<
p align=”justify”>Nas eleições de novembro de 2006, o Partido Republicano sofreu revés considerável, em boa medida por causa das dificuldades da política externa no Oriente Médio e Afeganistão. Uma das primeiras conseqüências seria a exoneração do Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. A outra, em curso, referir-se-ia aos lançamentos de candidaturas pré-presidenciais do Partido Democrata – até o momento, duas.
Isto simboliza, de certo modo, o envelhecimento precoce da segunda gestão Bush, centrada no combate ao terror e férrea oposição a determinados regimes ditatoriais – o que no idioleto republicano significa duas vertentes desde o final da Guerra Fria: se aliado, autoritário; se opositor, totalitário, conforme proposição de Jeane Kirkpatrick, Embaixadora junto às Nações Unidas entre fevereiro de 1981 a abril de 1985.
À primeira vista, a derrota nas urnas conduziria à reflexão de que a política externa executou um projeto equivocado, o que demandaria a necessidade imperiosa de revê-lo imediatamente, por implicar, no mínimo, mais risco de morte para dezenas de milhares de cidadãos norte-americanos – muitos dos quais recrutados em áreas rurais desassistidas – e iraquianos, além de contribuir ainda mais para desestabilizar o Oriente Médio.
<
p align=”justify”>Todavia, a Casa Branca parece tê-la interpretada como um plano correto implementado de maneira errônea – um percalço temporário, o que justificou a saída de Rumsfeld, não dos formuladores neoconservadores. Assim, a sua correção contempla intensificar o aparato militar na região, ao enviar para o Iraque mais 21 mil e 500 efetivos e ao considerar a hipótese de ataque à Síria ou ao Irã, conquanto o Congresso questione os custos não só econômicos mas principalmente políticos de tais empreendidas.
Apesar da avaliação negativa, a Casa Branca comporta-se de modo solerte, ao advertir o Senado, por meio do Departamento de Defesa, sobre a possibilidade de uma resolução contrária ao envio de tropas adicionais, aprovada até o momento na Comissão de Relações Exteriores – ela solicita mais esforços diplomáticos, insta a redistribuição do efetivo, ao lotá-lo nas fronteiras em detrimento das zonas urbanas, e pede mais treinamento das forças de segurança iraquianas.
Na visão governamental, tal tipo de manifestação só auxiliaria o adversário, ainda que não seja a intenção prevista. Contudo, muitos parlamentares do Partido Republicano receiam conceder um apoio maior, sob pena de desgaste perante seu eleitorado em 2008. Por outro lado, o Executivo desafia a oposição a apresentar um plano alternativo para o Iraque.
Nesse sentido, o governo recorre a analogias históricas, ainda que destaque a sua imperfeição, no caso por meio da titular do Departamento de Estado, Condoleeza Rice. Destarte, compara-se o presente desafio ao do tempo do início da Guerra Fria, cuja duração estendeu-se por quase meio século até a vitória final. No entanto, as molduras sócio-culturais de ambas as áreas, além do distanciamento temporal, diferenciam-se sobremodo. A região médio-oriental não saiu de um amplo confronto – a II Guerra Mundial – em que uma coligação de países da própria área – o eixo nazifascista – tivesse devastado os demais.
Registre-se que os Estados Unidos não foram lá, desta vez, para encerrar um conflito, porém para iniciá-lo, fato agravado pela ausência de apoio formal da comunidade internacional. Além do mais, conforme acima mencionado, concentram-se demais em dois da totalidade de países do Oriente Médio, talvez em função de uma visão marcada ainda pela dicotomia bipolar, incapaz, portanto, de ser aceita até mesmo por seus aliados mais próximos, como França e Alemanha, alcunhados, em passado recente, de ‘Velha Europa, por Donald Rumsfeld.
Os dois grandes conflitos travados durante o período bipolar, Guerra da Coréia (1950-1953) e Guerra do Vietnã (1965-1975), foram encerrados por presidentes republicanos. No primeiro, Dwight Eisenhower declarara seu fim, sem atacar diretamente os democratas, ao reconhecer a impossibilidade de ganhá-lo; no outro, Richard Nixon não desfrutou do tempo suficiente para pô-lo a termo, porém não perdeu oportunidades para criticar acerbamente seus adversários.
Caberia a seu sucessor, Gerald Ford, passar à história como o único dirigente a recentemente perder uma guerra. O reflexo viria na disputa presidencial, com a vitória de Jimmy Carter. Deste modo, ao pressentirem a possibilidade real de perda da Casa Branca durante o desenrolar das eleições em 2008, os republicanos poderão deixar o fardo da ocupação do Iraque para seus opositores.

Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.