Na terça-feira, 12 de fevereiro de 2013, as principais agências de notícias e periódicos do mundo tiveram como manchete o terceiro teste envolvendo a detonação de um artefato nuclear explosivo por parte da Republica Democrática Popular da Coreia (RDPC). Os pronunciamentos feitos por chefes de Estado e de Governo condenando o evento, ou mesmo as imagens da televisão estatal da RDPC defendendo e vangloriando o feito foram recorrentes. Mas, ainda no calor deste evento, cabe questionar: O que de fato, foi alcançado pela RDPC? O que significou, em termos concretos, para a RDPC, a realização deste teste? Qual o efeito desejado com a sua execução? O que o governo norte-coreano pretendia, ou pretende, alcançar com essa aparente provocação à sociedade internacional? Buscar respostas para essas quatro questões é o propósito deste texto, cujo objetivo é analisar, à luz das informações disponíveis, o terceiro teste envolvendo a detonação de um artefato nuclear pela RDPC, bem como evidenciar o propósito da sua realização.

Segundo as agências de notícias internacionais, incluindo a Korean Central News Agency (KCNA) a agência de notícias estatal norte-coreana, a RDPC efetuou, na terça-feira, 12 de fevereiro, um teste envolvendo a detonação de um artefato nuclear. As notas diplomáticas dos Ministérios das Relações Exteriores de diversos Estados confirmam essas informações. Os abalos sísmicos de magnitude 5, detectados na região de P’unggye, onde está localizado o campo de testes nucleares da RDPC, foram detectados por sensores da República da Coreia e levam a estimativas de que artefato detonado tinha uma potência explosiva da ordem de 6-7 kilotons. As analises de amostras atmosféricas que confirmarão definitivamente o teste ainda levarão alguns dias para serem disseminadas. De todo modo, as evidências apontam para um teste de potência explosiva superior aos outros dois realizados pela RDPC, em 2006 e 2009, cujas potências explosivas foram, respectivamente, da ordem de 1 e 4 Kilotons.

Neste contexto, a RDPC demonstrou, com este teste, que sua capacidade de detonar material físsil está sendo continuamente aprimorada, principalmente em termos de potência explosiva. Paralelamente, a agencia estatal KCNA afirma que teste envolveu miniaturização de componentes, o que se for verdade, indica que a capacidade de compactação do artefato nuclear explosivo também tem avançado. Assim, a RDPC pode estar caminhando para possuir as chamadas ogivas nucleares, isto é, o artefato nuclear explosivo montado num arranjo específico capaz de ser transportado por um determinado vetor. No caso da RDPC, estes vetores são os mísseis lançados de terra. Nesse sentido, essa mensagem é consonante com os recorrentes testes de mísseis efetuados pela RDPC, que hoje dispõem de capacidade de curto, intermediário e médio alcance (os mísseis No Dong, Taepo Dong 1 eTaepo Dong 2), além do recém lançado Veiculo Lançador de Satélites tipo Unha-3, o que configura uma potencial capacidade de longo alcance.

Outra questão-chave a ser abordada neste artigo é: Pyongyang depende dessas armas para dissuadir os EUA e a República da Coreia de uma eventual agressão à RDPC? A resposta é um categórico “Não”. A dissuasão de uma eventual agressão à RDPC, não considerando o papel desempenhado pela postura da China como Estado garante de última instância da segurança da RDPC, é proporcionado por forças convencionais, notadamente, pela artilharia de longo alcance norte-coreana que ameaça Seul, a capital sul-coreana, com mais de 10 milhões de habitantes e que se encontra a cerca de 40 quilômetros de distância da Zona Desmilitarizada. O Operational Plan 5027 aponta com clareza que sem deslocar quaisquer peças de artilharia, a RDPC poderia sustentar até 500.000 disparos de artilharia, em uma hora, contra as Defesas sul-coreanas e, contra a capital Seul. Assim, sem escalar para o emprego de armas nucleares a dissuasão norte-coreana é uma realidade existente a décadas. Então qual é o propósito real deste programa de armas nucleares, haja vista que seu papel na dissuasão não é primordial e as armas nucleares da RDPC sequer existem? Uma possível resposta seria aumentar a posição de barganha do governo da RDPC, visando auferir vantagens econômicas, principalmente em termos energéticos, essenciais para a manutenção da sua combalida economia. Nesse caso, o programa de armas nucleares desponta como moeda de troca para obter fornecimento de petróleo para as termelétricas norte-coreanas, bem como usinas nucleares para geração de energia e, principalmente, o fim das sanções econômicas norte-americanas, o que possibilitaria um incremento comercial para o país. em outras palavras, uma chantagem nuclear com fins econômicos, um complexo jogo de escolha racional, que Pyongyang vem jogando desde a década de 1990.

Nesse quebra-cabeças estratégico, o governo da RDPC fez seu movimento de forma previamente anunciada. Faz semanas que a KCNA noticia a iminente realização deste teste, o qual foi realizado num momento em que a China comemora seu ano novo, tendo um novo dirigente a frente do Estado chinês e na véspera o presidente Obama efetuar o tradicional discurso do Estado da União perante o Congresso dos EUA. Nada disso convence a este autor, de que os dois governos em pauta foram surpreendidos. Mas, isso é opinião e nãoum argumento, uma vez que que não será sustentado nesse breve artigo.

No que tange à RDPC, a curto prazo, Pyongyang deve esperar mais sanções econômicas por parte a ONU que, no entanto, ainda deverão demorar algumas semanas para que sejam (se forem) implementadas. Até lá, outras opções poderão surgir, no sentido, de atender a barganha de Pyongyang, sem demonstrar para a opinião pública mundial que elas foram atendidas em função de uma chantagem nuclear, algo extremamente difícil de se alcançar, mas não impossível. A questão está longe de se encerrar e as apostas por parte da RDPC estão subindo, não de forma leviana, mas dentro de escolhas racionais que buscam alcançar aquilo que para Pyongyang é o correspondente aos seus objetivos ou interesses essenciais.

Finalizando, é evidente que o tema aqui abordado é amplo e sujeito a análises muito mais profundas e tem potencial para originar trabalhos acadêmicos robustos nas universidades brasileiras. A ideia aqui era evidenciar o propósito maior do teste realizado pela RDPC, ou seu efeito desejado, e desmistificar o que de fato foi e pode vir a ser alcançado por Pyongyang, além de procurar fomentar o debate nesta conceituada publicação digital brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Doutorando em Ciência Política (UFF). Mestre em Relações Internacionais (UERJ) e em Estudos Estratégicos (UFF) e professor da Escola de Guerra Naval (mbvalle2002@yahoo.com.br).

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