A recente intervenção francesa no Mali, que está tendo grande repercussão internacional, envolve também outros estados europeus que estão lhe dando apoio político e logístico, entretanto, a iniciativa é antes de tudo francesa. Mas o que quer a França no Mali? Por que os franceses estão se metendo numa nova guerra longe de casa? Seriam os rebeldes do Mali, de fato, uma ameaça para a segurança da Europa como afirmou recentemente a chanceler alemã Angela Merkel? Quais as intenções dos insurgentes do Mali? O objetivo desse breve artigo é justamente discutir e tentar entender um pouco as questões envolvendo o Jihadismo no Mali e a intervenção militar francesa no país.

Incapaz de controlar e impor a ordem no seu território, o governo do Mali foi buscar apoio externo para conter o avanço dos insurgentes vindos do norte. Vale lembrar que o país passou por um golpe militar em março de 2012, justificado pelos seus perpetradores justamente pela fraqueza demonstrada pelas autoridades diante da atuação de grupos armados, uma vez que, segundo os militares golpistas, o governo não apresentava disposição para o combate e deixou o Exército desamparado e sem condições de fazer frente às investidas dos insurgentes, o que fragilizou ainda mais a precária estrutura governamental.

O Mali vive um clima de conflito em seu extremo norte desde a década de 1990, quando populações tuaregs se revoltaram e desencadearam operações militares contra o poder central. Mas o conflito atual, com o avanço de grupos jihadistas em direção à capital, possui uma conotação diferenciada e marca um novo momento no conturbado contexto político do país.

Outro agravante que colocou ainda mais combustível na fogueira política do Mali foi o retorno de mercenários vindos da Líbia após a queda de Muammar Khadafi. Grande parte deles acabou se juntando aos grupos rebeldes que atuam no norte, com o detalhe que retornaram bem armados e municiados com as “sobras” da campanha na Líbia. Esse aspecto foi decisivo para dar a conformação atual aos insurgentes, com osjihadistas tomando a frente da oposição armada.

Antes da ascensão do jihadismo no norte do país, que é predominantemente muçulmano (cerca de 90% da sua população professa o Islã), o principal grupo que contestava o governo central era o Movimento Nacional para a Liberação da Azawad (MNLA), um movimento notadamente de caráter étnico vinculado ao grupo Tuareg. No caso do MNLA o objetivo é essencialmente político, haja vista que intentam separar a região habitada pelo grupo Tuareg ou, alternativamente, conquistar um alto grau de autonomia frente a Bamaco. O argumento dos tuaregs é que conformam um grupo cultural e étnico específico e que o governo central historicamente deu muito pouca atenção para a região. Enfim, utilizam o argumento do direito à autodeterminação. De toda forma, o MNLA praticamente saiu de cena, uma vez que foi derrotado em confrontos violentos com os jihadistas do MUJAO em meados de 2012.

Mas o que despertou mais a atenção internacional para o país foi a presença crescente de militantes islâmicos radicais atuando no sul da Argélia e no norte do Mali, e nem tanto a atuação do MNLA. Dentre os fundamentalistas se destacam o Ansar Dine e o Movimento pela Unidade e Jihad no Oeste da África (MUJAO). Um aspecto preocupante é que esses grupos jihadistas estão intensificando suas operações na África subsaariana e uma das consequências mais imediatas é a desestabilização política da região, com considerável potencial de crescimento e, naturalmente, acabam se revelando uma ameaça concreta aos interesses Ocidentais, sobretudo franceses, em toda a região. No norte Nigéria, por exemplo, se verifica a atuação de grupos semelhantes com objetivos fundamentalistas. Todavia, é preciso destacar que não há, pelo menos por enquanto, nenhuma aliança entre os grupos atuantes nessa região, a não ser o fato de que alguns são considerados afins à chamada rede Al Qaeda, o que no fundo é até questionável.

O Ansar Dine (Defensores da Fé) surgiu no primeiro semestre de 2012 e sua principal liderança, Iyad Ag Ghaly, foi um quadro ativo do MNLA. Em abril de 2012 começou a ganhar notoriedade internacional quando tomou a cidade de Timbuktu e anunciou a promoção da Jihad contra os oponentes da Sharia. Além disso, seus militantes começaram a destruir monumentos históricos importantes, além de impor a severa lei islâmica (na interpretação da Sharia) às populações sob seu controle, o que causou um grande temor entre muitos habitantes que não tiveram muita escolha a não ser tentar se evadir dessas áreas. Aliás, o objetivo principal do Ansar Dine é justamente impor a Sharia ao Mali e repelir a influência Ocidental sobre o país, nesse caso, predominantemente francesa.

O MUJAO é atualmente o grupo jihadista mais ativo no Mali. Sua estreia ocorreu em dezembro de 2011 e o seu objetivo é lançar a Jihad em toda a África Ocidental, portanto, não se restringindo apenas ao Mali, um dos aspectos que o distingue do Ansar Dine. Além do Mali, o MUJAO está em plena atividade também no sul da Argélia. O grupo conta com apoio internacional e suas forças multinacionais revelam o caráter internacionalista dos grupos jihadistas. Assim, estão presentes em seus quadros militantes do Mali, Somália, Costa do Marfim, Senegal, Gana, Gâmbia, Mauritânia, Argélia, Guiné e Níger.

É de se notar que nenhum desses grupos prega uma Jihad global ou uma ação específica contra o Ocidente. Seus objetivos professados são todos locais, ou seja, limitam-se ao Mali e à região da África Ocidental. Ao passo que o MNLA segue uma lógica político-separatista, os fundamentalistas são movidos pelo sentimento da fé islâmica mais ortodoxa, num contexto em que a grande maioria da população previamente segue o Islã. Mas é fundamental não perder de vista na análise o fato de que todos eles se insurgem contra governantes não afeitos ao diálogo e a concessões políticas, tendo como pano de fundo um país que conta com uma estrutura econômica precária, no qual o Estado não consegue atender minimamente as intensas demandas sociais de sua população, principalmente as parcelas que vivem mais afastadas da capital ou dos centros econômicos mais ativos.

A França entra em cena

No caso do Mali, com esses grupos estabilizados e controlando a maior parte do território do país e sem nenhuma perspectiva de vitória das forças governamentais, a França decidiu colocar sua máquina de guerra para funcionar. Para tanto, buscou apoio político entre os seus parceiros europeus, além dos Estados Unidos, e também assegurou que a intervenção fosse legitimada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. As considerações regionais, ou seja, o envolvimento direto dos africanos para a solução do conflito ficou em segundo plano, pelo menos na perspectiva francesa. Apenas após iniciada a ofensiva militar os franceses se preocuparam, de fato, em desencadear iniciativas diplomáticas para que os países africanos, principalmente os vinculados à Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) se comprometessem efetivamente com o envio de tropas, medida considerada por Paris como de grande importância para dar uma feição “africana” à intervenção.

Tão logo os franceses anunciaram o seu engajamento militar direto, vários países europeus anunciaram apoio logístico para a intervenção, disponibilizando aviões e outros tipos de suporte. De toda forma, o mais importante foi, sem dúvida, o apoio político, haja vista que a rigor a França não necessita desse tipo de ajuda para levar adiante as operações militares no Mali. Os franceses dispõem de bases militares minimamente equipadas e com pessoal experiente na África, sem contar que já estão razoavelmente acostumados a entrar em ação em países africanos, portanto, puderam se mobilizar rapidamente. Ademais, nenhum outro país ocidental se mostrou disposto a se envolver diretamente no conflito no Mali, sobretudo porque pelas suas características seria necessário, justamente como está acontecendo, o emprego do poder aéreo associado a uma investida terrestre, uma vez que o emprego isolado do poder aéreo não seria capaz de trazer resultados práticos.

De toda forma, trata-se de uma arriscada aventura militar. Não  é à toa que muitos analistas preveem que os problemas franceses tendem a se agravar rapidamente. Isso porque é muito difícil imaginar uma vitória rápida sobre os jihadistas, que provavelmente irão evitar o embate direto com as tropas francesas, recuando e se escondendo para depois se reagruparem em unidades menores ou mesmo deslocarem sua atuação para outras áreas. Ou seja, esse tipo de guerra implica numa custosa ocupação efetiva de vasto território por um tempo indeterminado, mas presumivelmente longo.

Uma parte da explicação para a intervenção francesa no Mali é  que a França, como ex-potência colonial, mesmo após o processo de descolonização continuou mantendo a maior parte das suas ex-colônias como zonas de influência. Ou seja, os franceses não se retiraram totalmente da África e mantiveram uma política muito ativa para a maior parte das ex-colônias, inclusive mantendo bases militares em diversos países e interferindo regularmente nos assuntos internos desses países.

Curioso é observar que há um elevado grau de apoio na sociedade francesa com relação a política africana da França. As intervenções e a permanência de bases militares na África são vistos com certa naturalidade, embora seja a França o único país a se comportar dessa maneira. Assim, sucessivos governos mantém um padrão muito semelhante quando o assunto é África, independente se possuem uma conotação de “esquerda” ou de “direita”.

A França teve, ao longo das últimas décadas, um comportamento político deplorável no seu relacionamento com a África. Não é à  toa que muitos ex-ditadores africanos buscaram, em algum momento, refúgio na França, seja para si e os seus familiares, seja para os seus bens (“naturalmente” adquiridos de forma ilícita, às expensas das populações africanas). Ademais, é sempre bom lembrar que no caso do genocídio em Ruanda, ocorrido em 1994, os franceses dispunham de tropas no país e acabaram ficando ao lado dos genocidas, um fato que arranha profundamente a imagem de um país que se considera portador de valores morais e civilizacionais superiores. Muitos líderes africanos, por sua vez, tem a sua parcela de culpa nessa relação, haja vista que a maior parte das ingerências francesas aconteceu – e continua acontecendo – com o beneplácito desses dirigentes, que veem na ex-metrópole a forma mais segura e garantida de manterem-se no poder.

O padrão do relacionamento da França com a África sugere que a afirmação do país como uma potência mundial passa pela permanente tutela dos estados francófonos africanos. Além disso, existem também os interesses materiais, embora esses, por si sós, não expliquem as características especiais da política africana francesa. Mas é sempre bom ressaltar que a exploração dos recursos naturais de algumas das antigas colônias permaneceu sendo uma atividade quase exclusiva de empresas francesas, como a mineração de urânio e outros minerais estratégicos.

É de se notar também uma contradição no discurso francês com relação a África. Recentemente, o presidente da França, François Hollande, chegou a afirmar que o seu governo estava decidido a mudar a tradicional política intervencionista nos países africanos. Sua declaração foi feita quando o presidente da República Centro Africana solicitou apoio militar francês para conter o avanço de grupos insurgentes, que estão bem próximos de Bangui, a capital do país. Embora a França disponha de tropas na capital, Paris anunciou que não iria se envolver diretamente, o que acabou de certa forma forçando os países africanos aliados ao governo da República Centro Africana a agirem, principalmente o Chade.

O grande problema do Mali e de tantos outros países africanos reside na pobreza generalizada e na falta de um poder público que alcance a população. Não é à toa que as revoltas frequentemente surgem na periferia dos Estados, justamente nas áreas mais abandonadas. Enquanto o problema da inclusão social não for enfrentado, as esperanças são poucas. Não há solução estritamente militar para essa questão e o fundamentalismo religioso surge como um elemento complicador a mais em contextos de instabilidade crônica.

É difícil acreditar que o Mali seja uma ameaça para o futuro da Europa, mesmo que controlado por islamitas radicais. Se esse for o caso, é de se prever que a guerra contra os jihadistas não irá acabar tão cedo. Estão aí o Paquistão, o Afeganistão e a Somália para provarem essa assertiva.

Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (piopenna@gmail.com)

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