Desde o início do século XXI, a globalização vem aparecendo como um elemento dinamizador na vida das pessoas. As novas tecnologias que levam a informação às distâncias mais remotas com rapidez, eficiência e a baixo custo, vem permitindo que o indivíduo caminhe no mesmo patamar de importância que outras instituições e organismos, tornando-o capaz de influenciar e modificar a sociedade que até então se conhecia.

Durante a evolução deste processo, tanto o mercado, quanto o Estado estiveram, em algum momento, no centro das relações tanto nacionais quanto internacionais. Todavia, essa realidade foi se modificando no momento em que, com um maior aprofundamento da globalização, a sociedade foi ganhando força e se colocando em uma posição de maior destaque. Acrescenta-se a isto, o novo processo produtivo da Revolução Industrial que acelerou ainda mais o desenvolvimento da globalização, por demandar “novas e sofisticadas tecnologias (…) que trouxeram o aspecto informativo”, fortificando os laços transnacionais e “abrindo margem à formação de grupos de pressão” (PEREIRA JÚNIOR, 2000, p. 7). Neste contexto, os rápidos avanços tecnológicos do computador e das comunicações contribuíram para a revolução da informação(MATIAS, 2005).

O rápido crescimento da informática estaria levando a sociedade a um novo patamar, cuja globalização assume um caráter comunicacional-informacional. A evolução dos meios de comunicação e das tecnologias permitiu que os fluxos de bens, serviços, pessoas, cultura e informação se intensificassem, possibilitando uma maior integração entre os países e a sociedade ao redor do mundo. Nota-se assim, que o poder e alcance da comunicação agrega uma nova força profunda como algo potencialmente global e não somente de opinião pública.

Para o usuário, este ciberespaço contribuiu para a eliminação dos custos de comunicação, além do tempo e da distância. Em consequência, “essa verdadeira revolução na qual as informações são obtidas e disseminadas contribuiu para a consolidação da chamada ‘sociedade da informação’, que caracteriza o século XXI” (MATIAS, 2005, p. 118).

Como resultado deste novo episódio, temos que: à medida que o acesso à internet aumenta; a criação de comunidades virtuais, ou redes sociais também crescem e, consequentemente, os “movimentos instantâneos” de protestos por parte destes usuários tomam grandes proporções no cenário internacional. Por outro lado, e ao mesmo tempo em que o indivíduo foi adquirindo mais força e visibilidade, o poder regulador estatal vem diminuindo, em razão das dificuldades de se controlar o ciberespaço. Ou seja, “em vez de reforçar a centralização e a burocracia, as novas tecnologias de informação tendem a promover organizações em rede, novos tipos de comunidade, assim como a demanda de diferentes papéis para o governo”. Nye (2002, p. 100-101) caracteriza como “tecnologias da liberdade”.

Nesse mesmo raciocínio, Beck (1995, apud PEREIRA JÚNIOR, 2000) reforça a mensagem de que o indivíduo está, de fato, se reaproximando do centro de poder, denominado, por ele, como subpolítica. Afinal, tudo isso se trata da possibilidade que as pessoas têm agora de exercerem a política para além das fronteiras, fazendo prevalecer suas vontades em âmbito global.

Nestes termos, as revoltas do mundo árabe de 2011 expressam exatamente este novo momento que a sociedade global está vivendo. A falta de perspectivas para o futuro em um universo em que o desemprego predominava, a população vivia marginalizada e sem perspectivas motivou fortemente as pessoas a buscarem por melhorias imediatas através da internet.

Embora cada país do mundo árabe tenha tido um desenrolar diferente nas revoltas, o sentimento de descontentamento com as políticas nacionais foram em geral comum a todos, sendo este o epítome dos protestos. Em um ambiente em que predominantemente a população jovem chegava mais instruída e com mais facilidades de acesso à informação; os governos ditadores dominantes, que há anos estabeleciam uma mesma conduta política; a alta no preço dos alimentos e a baixa oferta de emprego foram para a sociedade o principal pilar das revoltas, cujo objetivo era lutar contra toda esta estrutura defeituosa.

Ao atear fogo contra seu próprio corpo em forma de protesto às péssimas condições de vida impostas pelas políticas públicas de um governo ditador que há anos dominava o poder; um jovem tunisiano chocou o mundo por dar início a uma série de revoltas que culminariam com a queda de alguns dos regimes políticos mais conservadores e estáveis da região, inclusive o do presidente tunisiano Ben Ali. A partir deste momento, a comunidade internacional se deparava, então, com uma onda de protestos pela região, que atingiu os governos do Egito, Iêmen, Bahrein, Jordânia, Síria e Líbia.

Essa massa insatisfeita fez uso das novas tecnologias e das mídias sociais, como telefones celulares, mensagens de texto, redes sociais e da internet para convocar o povo às ruas e juntos protestarem contra o governo. O Twitter era usado para a marcação de encontros pelos ativistas e para a disseminação de informações sobre o protesto. O Facebook era utilizado para debates, divulgação de locais e hora dos protestos, fotos e vídeos. O YouTube servia como ferramenta de armazenamento de vídeos.

Ao saber do início dos levantes e do uso das ferramentas tecnológicas como uma arma mais eficiente, tanto no Egito quanto na Líbia, o governo decidiu cortar o acesso à internet.Esta atitude foi sintomática ao fato de que era imprescindível a existência da internet e das redes sociais como uma ferramenta organizadora naquela região. Ou seja, o ato de encerrar com a comunicação significa admitir que de fato houvesse grande acesso à internet, às redes sociais e, consequentemente, às novas ideologias e que este mecanismo tinha grande força naquele contexto. Vale ressaltar que mesmo o Estado tendo bloqueado o acesso a esse meio de comunicação, o conteúdo nele colocado e não controlado pelo governo atingiu outras regiões, demostrando assim a capacidade de disseminação da internet.

Para Ghannam (2011), o poder das mídias sociais e das novas tecnologias, principalmente, da telefonia móvel provaram ser uma grande ameaça para os governos que não agradam as massas. Friedman (2011) inclui no debate a dimensão que tudo isso vem tomando no cenário internacional. Para este autor, na Europa, o baixo custo da internet móvel usada em smartphones transformou o mundo de conectados para hiper-conectados. Castells (2011) denomina a capacidade criada pelas tecnologias, de rapidez na mobilização, de “auto-comunicação de massas”.

A Primavera Árabe, para Bava (2011), trouxe muitas surpresas, porém, muito mais importante que isso, são as lições tiradas desta situação. Em um mundo cada vez mais globalizado, as experiências vividas em qualquer país servem de referência para o mundo inteiro. Para ele, o sucesso das revoltas no Egito e na Tunísia mostrou o caminho para muitos outros povos.

Observa-se com isso, uma maior multiplicidade e horizontalidade desse fenômeno comunicacional e informacional. Castells (2012) enfatiza que, o mais importante é a ideia de articulação dos meios de comunicação tradicional de massa com os novos espaços sociais oferecidos pela internet. Nota-se com isso, um claro processo de convergência tecnológica interativa, e implica a renuncia a qualquer controle vertical que ainda resta à comunicação.

Diante disso, é possível perceber que em um mundo cada vez mais tecnológico, a tendência para que tudo se dê nesse ambiente é muito grande. Spitzcovsky (2011) destaca que “nenhuma sociedade hoje passa incólume a esses fenômenos globais”. Para o autor, como tendência, “parece inquestionável o fato de que, a pressão por mais liberdades civis e mais prosperidade tende a crescer” no mundo contemporâneo. E, o cenário global caminha, ainda que não de maneira linear, para um ambiente cada vez menos favorável para sistemas economicamente ineficientes, como foi o caso da região árabe.Dessa forma, produz-se uma tendência comum de que a capacidade de expansão das lutas sociais ganha força com o processo de difusão de informação e coordenação do pessoal.

Por fim, é possível olhar para o mundo por uma nova perspectiva: a de que a sociedade moderna é sim capaz, hoje, de iniciar uma nova era em que é viável a materialização de suas queixas que se iniciam no ciberespaço. Nesse sentido, pode-se esperar uma sociedade cada vez mais presente, por ser construída em um sistema em que os avanços industriais e tecnológicos crescem rapidamente.

Referências:
BAVA, Silvio Caccia. A volta das revoluções. Le Monde Diplomatique Brasil. Set 2011. Disponível em: <http://diplomatique.uol.com.br/edicoes_especiais_editorial.php?id=7&PHPSESSID=f0e9f0d74af41479b9dabca4a5e27ff1> Acesso em: 29 set 2011.
BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott.Modernização Reflexiva. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista. 1997. 227 p.
 CASTELLS, Manuel. [9 de maio, 2011]. Brasília: Rede de Tecnologia Social – RTS. Entrevista concedida a JordiRovira. Disponível em: <http://www.rts.org.br/entrevistas/manuel-castells-sociologo-e-diretor-do-instituto-interdisciplinar-sobre-internet-na-universitat-oberta-de-catalunya> Acesso em: 11 ago 2011.
__________. Todos los gobiernos odian internet. [04 de janeiro, 2012]. Espanha. RTVE: Europa Abierta. Entrevista concedida a Sergio Martín. Disponível em: < http://www.rtve.es/alacarta/audios/europa-abierta/europa-abierta-manuel-castells/1286978/ > Acesso em 05 mai 2012.
 FRIEDMAN, Thomas L. A Theory of Everything (Sort Of).The New York Times. 13/08/2011. Disponívelem: <http://www.nytimes.com/2011/08/14/opinion/sunday/ Friedman-a-theory-of-everyting-sort-of.html>Acessoem: 15 ago 2011.
GHANNAM, Jeffrey. A revolução das redes sociais? O Globo, 21/02/2011. Ministério das Relações Exteriores. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-globo/2011/02/21/a-revolucao-das-redes-sociais-artigo/?searchterm=redes sociais> Acesso em: 03 ago 2011.
MATIAS, Eduardo Felipe P. A Humanidade e suas Fronteiras: do Estado Soberano à Sociedade Global. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
 NYE JR., Joseph. O paradoxo do poder americano: por que a única superpotência do mundo não pode prosseguir isolada. São Paulo, SP: Editora UNESP, 2002. 293p.
PEREIRA JÚNIOR, José Romero. O lugar do Estado e do Indivíduo no Capitalismo Informacional Globalizado. 2000. 74f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Departamento de Relações Internacionais, Universidade de Brasília, Brasília. 2000.
SPITZCOVSKY, Jaime. Onda global de mudança atinge mundo árabe. Paz Agora.org. 2011. Disponível em: < http://www.pazagora.org/2011/onda-global-de-mudanca-atinge-mundo-arabe/ > Acesso em: 05 mai 2012.
 
Viviane Brunelly Araújo Tavares é Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília – UCB (vba.tavares@gmail.com).

3 comentários »

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.