A lógica relacional assimétrica de negociações no sistema internacional tem introduzido crescentemente uma série de estímulos externosque se acumularam ao longo do tempo e que acabaram gerando alguns padrões de respostas internas por parte dos Estados-Nacionais, como é o caso da adesão a estratégias plurilaterais, regionais e multilaterais.

Os estímulos engendrados nas relações internacionais durante a re-emergência do capitalismo liberal determinaram como resposta, no caso do Brasil, a reformulação do papel do Estado, especialmente no campo econômico, onde o mercado ganha status de principal promotor do desenvolvimento, sendo que, houve o estimulou à participação deste país em fóruns multilaterais como o G20; em arenas plurilaterais de países emergentes por meio de iniciativas como a CPLP, BRICS e BISA; e finalmente em projetos de integração regional, como o MERCOSUL e a UNASUL[1].

Destarte esta matriz de negociações internacionais registrada pela política externa lato sensu do Estado brasileiro tem profundo impacto na consolidação de um padrão geoestratégico de relações internacionais, ao caracterizar o país como uma potência média[2]que procura destaque no espaço multilateral e liderança no espaço regional a partir um padrão caracterizado por uma grande estratégia informal que se sedimentada por ações econômicas paradiplomáticas de suas empresas, bem como por ações governamentais de caráter político-diplomático e político-militar.

Ao tomar como referência estas discussões, é possível compreender a projeção internacional brasileira ao se tomar como referência de análise duas pilastras tripartites construídas por vetores verticais e horizontais, as quais são representadas por diferentes níveis, tanto de espacialidade, quanto de participação de atores com interesses específicos, identificados simplesmente como stakeholders.

Em primeiro lugar, observa-se a caracterização geoestratégica por meio de horizontalidades concorrentes de impacto na política externa lato sensu por meio da agregação de vetores político-diplomáticos (política exterior), político-militares (política de defesa), e vetores econômicos (políticas econômicas e ações paradiplomáticas).

A consolidação de uma cultura estratégia que influencia a política externa brasileira é o fruto relacional de vetores sincrônicos e assincrônicos, nem sempre convergentes, que vão se cristalizando conjunturalmente na curta duração e estruturalmente na longa duração por meio da difusão de processos institucionais diplomáticos e militares e da extroversão paradiplomática de atores empresariais.

De um lado, as concepções institucionais trazidas por diplomatas e militares se materializam na projeção internacional de modos distintos, uma vez que os primeiros se adaptam rapidamente às dinâmicas internacionais através de uma alta profissionalização e negociações em múltiplas arenas, em contraposição aos militares, os quais, desde a redemocratização, passam por um forte ostracismo e sem modernização do desenho das forças armadas, o que os conduziu a uma passiva posição restrita a políticas regionais de cooperação ou a multilaterais missões de paz.

De outro lado, a internacionalização de empresas brasileiras, baseada em estratégias primárias (exportações) e secundárias (investimentos externos diretos), tem conduzido à extroversão de um forte fenômeno paradiplomático de caráter regional e multilateral após o período das reformas neoliberais na década de 1990, diante do aumento forçado da competitividade de empresas, em especial do setor de commodities agrícolas e minerais, aproveitando-se de um padrão de acoplamento ao boom de crescimento econômico da China e de seu entorno regional asiático.

Em segundo lugar, é verificada a caracterização geoestratégica da participação brasileira na atual dinâmica das relações internacionais por meio de verticalidades espaciais de negociação em órgãos de caráter multilateral, blocos de natureza regional, ougrupos emergentes de atuação plurilateral em função da participação específica de cada stakeholder nacional.

Os raios de projeção internacional difundidos pelos atores nacionais na política externa brasileira podem ser visualizados pela conformação de um tabuleiro internacional onde as ações internacionais militares, econômicas ou diplomáticas incidem espacialmente, fragmentado-se verticalmente em escalas multilaterais, plurilaterais ou regionais.

As negociações diplomáticas de caráter norte-sul da década de 1990 foram sendo gradativamente substituídas por lógicas de cooperação sul-sul, com o aumento do spaghetti bowl de iniciativas de caráter regional, como o MERCOSUL e a UNASUL, ou negociações plurilaterais via grupos comerciais e financeiras como a CPLP, BISA, BRICS e G20, findando pressionar novas formas de participação política internacional ou fazer avançar temáticas com travamento em negociações multilaterais (Einaudi, 2011).

Já os canais verticais de projeção internacional das forças armadas e de empresas brasileiras foram se concentrando no entorno regional, seja por iniciativas de segurança cooperativa ou de estratégias de exportação e investimento externo direto, embora seja registrada uma crescente agenda de internacionalização de corporações brasileiras em termos multilaterais, ou por um crescente contato plurilateral das forças armadas nacionais para uma possível modernização da estrutura de força por meio da compra de equipamentos e transferência tecnológica junto a potências externas à região (Senhoras, 2010).

Com base nas verticalidades e horizontalidades que definem o padrão de projeção internacional do país é possível visualizar que para uma melhor compreensão sobre os atores, os temas e escalas de análise que afetam ou conformam a estratégia internacional da política externa brasileira lato sensu faz-se necessário, portanto, definir as relações, as lógicas e campos de poder, que não estão, necessariamente, materializados em uma grande estratégia, mas antes são perceptíveis por traços de uma cultura estratégica.

Referências bibliográficas
 
EINAUDI, L. R. (2011). “Brazil and the United States: The need for Strategic Engagement”. Strategic Forum, n. 266, March.
MARTINS, F. T. (2005). “A política externa no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso: a articulação regional e a integração sul-americana (1995-2002)”.Anais do XXIII Simpósio Nacional de História. Londrina: Uel-Anpuh.
SENHORAS, E. M. (2010). “O surto rearmamentista na América do Sul”. Revista Meridiano 47, vol. 114.
 
Elói Martins Senhoras é economista e cientista político, especialista, mestre, doutor e pos-doutorando em Ciências Jurídicas. Professor da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloisenhoras@gmail.com).


[1] A dinâmica internacional, em sua natureza espacial, tem, crescentemente, sido baseada pela formação de múltiplas arenas de poder, a qual, muitas vezes tem sido identificada por uma lógica de complexidade, cuja reticularidade confere formatos do tipo spaghetti bowl, ou, mesmo, de sopa de letrinhas. Destaca-se no texto, a participação brasileira no G20 – Grupo de países com o maior tamanho econômico no mundo; CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa; BRICS – Grupo de potências emergentes, composto, respectivamente, por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; BISA – Fórum trilateral Brasil-Índia-África do Sul; MERCOSUL – Mercado Comum do Sul; e, finalmente, UNASUL – União Sulamericana de Nações
[2] “Dentre os aspectos importantes para a classificação das Potências Médias destacar-se-iam: o papel dos países frente aos processos decisórios internacionais, sua inserção regional, a dimensão e qualidade territorial e populacional, a produção agrícola, industrial, energética e mineral, o bem-estar e a integração nacional, a sua capacidade militar, seu status diplomático, sua taxa de importações e exportações, entre outros. […] O traço mais marcante entre elas, ainda que em proporções e combinações distintas, é o fato de ocuparem uma posição intermediária no sistema internacional global com sua conseqüente condição de system-affecting states e, de outro, participando intensamente dos sistemas regionais e sub-regionais onde se encontram. Seria na combinação dessas duas vertentes que as Potências Médias se destacariam como atores relevantes, atuantes e estruturantes do sistema internacional” (Martins, 2005: 08).

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