Neste último mês, os Estados Unidos anunciaram o envio, para o Oriente Médio, de um novo grupo de batalha de porta-aviões, centrado no John Stennis. Ele vai se reunir a um outro, já presente na região e nucleado no Eisenhower. Com a chegada desses reforços, a força naval norte-americana na região estará substancialmente ampliada e a capacidade do Pentágono para desfechar uma série de ataques aéreos sobre alvos no Irã será substancialmente reforçada.
Outras informações também revelam que os Estados Unidos estão “flexionando os músculos” na região, como o anúncio do envio de mísseis Patriot. O sinal mais importante, contudo, é a nomeação do almirante William Fallon para comandar o Comando Central dos Estados Unidos, o Centcom.
O Centcom se estende por uma ampla área, abrangendo alguns dos países mais instáveis e problemáticos do planeta, além do grosso das reservas mundiais de óleo. Dois cenários de luta – Iraque e Afeganistão – estão na sua área de atuação e, em ambos os casos, o Exército e os fuzileiros navais são as principais forças envolvidas. Nomear um almirante para este comando é um sinal claro de que as prioridades locais, em termos militares, podem estar mudando.

Outros sinais de uma renovada hostilidade dos EUA frente ao Irã têm se sucedido nos últimos meses, como menções ao país em discursos de George Bush, ataques a funcionários iranianos em atuação legal no Iraque, etc. As perguntas a se fazer frente a esta situação são duas: se os Estados Unidos estão prestes a atacar o Irã e, em segundo, as razões dessa hostilidade.
A resposta à primeira pergunta, provavelmente, é não. Os aviões norte-americanos poderiam muito bem bombardear o país, mas seria necessária uma força muito superior para causar danos realmente dignos de notas nas instalações nucleares e militares do país. Não apenas mais porta-aviões como um substancial reforço em aeronaves baseadas em terra seria necessário, e ainda não vemos sinais disto.
Depois, mesmo um imenso ataque aéreo não teria condições de eliminar com eficácia as instalações nucleares iranianas (sendo razoável acreditar que elas devem estar bem camufladas e protegidas) e nem reduzir a força militar do Irã a níveis insignificantes. Seria possível aumentar em mais alguns anos o tempo para a posse, por Teerã, de uma arma nuclear, mas não mais do que isso. Washington resolveria um problema, mas fortaleceria o governo dos aiatolás no plano interno e externo e aumentaria a tensão na região.
Para garantir uma mudança total de cenário, o que seria necessário seria invadir e ocupar o país, garantindo a instalação de um governo pró-Estados Unidos. Mas tal invasão não apenas seria um pesadelo para o Exército norte-americano, já esgotado pela aventura iraquiana, como um suicídio político para os republicanos. A “exibição de músculos”, portanto, visa mais a pressionar o Irã para atender os desejos de Washington do que outra coisa. Provavelmente, contudo, mesmo essa exibição não terá muito efeito ou até induzirá Teerã a se tornar ainda mais beligerante.
Já a fontes de tensão entre os dois países são variadas, mas tem, como pano de fundo, uma competição estratégica. Com sua massa territorial, sua ampla população, localização estratégica e recursos petrolíferos, o Irã tem potencial claro de se tornar a força dominante na crítica região do Golfo Pérsico. Sua ascendência sobre grupos xiitas em várias regiões vizinhas também é um elemento de poder razoável e a posse de uma arma nuclear seria o coroamento dessa supremacia. Permitir a ascensão dessa potência rival seria inadmissível para os Estados Unidos.
Na verdade, a influência do Irã já é bastante razoável no Oriente Médio hoje, causando desconforto nas monarquias árabes sunitas e em outros grupos. Seria um erro superestima-la, como se o Irã fosse a única fonte de problemas na região. Mas não há dúvidas que ele é, hoje, a chave de várias questões fundamentais para o Oriente Médio, como a proliferação nuclear, o terrorismo e a estabilidade libanesa, iraquiana e palestina. Ver essa influência aumentar ainda mais seria um pesadelo para Washington, que estão fazendo o possível para conte-la.
Enfim, o que quero dizer é que, mesmo levando em conta os limites do poder e da influência iranianas e que todas as questões localizadas aqui mencionadas (Iraque, Afeganistão, Líbano, etc.) têm aspectos regionais e imediatos, o que está em jogo, lá no fundo, é uma disputa geopolítica clara para ver quem será a força dominante no Oriente Médio, controlando a maior parte do petróleo do mundo. Um Irã nuclear, com amplas reservas de óleo, imensa população e território e influência no Líbano, no Iraque, em Bahrein e em vários outros pequenos países, seria um formidável rival para Washington. Os países árabes provavelmente se armariam para enfrentar o desafio iraniano e correriam para a proteção norte-americana, mas a situação ficaria muito menos tranqüila para Washington na região. Estas preocupações em longo prazo acabam, sem dúvida, por influenciar as determinações de curto.
Veja-se, por exemplo, a estabilização do Iraque. Uma recomendação do Grupo de Estudos para o Iraque é atrair Síria e Irã para a mesa de negociações para estabilizar o Iraque. Não é uma aposta absurda. Se os sírios e outros árabes pudessem garantir a segurança dos sunitas, enviando dezenas de milhares de soldados, e o Irã fizesse o mesmo nas áreas xiitas, poderia haver, talvez, uma chance de o país ser pacificado. Algo discutível, claro, mas poderia ser possível, permitindo aos soldados americanos saírem do pesadelo iraquiano. Mas dar ao Irã este papel seria reconhecer, praticamente, a sua proeminência no Golfo Pérsico, algo inaceitável para os interesses de longo prazo dos Estados Unidos.
Essa disputa com o Irã já tem, pelo menos, vinte e oito anos, desde a Revolução Islâmica de 1979. Durante o regime do Xá, os Estados Unidos foram os aliados mais próximos do Irã e chegaram a pensar em utilizá-lo como uma espécie de guardião dos interesses norte-americanos na região. Isso quase aconteceu e, nos anos 70, o Irã foi abastecido de todo tipo de material militar por Washington, permitindo que ele se tornasse uma potência regional.
Com a queda do Xá, a equação se inverteu. De aliados íntimos, os dois países passaram a inimigos declarados e a disputa para ver quem controla a região tem prosseguido desde então. Durante a guerra Irã-Iraque, por exemplo, os Estados Unidos chegaram a dar apoio indireto, a contragosto, a Saddam Hussein, já que este era o único capaz de deter os iranianos. A administração Reagan também enviou unidades navais para o Golfo nos anos 80, justamente para vigiar os iranianos. Também ocorreram disputas entre norte-americanos e iranianos em vários outros locais, tanto por questões imediatas como pela competitividade estratégica de longo prazo.
Não é impossível, neste sentido, que um dos objetivos, entre outros, da invasão do Iraque, em 2003, tenha sido criar um Estado sob controle de Washington e que não apenas servisse de fonte confiável de petróleo (diminuindo a dependência da Arábia Saudita) como voltasse a servir de contrapeso ao Irã, papel para o qual Saddam Hussein não servia mais. Se fosse democrático e servisse de exemplo para o resto do mundo islâmico, ainda melhor, mas o fundamental seria garantir a presença de tropas e da influência norte-americana bem nas fronteiras iranianas, o que seria um excelente trunfo nessa disputa.
Se era essa a intenção, o tiro saiu completamente pela culatra. Ao invés de um aliado estável nas fronteiras do Irã, os Estados Unidos se vêem as voltas com um país em quase guerra civil e que drena recursos ao invés de ser um aliado de peso. E o Irã ampliou fortemente sua influência no local, dado o colapso do Estado iraquiano e sua influência em vários dos partidos xiitas iraquianos. Provavelmente, a maioria dos xiitas iraquianos não está ansiosa pela implantação de uma república islâmica no país, mas não resta dúvida que o Irã é uma referência chave para eles, o que só amplia a sua influência.
Assim, na longa lista de erros cometidos por Bush, pode-se elencar este que foi, pensando apenas em termos estratégicos, o pior de todos. Ao invadir o Iraque, os Estados Unidos eliminaram um desafeto e um tirano, mas também fortaleceram o seu rival regional de longo prazo. Já chamaram a guerra do Iraque de “guerra errada contra o inimigo errado”. Pensando apenas na disputa Irã-Estados Unidos, é difícil definir melhor.

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