No debate travado na mídia nos últimos meses sobre os riscos de uma corrida militar na América do Sul (que se refletiu, inclusive, em vários artigos publicados aqui em Relnet), mencionam-se continuamente os nomes de Chile, Colômbia e Venezuela. Estas seriam as novas forças militares que estariam emergindo no continente e ameaçando o Brasil. Não é este o momento de voltar a discutir a realidade dessa percepção, mas vale a pena observar uma incrível ausência nesta lista, ou seja, a Argentina.
Não é nenhum segredo que, por décadas, o Brasil sempre considerou, como sua principal ameaça externa, a Argentina. Já no tempo do Império, a desconfiança das ambições argentinas em reconstruir o Vice-Reinado do Rio da Prata foi determinante, entre outros motivos, para a manutenção de uma política intervencionista no Prata que, entre altos e baixos, atravessou quase todo o século XIX. Mais tarde, já na República, a Marinha brasileira sustentou uma corrida naval com a Argentina na época do barão do Rio Branco e, nos anos 30, o medo de que uma Argentina militarmente mais forte pudesse derrotar o Brasil foi fundamental para ampliar ainda mais os laços do Brasil com os Estados Unidos.
Mesmo nas décadas de 60 e 70, apesar de momentos de maior aproximação e da diminuição dos riscos de um conflito armado, as preocupações estratégicas brasileiras com a Argentina continuaram. Na época da construção da usina de Itaipu, consta que os regimes militares argentino e brasileiro chegaram a jogar “jogos de guerra” uns contra os outros e, durante a Guerra das Malvinas, muitos militares brasileiros viram com preocupação a capacidade demonstrada pelas forças armadas argentinas, que, se inferiores às britânicas, poderiam muito bem ter vencido as brasileiras.
A Argentina também considerou, por décadas, que um dos seus principais inimigos era o Brasil. Este seria um dos culpados da “Grande Argentina” (que reuniria o atual território argentino, mais Uruguai, Paraguai e parte da Bolívia) nunca ter se concretizado e o principal rival à liderança da América do Sul. È verdade que, no imaginário estratégico argentino, havia um outro país que despertava ainda mais preocupação, o Chile, mas o Brasil não ficava muito atrás. Aliás, não espanta que Brasil e Chile sempre tenham sido tão próximos, dado o rival comum.

Hoje, Buenos Aires e Brasília ainda sustentam disputas por causa de barreiras comerciais dentro do Mercosul, por uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU (apesar deste tópico ter perdido relevância nos últimos tempos) e a imprensa argentina sempre publica artigos mencionando um certo medo da economia argentina ser “engolida” pela brasileira. E as piadinhas e disputas futebolísticas, claro, continuam. No entanto, ninguém mais cogita na hipótese de tanques argentinos atravessarem Uruguaiana em direção a Porto Alegre ou de aviões brasileiros bombardearem Córdoba.
É claro que a razão central para esta diminuição notável e auspiciosa das tensões e para a eliminação da hipótese de guerra está na construção da aliança Brasil-Argentina e do Mercosul a partir dos anos 90. E, apesar dos caminhos do Mercosul serem duvidosos, não creio que a hipótese de um conflito militar entre os dois países esteja no horizonte, mesmo no mais remoto. Não espanta, assim, que a Argentina não figure numa lista de potenciais rivais ou inimigos, em termos militares, do Brasil. Fica a pergunta, contudo, se uma das razões para a Argentina estar fora desta lista não é simplesmente o fato do seu poder militar ser, hoje, mera sombra do que foi.
Militarmente, a situação argentina é realmente muito diferente da de alguns anos atrás, quando, sem ser uma superpotência, ela tinha uma boa capacidade militar para os padrões latino-americanos. Nos últimos vinte anos, a contenção orçamentária tem sido grande e, especialmente nos anos 90, o corte foi na carne. Hoje, o único porta-aviões da Marinha argentina virou sucata, há pouco dinheiro para treinamento, instalações militares foram privatizadas e programas de armas nucleares e mísseis foram suspensos. Além disso, quase 80% do atual orçamento de defesa argentino é gasto com salários e aposentadorias. Aquela Argentina que, segundo alguns cálculos, tinha, em 1945, um orçamento militar maior do que o de Brasil, Chile, Peru, Colômbia, Venezuela e Brasil, não existe mais.
Há anos, as forças armadas argentinas também não adquirem material moderno e, apesar dos esforços para revitalizar a indústria militar, alguns exercícios de treinamento e a presença de suas forças em missões da ONU, a capacidade de ação externa dos militares argentinos é quase nula. Talvez daqui para a frente, com a recuperação econômica, este quadro comece a mudar, mas ainda não há sinais disto.
Uma comparação com o Brasil, neste ponto, pode ser de alguma utilidade. Há vinte anos, os brasileiros tinham cerca de 280 mil homens em armas, frente a 150 mil argentinos. Hoje, o efetivo brasileiro permanece mais ou menos constante, mas não mais do que 70 mil homens vestem uniforme na Argentina. Em termos financeiros, por sua vez, os gastos militares argentinos, que teriam chegado a 4,2% do PIB entre 1978 e 1983, teriam caído para cerca de 1,5% (US$ 2,5 bilhões) em 1988 e 1,1% (US$ 2,5 bilhões) em 2004. Já os gastos militares brasileiros teriam caído, mas de forma menos acentuada, saindo de quase dez bilhões de dólares em 1988 (2,5% do PIB) para cerca 8 bilhões (1,5% do PIB) em 2004 (Vide Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), em http://www.sipri.org).
Essas estatísticas são pouco confiáveis, pois os gastos militares são avaliados de formas diversas e com interesses diversos. Além disso, o envolvimento argentino na Guerra das Malvinas pode mascarar um pouco os números para o início dos anos 80. Assim, qualquer pesquisa na Internet ou na literatura especializada pode revelar números diferentes. Mas fica claro como, enquanto a estrutura militar brasileira tem permanecido constante (ou, ao menos, com oscilações menos acentuadas), a argentina entrou em colapso. Claro que a capacidade militar do Brasil continua extremamente precária (ainda mais que as forças armadas brasileiras também gastam mais com salários e aposentadorias do que com armamento e treinamento), para dizer o mínimo, mas a situação argentina é ainda mais complicada.
Se qualquer guerra entre Brasil e Argentina, nos anos 40 ou 50, teria terminado, provavelmente, com uma vitória argentina, a partir dos 80, a balança do poder virou. É duvidoso, na verdade, que qualquer um dos dois países, seja nos anos 40, 50 ou 80, tivesse a capacidade para administrar e manter uma campanha em larga escala no coração do território inimigo, conquistando Buenos Aires ou São Paulo, por exemplo, Mas o fato é que, antes, a Argentina tinha mais condições de causar danos ao Brasil do que o inverso, o que se alterou hoje. Não espanta, assim, que, como visto, a “ameaça argentina” não apareça mais na imprensa brasileira e unidades do Exército brasileiro possam ser transferidas do Rio Grande do Sul para a Amazônia.
Como já mencionado, não resta dúvida de que a construção do Mercosul, a redemocratização dos dois países e o fim da Guerra Fria foram as chaves que levaram a esta situação. Afinal, com o fim do papel de polícia dos militares em ambas as nações, a criação do eixo Brasília-Buenos Aires e da “ameaça vermelha”, abria-se a possibilidade de cortes nos orçamentos militares, o que foi feito. Não obstante, questões internas dos dois países também influenciaram bastante o quadro.
No caso argentino, o total descrédito nos militares depois da “guerra suja” e da aventura nas Malvinas com certeza permitiu, aos governos civis, fazer cortes ainda mais profundos no orçamento militar. Nos anos 90, o ideário neo-liberal (especialmente no governo Menem) acelerou o processo e a profunda crise econômica do país vizinho até 2002 só o completou, o que explica a decadência militar argentina. No Brasil, os militares conseguiram reter algum poder e influência, a máquina do Estado não foi completamente destruída e nossas crises econômicas foram menores. Com isso, apesar das dificuldades dos militares brasileiros, que não são poucas, eles foram capazes de manter, ao menos, uma parte da sua máquina funcionando.
De qualquer modo, a dúvida que fica, ao final desse texto, é se esse colapso militar argentino, que vem desde os anos 80, também não colaborou para a própria criação do Mercosul. Sem recursos para manter uma grande força militar, o Estado argentino pode ter se sentido menos inclinado a uma política de confrontação com o Brasil e à busca da cooperação. Se as inúmeras crises (política, econômica e do Estado) que golpearam a sociedade argentina nos últimos trinta anos não tivessem abalado a sua capacidade militar, eles teriam aceito se associar ao Brasil? É provável, dadas as outras forças (econômicas, sociais, políticas, etc.) que impeliam as duas sociedades nessa direção, mas talvez fosse uma questão que merecesse um estudo mais detalhado, especialmente dentro das duas corporações militares.

3 comentários »

  1. É mas não podemos nos esquecer que a Argentina,tem uma vantagem estratégica que na América do Sul,só o Brasil possui também:industrialização.Depois do Brasil,a Argentina é o unico pais industrializado do continente,não se esqueçam que ela e membro do G20 grupo da vinte nações mais industrializadas do planeta.Isso faz muita diferença.Vou dar um alguns exemplos: a Força Aerea do Chile,comprou rececentemente 25 aeronaves leves de ataque ALX super tucano do Brasil;a Força Áerea da Venezuela,comprou 18 K8 chineses e a Força Áera Boliviana 6 K8 chineses,A Força ÁéreaE a Aviação Naval da Argentina copmprara 40 AT-63 PAMPA II,com um detalhe,eles vão produzir esses 40 aviões leves de ataque,enquanto a Bolívia , Venezuela e o Chile compraram do Brasil e da China…se nós temos a EMBRAER eles tem a FADEA …eles tem sim capacidade de produzir,desenvolver armamentos para se reequiparem,inclusive armas atômicas é so quererem

  2. A situação das forças armadas argentinas pode ser mais dramática do que se pensa.no ano passado eles desistiram de participar da Cruzex (exercício aéreo conjunto entre as forças aéreas do Brasil,EUA,França,Venezuela e Chile) porque não contavam com aviões em condições operacionais.após cogitar a compra dos Miráges retirados do serviço na Espanha chegaram a discutir a compra dos Miráges aposentados pelo Brasil,aviões já sem condições de segurança para vôos.o país,que na minha opinião foi uma potência militar regional até o início da década de 80,não pode adquirir material bélico no exterior por suas próprias restrições orçamentárias e,também,por pressão do Reino Unido.
    Hoje a Argentina não possui nem sombra da capacidade militar que apresentou no passado e essas três décadas de atraso argentino favoreceram o Chile,país que tem as forças armadas mais modernas e capacitadas da América do Sul na atualidade e que no passado viveu sob a constante ameaça de invasão argentina.

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