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p align=”justify”>A visita do Presidente George Bush ao Brasil no dia 8 de março expressa uma diversificação da política externa americana em relação ao acesso de fontes energéticas. No Oriente Médio, o binômio democracia e petróleo, formulado há alguns anos, já não prospera. O fundamentalismo na região recrudesce e os preços do produto, conquanto estejam atualmente na faixa dos 50 dólares, aproximaram-se em 2006 dos 80 dólares. Não há, no curto prazo, perspectiva alguma de que retornem aos patamares de antes da Segunda Guerra do Golfo, ou seja, 30 dólares.
A despeito das dificuldades, os Estados Unidos aventam a hipótese de desencadear, mesmo unilateralmente, mais um conflito em pouco mais de cinco anos, no caso com o Irã. Nesse sentido, o governo Bush vai de encontro ao teor do Relatório da Comissão bipartidária (James)Baker-(Lee)Hamilton, vindo a lume em dezembro passado, que advogou a retomada de contatos tanto com a Síria como com o Irã. O objetivo dessas recomendações pela Comissão foi de atenuar a instabilidade da região.
O mais temerário na confrontação com o Irã é o emprego hipotético de armas atômicas para exatamente conter o programa nuclear desse país. Sem criatividade, o governo norte-americano segue, à primeira vista, o roteiro utilizado anteriormente com o Iraque, antes da proclamação da guerra em março de 2003, ao valer-se do palco das Nações Unidas para fundamentar as medidas a serem destinadas ao opositor do momento.
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p align=”justify”>Por outro lado, a Casa Branca já não comenta com entusiasmo a disseminação da democracia na área médio-oriental e imediações, ao enfatizar o combate ao terrorismo e a limitação da posse de armas de destruição em massa por terceiros. Resigna-se, pois, a descartar o projeto de transformação política de lá, formulado na década passada.
Destarte, sem apoio da comunidade internacional para nova investida bélica, os Estados Unidos precisam amenizar o seu desgaste no Oriente Médio. Ao valorizar a diplomacia para outras regiões do globo, o país tenta demonstrar que a sua política externa adota o posicionamento necessário para cada situação, sem atuar, por conseguinte, de modo uniforme para todos os países.
Nesse sentido, o Presidente Bush lança temporariamente os olhos para a América do Sul, com o objetivo de reiterar a proximidade no campo político com o continente e, desta forma, contrabalançar a diplomacia presidencial venezuelana de Hugo Chávez, em cuja órbita já se encontram Bolívia e Equador.
Na economia, Bush busca reforçar os laços econômicos de longo prazo. Entre todos os países a serem visitados, o Brasil destaca-se, dentre outros motivos, por causa de sua política comercial de êxito, ainda não afetada pela valorização excessiva do real. No governo Lula, o Brasil conseguiu responder por pouco mais de 1% do comércio mundial, índice obtido anteriormente na gestão Sarney.
Acrescente-se que outro fator de interesse econômico para os Estados Unidos, diante da instabilidade do Oriente Médio, é o promissor potencial do Brasil em combustíveis renováveis. É possível que, a partir dos próximos dez anos, o país possa aos poucos caminhar para o exercício de papel similar ao da Arábia Saudita atualmente, visto que a produção petrolífera ruma, em breve, para o seu descenso.
Assim, a diplomacia norte-americana tem de necessariamente antecipar-se à da China, cujo dispêndio de energia, dado o seu crescimento significativo ininterrupto, deverá elevar-se. Diferentemente do Brasil e dos Estados Unidos, contudo, ela não terá condições de redistribuir o cultivo de seus produtos, a fim de atender a sua demanda por combustíveis. Desta maneira, o governo chinês tem de aproximar-se de grandes centros produtores.
Com o crescimento inexorável do consumo, a comunidade internacional terá de dedicar-se à procura de fontes energéticas alternativas e renováveis. No entanto, destaque-se que o álcool não substituirá totalmente os combustíveis fósseis. Um e outro conviverão durante muito tempo, ainda que cotados cada vez mais desigualmente, em decorrência da melhoria da produtividade daquele e da escassez maior deste.
O Brasil sobressai em virtude de sua experiência técnica de três décadas na área, por causa da implementação do programa Proálcool em 1975, e da ampla disponibilidade de terras férteis. Por último, o país, para se tornar o referencial futuro em fontes renováveis de energia, terá de deslocar mais e mais recursos do corrente processo de financeirização para aplicar em infra-estrutura, com o propósito de abrandar o custo-Brasil e atrair investimentos complementares para o campo do biocombustível.

Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

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