outros.
Vantagens comparativas existem a favor da produção nacional como as pastagens naturais proporcionando alimentação natural a reduzidíssimo custo. A luminosidade e o calor propiciam o desenvolvimento e rápida engorda. Também os melhoramentos genéticos realizados há décadas por pecuaristas refletem-se na qualidade ímpar da carne do boi criado na natureza. Aspecto negativo é a devastação ambiental. Quanto ao ordenado dos trabalhadores rurais, relembre-se são até superiores aos pagos nas cidades.
Comparações no cenário internacional indicam que brasileiros labutando na mesma função, com igual ou maior rentabilidade, recebem dos frigoríficos aqui, aproximadamente uma oitava parte do pago ao operário estadunidense ou ao irlandês. Certificações de higiene, excelente sabor da carne exportada e o aprimoramento do corte não reduzem a incompatibilidade do agronegócio como ele é com os cuidados ambientais.
Em competência profissional, a mão-de-obra especializada, treinada em estabelecimentos nacionais, convidada a trabalhar na Irlanda e na Austrália repassa com mestria conhecimentos na técnica do corte da carne. Pelo corte brasileiro e argentino aperfeiçoados e largamente apreciados, nada se recebe.

Argemiro Procópio Filho é professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB e pesquisador do CNPq (procopio@unb.br).

1 comentário »

  1. O cenário mudou bastante. Todos os maiores frigoríficos do Brasil hoje não vendem nenhum cálculo biliar sem Nota Fiscal. No Brasil, existe uma das únicas duas empresas mundiais que extraem sais e ácidos biliares da bílis líquida, em quantidades maiores que toda produção brasileira, negócio multimilionário. A empresa até importa uma grande quantidade de bílis líquida de outros países. Hoje, o cálculo biliar vale cerca de 1/3 do ouro, em peso, e não mais que o ouro. Na atualidade, não pode se mais dizer que este ramo de sub-produtos bovinos seja contrabandista. Ele é na maior parte totalmente legal. É a Ásia que absorve quase a totalidade dos cálculos biliares, e não a Alemanha nem a Suiça que são meramente países intermediários de comércio. O ingrediente ativo do cálculo biliar é a bilirrubina, um pigmento de origem visicular, muito parecida com a bilirrubina humana, utilizado como ingrediente milenar em remédios asiáticos ou in natura. Cerca de 20.000 bois rendem 1 kg de cálculos biliares. Os maiores cálculos pesam cerca de 5 gramas, ou seja, equivalente a 150 R$, e não o valor de vários bois. Nos EUA, a quantidade total de cálculos biliares é muito pequena, devido à alimentação artificial e abate muito cedo dos animais.

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