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O interesse e os interessados: a intervenção francesa no Mali e seus objetivos, porRicardo Prata Filho

A intervenção francesa no Mali suscita diferentes questões dentro de cenários domésticos e internacionais. Por que o Mali ganha tanta força em um contexto de crise na Europa, instabilidade na Síria e problemáticas parecidas em outros países africanos próximos? E por que a França decide atuar no país especificamente depois de ter recusado intervenções requisitadas em outras de suas antigas colônias? O envolvimento da Al Qaeda, assim como o spill over regional para a Líbia e a Argélia e a situação interna do governo francês entram como peças de uma engrenagem maior e que explicam, de maneira complementar, o desenrolar dos fatos no Mali e o possível futuro político do país e da instável Faixa do Sahel no norte da África.

As problemáticas do Mali são antigas e vêm desde a década de 60 com a independência do país. O grupo étnico denominado ‘Tuaregue’, organizado formalmente pelo Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA), tem pretensões separatistas envolvendo o norte maliano, a principal causa para que tensões sejam constantes. Um passado de golpes de Estado e a intensa repressão aos Tuaregues marca a complexa situação do Mali, em um jogo que envolve violações de direitos humanos e grande número de refugiados. A deposição do presidente Touré em março de 2012 por um golpe militar e a entrada provisória de Dioncounda Traoré no poder por intermédio dos mesmos militares intensifica ainda mais a instabilidade e a retaliação dos Tuaregues por parte do governo.

A inabilidade para controlar as revoltas criou um contexto complexo, fazendo Traoré pedir ajuda à França para lidar com a situação no país em janeiro de 2013. A intervenção no Mali surge, de certa maneira, como tentativa não só de estabilizar a situação, mas também como forma de descoordenar os grupos islâmicos radicais que atuam no norte maliano pregando a sharia (código de leis morais do Islã), vindos das fronteiras com a Líbia e a Argélia e ligados à Al Qaeda. Estes, por sua vez, são constituintes de três grupos principalmente: Movimento para Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO), a Al Qaeda do Magreb Islâmico (AQUIM) e o grupo Ansar Dine. O medo dos países que fazem fronteira com o Mali de que as tensões extrapolem territórios e se estendam para suas terras é um componente bastante delicado, principalmente no caso líbio que também foi alvo de uma intervenção, até então com muitas implicações negativas, em 2011.

Ainda assim, chama atenção a prontidão francesa em atuar no Mali se se comparado à recusa de intervenção na República Centro-Africana (RCA) na mesma época, também ex-colônia da França. As tropas já mobilizadas para o Mali impediriam a ajuda à RCA, contrariando acordos entre a França e esse último? A impopularidade do governo de François Hollande e a crise europeia fazem deste caso um instrumento para a legitimação política, além de uma forma de mascarar implicações internas de uma França desagregada e uma Europa endividada. O pouco verso com a Síria é também um elemento bastante complexo, uma vez que falta traquejo para lidar com a situação e eleger medidas eficientes para uma solução mais ampla, colocando em cheque os grandes atores da comunidade internacional e os membros do Conselho de Segurança, muitos deles europeus, os quais tentam tornar menos visível a insolubilidade do caso sírio.

Em que medida um relativo sucesso da intervenção francesa no Mali minimizaria discussões que dividem o Parlamento da França e aumentam a desaprovação de Hollande como presidente? E como a União Europeia (UE) poderia desenvolver estratégias de estabilização do Sahel sem conseguir ela própria se estabilizar economicamente? O apoio logístico por parte da Inglaterra e da Alemanha fornecem alicerces fortes à ação francesa, fazendo com que a população e a mídia voltem os olhos para o Mali. Ganhar tempo para o estabelecimento de políticas internas e tirar o enfoque de questões domésticas mais problemáticas seria uma manobra relativamente eficaz no contexto que traduz uma configuração cada vez mais emperrada dos governos europeus e da UE como um todo.

Em visita à cidade nortenha libertada de rebeldes islâmicos de Timbuktu no último dia 02 de fevereiro, o presidente François Hollande deixou claro que há muita coisa a se fazer no país, mas que a intervenção francesa não seria a via para que essas lacunas fossem preenchidas. As movimentações da União Africana (UA) e da Comunidade Econômica dos Estados da África do Oeste (CEDEAO) com um apoio militar de Chade, Nigéria, Níger, Burkina Faso, Togo, Senegal, Benin, Gana e Guiné são a aposta da França para a consolidação política do Mali com a criação da Missão Internacional de Apoio ao Mali (AFISMA, sigla em inglês) que tem como chefe o ex-presidente do Burundi, Pierre Buyoya.

Enquanto isso, crimes de guerra são apurados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), sendo que a ONU já trabalha investigando casos de violação dos direitos humanos e pensa em reunir forças para constituir uma frente de construção da paz no Mali. Ademais, o presidente provisório Dioncounda Traoré disse estar disposto a negociar com os Tuaregues do MNLA se a independência do norte não fosse mais reivindicada pelo movimento. Na medida em que a França já pensa em uma retirada, grandes organizações se manifestam em favor do Mali e começam a criar em volta do país estratégias que deem condições para a manutenção de uma paz duradoura, a qual traria grandes méritos para o governo francês ao mesmo tempo em que o mesmo se esquiva de uma pesada e onerosa responsabilidade.

A ação francesa retoma discussões sobre os desafios econômicos e políticos de intervenções. O caso do Mali suscita a organização bastante coordenada da União Africana e coloca em discussão o seu peso dentro do continente. Até que ponto seria necessário reavivar os encargos coloniais? Até agora com a morte de apenas um soldado francês desde a entrada das tropas em território maliano, a França segue incólume nesse jogo e o governo ganha espaço para um melhor aproveitamento de manobras políticas internas. A ideia do Mali como dispositivo de fuga visando à legitimação de Hollande é interessante, mas ainda é um vácuo dentro da opinião da sociedade civil, a qual vê o país africano com aparente indiferença. Com as tropas de soldados programadas para iniciar retirada a partir de março, o presidente francês, e a Europa, por conseguinte, tentam tomar novo fôlego e encontrar um novo ponto de partida.

Ricardo Prata Filho é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL, e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (ricoprata@gmail.com).

Professor e pesquisador da área de política externa brasileira do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB). É editor da Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI (http://www.scielo.br/rbpi) e de Meridiano 47 (http://www.meridiano47.info). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

1 comentário em “O interesse e os interessados: a intervenção francesa no Mali e seus objetivos, porRicardo Prata Filho

  1. Interessante análise. Mas a Alemanha, que é o motor político e econômico da UE, manteve-se à parte, inclusive porque está enfrentando eleições regionais. Não interessa a nenhum país europeu ter outro Afeganistão tão perto de suas portas e portos. Além disso, a destruição do arsenal líbio ex-Gaddafi também é um imperativo estratégico para os europeus. O que vemos hoje é a política do Século XIX em ação, com o apoio dos EUA: as questões mundiais, por menores que sejam, interessam à Europa e aos EUA, não só em razão da instabilidade que podem causar, mas como matérias-primas necessárias às máquinas industrias ocidentais.

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