O livro “On China” é uma tentativa de explicar a forma conceitual do pensamento chinês sobre problemas de ordem internacional, guerra e paz; relacionando-o com os envolvimentos entre China e Estados Unidos ao longo da história.

A obra em si já carrega uma função diplomática, a visão bem mais amenizada do que temos com relação à conduta da diplomacia chinesa e as justificativas de ações condenadas pela comunidade internacional estão fortemente presentes no livro. Essa tentativa de aproximar o leitor aos bastidores dos processos decisórios e de suas dinâmicas não é imparcial e está sempre atrelada a ótica de um diplomata americano, como Henry Kissinger. Por isso, é importante que o leitor tenha sempre um olhar crítico sobre suas afirmações que muitas vezes remontam a sua memória e a acontecimentos em que não há uma documentação como referência, mas apenas o discurso de autoridade pautado na presença do próprio autor nesses acontecimentos.

Apesar das críticas acima, o livro continua sendo uma excelente obra sobre a história da diplomacia chinesa que, infelizmente, não nos proporciona muitas fontes bibliográficas. Essa ausência de fontes ou a impossibilidade de acesso a elas (já que devem existir documentações por parte do governo norte-americanosobre suas missões diplomáticas à China) faz com que Henry Kissinger seja parte de uma história viva das relações diplomáticas China-EUA, no qual as narrativas do autor, de líderes políticos chineses e de outras figuras chave se tornam essenciais para remontar essa história.
As atrocidades contra os direitos humanos por parte do governo chinês são ignoradas, ao longo do livro. Os relatos se resumem às discussões entre os governos, às dependências dos palacetes e as rodas diplomáticas. Muitos dos relatos fora desse escopo tratam apenas das consequências de decisões político-militares no cenário regional e internacional, tendo em foco sempre um nível de análise Estado-sistema.
Acredito que o mais interessante do livro é a imagem que Kissinger constrói do governo chinês. Se compararmos publicações norte-americanas contemporâneas aos eventos diplomáticos China–EUA e as imagens construídas do governo chinês com o livro de Kissinger, é notória a mudança de discurso. Anteriormente, os discursos contra China eram muito mais agressivos e traziam uma carga extremamente negativa. Atualmente, o discurso do livro traz uma imagem positiva não apenas da história diplomática chinesa, mas também, e acredito que principalmente, de seu governo.
Em junho desse ano, Kissinger é recebido pelo Wen Jiabao que o elogia pelos esforços ininterruptos do diplomata para consolidar as relações China-EUA. A nova imagem do governo chinês trazida pelo livro coaduna com os interesses do partido de se estabelecer no cenário internacional de forma mais “estável” com o Ocidente. A conduta chinesa nos âmbitos dos direitos humanos e de seu “imperialismo” regional sempre foi alvo de ataques por parte dos países ocidentais. Essa nova imagem parece ser uma tentativa de combater essa tendência, já “costumeira” ao longo da história, de atacar o governo chinês. O objetivo não é tirar o foco da China, mas sim realoca-lo para suas dimensões consideradas positivas, como a economia.
Grande parte do que trato aqui é um olhar sobre um olhar de outrem. Aqui trago o meu olhar sobre o olhar de Kissinger com relação à história diplomática da China-EUA. Concluo resumidamente em apenas dois pontos. Primeiro, o governo chinês não poderia ter tido melhor presente que este livro. Um discurso tão positivo realizado por uma figura externa e de autoridade, um diplomata americano, e, ao mesmo tempo, interna devido à sua proximidade com a história. Segundo, Henry Kissinger nunca deixou de ser diplomata. Na verdade, nunca exerceu a profissão tão bem quanto agora, já que, segundo o próprio Kissinger, “o equilíbrio de poder inibe a capacidade de derrubar a ordem internacional”.

Referência:

KISSINGER, Henry. Sobre a China. Editora Objetiva, 2011 ISBN: 853900299x
 
Raíssa Vitório Pereira é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL, e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (raissa.vitorio@gmail.com).

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