Ao partir da definição de desenvolvimento econômico como o processo através do qual uma sociedade tradicional, caracterizada por empregar técnicas primitivas e, portanto, manter um nível de renda per capita modesto, transforma-se em uma economia moderna de alta tecnologia e elevada renda, poder-se-ia apontar o Vietnã como um exemplo, ao menos desde 2006.
Ainda marcado pelas conseqüências da Guerra Do Vietnã (1965-1975), o país torna-se um mercado emergentes, ao atrair investimento externo direto (IED) direcionado para o estabelecimento de pólos de alta tecnologia. Com a progressiva abertura interna, o país espera influir significativamente nas decisões do Sudeste Asiático.
O processo definido envolve a substituição da produção intensiva de mão-de-obra por técnicas que empregam mão-de-obra qualificada e necessitam de conhecimento científico para produzir grande variedade de produtos consumida no continente.
Inspirando-se na China, embora sem dispor da mesma quantidade de mão-de-obra, o Vietnã segue remunerando parcamente seus trabalhadores, de forma que tenha uma ‘vantagem’ na atração do IED. Além do mais, graças ao seu perfil demográfico, cuja base é composta de jovens, e educacional, onde se reforça o ensino de matemática, a qualidade da mão-de-obra é considerada acima da média na região.
Mais de quatorze milhões de pessoas, ou seja, 17,5 % de uma população de 84 milhões de habitantes utilizava regularmente o computador em dezembro de 2006, contra oito milhões em setembro de 2005. Os conectados à Internet são agora quatro milhões.
Do norte ao sul do país, o governo, em parceria com investidores estrangeiros, busca aplicar recursos para intensificar o desenvolvimento da infra-estrutura, como, por exemplo, a duplicação das estradas urbanas, ao cavar um túnel sob o seu famoso rio Mekong. Outrossim, planejam-se as primeiras linhas de metrô e a construção de um aeroporto novo. No campo econômico, o país procura ajustar-se ao sistema financeiro internacional.

Na área de tecnologia, há um projeto-piloto, financiado por capital estrangeiro, que visa ligar o campo à rede por meio de telecentros. Na telefonia, em função de seu atraso, o celular supre a deficiência de aparelhos fixos: o número de linhas dobra a cada dois anos e, em julho de 2006, 18,5% dos vietnamitas utilizavam uma delas.
O governo tem bons olhos para os aportes de capital, mas já esboça uma preocupação com o capital volátil à procura de oportunidades em uma economia que cresce a 8% ao ano. Ele estuda a possibilidade de impor um controle para limitar esse fluxo, pois esse pode deflagrar inflação e pressionar ainda mais a desvalorização da moeda local.
Depois de muitos anos afastado da economia mundial, o Vietnã busca assumir um papel de potência na região. Apesar de longo período de estagnação, o Vietnã apresenta forte inclinação para acelerar o fortalecimento do seu sistema financeiro; aumentar o consumo; e buscar reformas políticas necessárias para a sua estratégia de negociação junto aos principais países da região.
Bem situado do ponto de vista geográfico, ao alojar-se em uma soberba baía, o país prepara-se para efetivar sua vocação ‘natural’ de prestar serviço ao Laos e ao nordeste da Tailândia, o que desafogaria as instalações fluviais de Bancoc. Desse modo, o Vietnã ameaça suplantar, em alguns anos, as Filipinas, a Tailândia e até a Malásia. Por considerações geopolíticas, Formosa e Japão não desejam concentrar seus interesses econômicos apenas na China.
O Vietnã só em 2006 tornou-se uma das estrelas entre as economias emergentes, ao ser admitido na Organização Mundial do Comércio (OMC). Além do mais, o país organizou, com sucesso, o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), com a presença das principais economias da região.
Enfim, o Congresso norte-americano votou, com pequeno atraso, o estatuto que instaura “relações comerciais normais e permanentes”. Preparadas havia muito tempo, as empresas norte-americanas aproveitam a passagem do Presidente George Bush pelo Vietnã para conseguir mais de 1 bilhão e 500 milhões de euros em contratos, especialmente com a construção de usinas elétricas encarregadas de alimentar a cidade de Ho Chi Min e arredores, onde está o principal pólo de desenvolvimento do país.
O Vietnã é o segundo exportador mundial de arroz, atrás da Tailândia, e um produtor importante de palma e café. Em 2006, o fluxo de IED aumentou 50% em relação a 2005 e ultrapassou a marca dos sete bilhões de euros.
De acordo com uma pesquisa realizada em novembro pelo Asia Business Council, o Vietnã ocupa o terceiro lugar (38%) em relação aos projetos de investimento das multinacionais, atrás da China (85%), da Índia (51%) e ligeiramente na frente dos Estados Unidos (36%).
Esse rápido crescimento econômico – com uma população de 84 milhões de habitantes, da qual a metade tem menos de 35 anos – faz parte do receituário dos investimentos, ou seja, segue a experiência da China pós-OMC que realmente se expande e progride materialmente, ainda que em detrimento da maior parte dos trabalhadores.
Uma coisa é certa: o Vietnã cogita a hipótese de começar a falar bem alto, porquanto começa a comportar-se como um país ‘grande’, ao atrair rapidamente muitos investimentos e ansiar, deste modo, um papel político maior na região. Na visão de lá, se não se fala alto, simplesmente se fica para trás.

Ricardo DaSilva é Mestre em economia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRR e em Administração pela Universidade de Brasília – UnB e Professor do Departamento de Economia e Administração da Universidade Católica de Brasília – UCB (ricardos@unb.br).

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