O conflito entre israelenses e árabes palestinos é o dilema mais sacralizado e recorrente da região. Embora remonte às circunstâncias do Pós-Guerra, tal entrave alocou-se como tópico especial das diplomacias do Oriente Médio desde então e, em muitas ocasiões, foi veiculado por estas para legitimar discursos e ações políticas. Na contemporaneidade, em meio às insurgências conhecidas como “Primavera Árabe”, o dilema parece, no entanto, ser ofuscado às lideranças do Golfo, e em especial à Arábia Saudita, por conta dos novos desafios regionais, advindos desses levantes e da maior presença iraniana.

Quanto ao conflito, Analucia Pereira e Marcelo Kanter (2012) traçam clivagens temporais chamadas de “Quatro estações do Conflito Israel-Palestina”. Na fase inicial, intitulada “inverno”, tem-se a criação de Israel em 1948, a formação dos movimentos de libertação palestina, e as tentativas de cooperação nos anos 1980. A partir de então, surge o que chamam de “primavera”, ou seja, o momento dos esforços dos Acordos de Oslo para o ensaio da estabilidade entre ambas as partes. O fato de muitas cláusulas terem sido negligenciadas possibilitou o nascimento do “verão”. Este angaria o acirramento do conflito, especialmente em decorrência da morte de Yasser Arafat, da eleição de Ariel Sharon em Israel e da vitória do Hamas em Gaza. Para os autores, desde meados de 2005 até o momento atual, notaríamos o “outono”, simbolizado pelas novas polarizações de ambos os lados, bem como pela banalização do conflito.

E desta ideia partilha também Luciano Zucchi (2012), para o qual certas evidências na opinião pública das partes demonstram esgotamento e ceticismo quanto às viabilidades de um novo acordo de paz. Por isso o autor afirma que a causa está vinculada à existência de “Palestina” e “Israel” enquanto entidades históricas, destinadas a cumprir um propósito ideológico das ações políticas. A experiência prática demonstraria a descrença e falta de empenho, tanto dos líderes quanto das próprias sociedades civis, com relação a propostas que tragam uma nova perspectiva.

Desse modo, parece ser comum às literaturas mencionadas a característica desgastada do conflito. Especialmente após as invasões do Iraque e a Primavera Árabe, notamos que a questão, tão consagrada à agenda regional, perdeu a sua força e credibilidade, dando espaço a novas formas de ameaças regionais, como as insurgências islamitas e xiitas, combatidas pelas monarquias do Golfo e, principalmente, pela Arábia Saudita.

Este é o cenário reconhecido por Pinar Bilgin (2001). Para o autor, encontraríamos, dentre outros projetos, o “Discurso Islâmico da Segurança”, proliferado e defendido pelos sauditas para legitimar seu status nos planos doméstico e regional, como forma de conter a ameaça do crescimento islamita e xiita – observáveis tonicamente após a Primavera Árabe.

Tal movimento revela a tendência de ascensão dos islamitas às repúblicas do Oriente Médio, como forma de empregar novos modelos de governo conservadores, em defesa dos valores islâmicos e contrários à interferência das potências ocidentais (AHMAD, 2012). Dessa condição é que parte a ameaça identificada pela Arábia Saudita, uma vez que tais insurgências representariam a rescisão dos acordos de cooperação com os Estados Unidos (BAHGAHT, 2006) que, em troca, garantem-lhe a liderança regional.

Abdulkhaleq Abdulla (2010) já apontava que o expressivo desenvolvimento econômico e a gradativa relevância regional e internacional do Golfo não esconderiam aspectos falhos dos seus países, como a vulnerabilidade às tensões locais, a dependência da ajuda militar norte-americana e as desigualdades. Por isso é que Mehran Kamrava (2011) entende que surge a abertura para os protestos contra o governo monárquico nesses tempos de insurgências.

Este é, de fato, o maior desafio à agenda doméstica saudita, recentemente engajada a medidas como repressões aos opositores do regime; apreensões; formas de benefícios políticos – como eleições municipais em algumas regiões – e investimentos no desenvolvimento econômico para conter os abalos internos. Os caminhos sauditas, de acordo com Christopher Davidson (2011), servem de modelo, inclusive, para as políticas repreensivas dos Emirados Árabes Unidos.

Não obstante no plano nacional, certos desafios são observados também regionalmente (KAMRAVA, 2011), em meio os quais a Arábia Saudita se vale da liderança no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para fortalecer as parcerias monárquicas contra quaisquer implicações da Primavera Árabe ao seu status. Nesse sentido é que Borba, Brancher e Cepik (2012) identificam, para além dos islamitas, a ameaça iraniana que, de acordo com a perspectiva de Carvalho Pinto (2011), é uma rivalidade histórica, uma vez que, desde a Revolução de 1979, Teerã expressou o caráter xiita do movimento e sua ideologia anti-monarquista.

Dessa forma, a ameaça iraniana vai além da questão nuclear e simboliza a rivalidade entre ideologias e projetos contrastantes. Chamis (2012) chega a afirmar que, após invasão do Iraque, o Irã passou a estimular a aliança entre os xiitas em prol da sua maior presença regional e desestabilização das monarquias do Golfo – percepção que fundamenta a ideia de “crescente xiita” (CHAMIS, 2012; HAJI-YOUSEFI, 2009). Ações para conter o suposto avanço são ilustradas com o recente apoio militar da Arábia Saudita à família real do Bahrein, de origem sunita, a fim de conter os protestos internos de sua população xiita. Por tal exemplo é que Carvalho Pinto (2011) diz haver o acirramento entre as forças de Abdullah e Ahmadnejad, levando à evidência de uma “Guerra Fria Árabe” entre estas potências.

Por isso, Tamiz Ahmad (2012) considera uma mudança de atenção entre os líderes do Golfo. Enquanto nas décadas anteriores a ameaça para tais se baseava no conflito palestino, hoje o foco se transporia à contenção dos xiitas e islamitas, os “novos inimigos”.

Sendo assim, concluímos que a questão palestina, embora consagrada à história e relações do Mundo Árabe, perdeu seu foco em meio às insurgências da Primavera Árabe – pelo menos em se tratando das percepções sauditas. Parece-nos sustentável crer que, atualmente, o dilema entre os israelenses e palestinos tem a sua credibilidade atenuada e sua ameaça ofuscada pelos novos cenários regionais. Para as monarquias do Golfo e, principalmente à Arábia Saudita, a preocupação com a proliferação ou agravamento do conflito judaico-palestino, muito notado nas décadas anteriores, abre espaço para o reconhecimento de novas ameaças regionais. Estas se compõem pelos levantes islamitas e proeminência do Irã, evidenciados com expressividade após a invasão do Iraque e os movimentos da Primavera Árabe. O grande desafio saudita, a partir de então, é reunir um consenso doméstico e regional em torno da sua liderança, mesmo com a menor presença norte-americana no local, para legitimar seu projeto de segurança que visa a estabilidade e o desenvolvimento interno somado ao equilíbrio de forças com o Irã.

Referências Bibliográficas

ABDULLA, Abdulkhaleq (2010). “Contemporary Socio-Political Issues of the Arab Gulf Moment”. Kuwait Programme on Development, Governance and Globalization in the Gulf States, n. 11.
AHMAD, Talmiz (2013). The Arab Spring: what has changed and what has not. Disponível em: [http://www.arabnews.com/columns/arab-spring-what-has-changed-and-what-has-not]. Acesso em 19/02/2013.
BAHGAHT, Gawdat (2006). Israel and the Persian Gulf: Retrospect and Prospect. 1 ed. University of Florida Press, 192 p.
BILGIN, Pinar (2001). “O significado da segurança no Médio Oriente”. Nação e Defesa, n. 99, 2ª série, pp.149-170.
BORBA, Pedro; BRANCHER, Pedro; CEPIK, Marco (2012). “Arábia Saudita e Segurança Regional após as Revoltas no Mundo Árabe”. Boletim Meridiano 47, vol. 13, n. 130, pp. 44-49.
CARVALHO PINTO, Vânia (2011). “La ola de movimientos pro democracia en Medio Oriente: Análisis preliminar de las consecuencias políticas para la región del Golfo Pérsico”. In: BALLESTÉ, Elisenda; FÉREZ, Manuel (Orgs.). “Medio Oriente y Norte de África:
Reforma, Revolución o continuidad?”. Ciudad de México: Senado de la República Mexicana, 2011.
CHAMS, Ali Ahmad (2012). “Xiitas e a política do Oriente Médio”. Fronteira, vol. 7, n. 14, 2º semestre, pp. 7-23.
DAVIDSON, Christopher (2011). The making of a policy State: Over the last few years, the UAE has become increasingly oppressive. Disponível em:
[http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/04/14/the_making_of_a_police_state]. Acesso em 28/11/2012.
HAJI-YOUSEFI, Amir M. (2009). “Whose Agenda is served by the idea of Shia Crescente?” Alternatives Turkish Journal of International Relations, n. 8(1), Spring, pp. 114-135.
KAMRAVA, Mehran (2011). “The Arab Spring and the Saudi-led Counterrevolution”. Orbis, vol. 56, n.1, Winter, pp. 96-104.
KANTER, Marcelo; PEREIRA, Analucia D. (2012). “As quatro estações do conflito Israel-Palestina”. Ciências & Letras, n. 51, Jan.-Jun, pp. 81-100. Disponível em: [http://seer1.fapa.com.br/index.php/arquivos]. Acesso em 14/02/2013.
ZUCCHI, Luciano K (2012). “Implantação do Estado de Israel e gênese dos conflitos israelo/árabes no Oriente Médio”. VI Seminário de Pesquisa do PPGHS, XIII Semana de História, I Encontro das Especializações em História. Londrina: Universidade Estadual de Londrina.
 
Alan Gabriel Camargo é mestrando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – IREL-UnB. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES (camargo_bariri@yahoo.com.br).

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