Estados Unidos

A difícil insistência na permanência no Iraque, por Virgílio Arraes

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p style=”text-align:justify;”>Conquanto boa parte da sociedade norte-americana tenha expressado a sua rejeição à idéia de estender a permanência de tropas no Iraque, o governo Bush insiste no posicionamento de ampliar o efetivo, sob justificativa de eliminar os fatores de instabilidade, ou seja, os insurgentes fundamentalistas, motivadores de reveses de possível superação no médio prazo.
Na retórica oficial, a presença dos Estados Unidos expressa-se em nome de valores universais, ao praticamente desconhecer implicações econômicas, visualizadas sem dificuldades nas enormes reservas petrolíferas subexploradas desde o fim da I Guerra do Golfo – estima-se que o Iraque detenha quase 10% do total do mundo.
Todavia, parlamentares iraquianos debatem a modificação da legislação relativa à exploração de tais jazidas, principal fonte de recursos do combalido país. Oficialmente, toda alteração possível não deixaria de contemplar os interesses dos diversos grupos estruturados após a fragmentação do Iraque, a partir do atual conflito. O petróleo – dado o alto patamar de seu preço, ainda que involuntariamente provocado pela própria guerra – é praticamente a única fonte de que dispõe o país para reconstruir-se, visto que os subsídios norte-americanos são reconhecidamente insuficientes.
Na realidade, o delineio da nova política petrolífera resulta do projeto Futuro do Iraque, elaborado pelo Departamento de Estado antes da invasão, que havia recomendado o estímulo ao investimento externo direto para recuperar o setor. Desta forma, em julho de 2003, o Ministério do Petróleo da Autoridade da Coligação Provisional proporia o programa de privatização, com o intento de que várias companhias do setor, independentemente da nacionalidade, pudessem concorrer. As rendas auferidas iriam originalmente para um fundo nacional, não setorial por etnia ou ramo religioso, conforme o almejo de alguns grupos políticos locais.
A maior dificuldade para a materialização de tal projeto é a oposição dos curdos, já em amplas negociações com empresas da Noruega, Turquia e Canadá – no caso, uma empresa da família Gulbenkian, que foi uma das primeiras a explorar petróleo na região, então sob administração da Grã-Bretanha, há mais de um século. Em decorrência do processo de modernização da marinha britânica, ao trocar o carvão pelo óleo, a empresa tornar-se-ia uma de suas grandes fornecedoras.
Ao final da regulamentação e posterior implementação da nova legislação, a maior presença seria de empresas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália respectivamente. Se, nas linhas traçadas pelos planejadores norte-americanos, estipulou-se a centralização do comércio do produto, é possível que seja permitida a negociação local apenas para os campos de menor produção. De todo modo, muitas áreas necessitarão de proteção armada, viabilizada pelas próprias companhias exploradoras, pelo governo iraquiano ou pelo próprio governo norte-americano.
Entrementes, duas dificuldades permeiam a intenção de a gestão republicana prolongar a estada das tropas em solo iraquiano: a primeira reside em um parlamento renovado nas eleições de novembro de 2006, o que lhe configura perfil democrata. Ainda assim, a Casa Branca não desiste. No Estado da União, Bush solicitou ao Congresso autorização para incorporar mais 90 mil ao atual efetivo na próxima meia década, em função de robustecer o combate ao terrorismo.
Vários pré-candidatos democratas à Presidência posicionam-se a favor da retirada dos combatentes: Senador Barack Obama, sugeriu um cronograma para a volta parcial, mas significativa, das tropas: março de 2008. Em sua visão, é hora de alterar a diretriz estabelecida para o Iraque e deixar com os iraquianos a decisão sobre seu próprio destino. O papel seria de contrapor-se ao terrorismo local e de auxiliar o treinamento da soldadesca em formação;
Outrossim, o Senador John Edwards havia proposto o retorno para breve de 40 a 50 mil, porém sem especificar uma data. Bill Richardson, Governador do Novo México, havia indicado a necessidade de recolher a tropa até o final do ano. Destarte, a oposição a Bush marcha, de forma gradual, para uma posição firmemente contrária à permanência maior em solo iraquiano; falta-lhe, contudo, definir o papel futuro dos Estados Unidos no seu relacionamento com aquele país.
O segundo obstáculo reside, paradoxalmente, no fato que as forças armadas quase não atingiram no ano passado sua meta de alistamento, mesmo com a contratação de mais recrutadores, com maior extensão da idade e com mais bonificações financeiras. Sobressaia-se que 2006 não foi atípico, de modo que o governo apresenta em campanhas publicitárias as forças armadas como os guardiões da democracia e protetores da liberdade.
No passado remoto, de acordo com o governo, a atuação das forças armadas teria garantido o nascimento da nação norte-americana. Hodiernamente, o impacto pelos meios de comunicação impressa não foi tão expressivo, diferentemente do meio televisivo e do informático. Além do mais, outro desafio inquietante para o Pentágono é estender a visão positiva da vida em caserna para parentes e professores dos eventuais alistados, posta a sua influência na hora de decidir.
Por fim, não obstante os dois óbices enfrentados – um dos quais dentro do próprio poder Executivo, ao vivenciar dificuldades no recrutamento – o governo Bush movimenta-se, de modo açodado, com o fito de elaborar uma exposição de motivos que lhe justifiquem alongar a sua permanência militar no Oriente Médio. No caso, a fonte de inspiração é o Irã, conectado bem proximamente, na visão da Casa Branca, com o Hezbollah no Líbano e com o Hamas na Palestina.

Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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