Não é numerosa a produção brasileira que lida com os aspectos didáticos do ensino de Relações Internacionais no Brasil. O que há, geralmente, são exames sobre a evolução dos cursos acadêmicos no Brasil, a dinâmica da produção científica, os dilemas e necessidades que a sociedade demanda da área e a espinhosa questão do mercado de trabalho para os egressos da área. Não há nenhum problema nesse tipo de exame; muito pelo contrário, radiografias mais completas e rotineiras são imprescindíveis para uma reflexão sobre o estado da arte do ensino no país. Alguns desses exames, como o de Shiguenoli Miyamoto, Antônio Carlos Lessa, Paulo Roberto de Almeida, Henrique Altemani e Eiiti Sato, cumprem muito bem esse importante papel.

Mas há uma lacuna. Não há exames regulares e sistemáticos sobre características bibliográficas das principais disciplinas dos cursos, perfis dos alunos da graduação e pós-graduação, impacto de instrumentos paradidáticos no aprendizado, um entendimento da relação entre ensino e políticas públicas e, principalmente, estratégias pedagógicas no ensino.

Talvez um modelo de reflexão para adstringir essa lacuna seja o importante trabalho realizado no periódico International Studies Perspective. A publicação, editada pela Blackwell, tem quatro funções básicas. A primeira é informar os seus leitores como os debates correntes de política internacional são (ou deveriam ser) informados pela literatura acadêmica de relações internacionais. A segunda é realizar análises pedagógicas sobre métodos de ensino inovadores no campo. A terceira é prover visões da disciplina, mapeando tendências e considerando os debates controversos que varrem a área. Por fim, dedica-se a lidar com questões mais “mundanas”, como o mercado de trabalho dos profissionais da área, políticas de publicação e irreverentes, e por vezes importantes, notas de experiência dos profissionais.

Nos mais de cinco anos do veículo, há publicações que trabalham temas como a utilização de simulações dentro da sala de aula como estratégia pedagógica, ensino de economia política, redação de artigos em teoria de relações internacionais, exame de currículos, estratégias educacionais para o ensino do construtivismo, uso de role-play scenarios no exame de operações de paz, uso de música na sala de aula, utilização de fontes da internet no ensino e pesquisa, e outros.

Com toda essa relevância, o periódico agora será monitorado pelo Blog da Relnet, sempre dando ênfase aos artigos pedagógicos do veículo. No número 1/2007, há dois artigos sobre a temática. O primeiro é o de William Stover, sobre a utilização de uma simulação computacional no processo decisório da Crise dos Mísseis como estratégia de ensino. O autor modifica a história, fazendo com que um piloto de uma aeronave de reconhecimento americana caisse em Cuba, tendo as autoridades deste país aprisionado-o. O objetivo do autor é indicar que a simulação transformou a perspectiva dos estudantes sobre a guerra fria. Para tanto, ele divide a classe em dois grupos. O primeiro participará da simulação, o outro terá as aulas regulares sobre o período. Ambos os grupos respondem questionários no início e no fim do curso. O resultado da avaliação entre os dois grupos indica que o grupo participante do exercício de simulação acabou tendo expressões emotivas e avaliações sobre o período distintas do grupo não participante.

O segundo é o de Marijke Breuning e John Ishiyama, no qual os autores tentam responder os propósitos e benefícios em se graduar na área de international studies. Eles investigam como os programas do meio-oeste americano promovem os benefícios de seus cursos (conhecimento, preparação para carreira e estudos de linguas, na maior parte dos casos) com os requisitos do curso. Os autores não encontraram correlação entre as duas variáveis.

Veja o sumário completo do número 1/2007:

TIERNEY, MICHAEL J. Schoolhouse Rock: Pedagogy, Politics, and Pop. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.iii-v. 2007.

LEIRA, HALVARD. Anarchy in the IR! International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.vi-vii. 2007.

MAPEL, DAVID R. The Right of National Defense. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.1-15. 2007.

BRAHM, ERIC. Uncovering the Truth: Examining Truth Commission Success and Impact. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.16-35. 2007.

SINGH, J. P. Culture or Commerce? A Comparative Assessment of International Interactions and Developing Countries at UNESCO, WTO, and Beyond. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.36-53. 2007.

MARSH, NICHOLAS. Conflict Specific Capital: The Role of Weapons Acquisition in Civil War. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.54-72. 2007.

DZINESA, GWINYAYI A. Postconflict Disarmament, Demobilization, and Reintegration of Former Combatants in Southern Africa. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.73-89. 2007.

BUGER, CHRISTIAN e GADINGER, FRANK. Reassembling and Dissecting: International Relations Practice from a Science Studies Perspective. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.90-110. 2007.

STOVER, WILLIAM JAMES. Simulating the Cuban Missile Crisis: Crossing Time and Space in Virtual Reality. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.111-20. 2007.

BREUNING, MARIJKE e ISHIYAMA, JOHN. Marketing the International Studies Major: Claims and Content of Programs at Primarily Undergraduate Institutions in the Midwest. International Studies Perspectives, v. 8, n. 1, p.121-33. 2007.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.