Recentemente, o presidente colombiano Juan Manuel Santos anunciou publicamente a abertura de uma nova rodada de diálogos entre o governo e as FARC, grupo paramilitar que ata em todo o país desde 1964. Dentre uma série de crimes, a milícia é internacionalmente reconhecida por ser portal facilitador para o tráfico de drogas no país e, ainda, pelos não esporádicos sequestros a personalidades internacionais, como o da senadora franco-colombiana Ingrid Bittencourt, em 2002.

A reaproximação entre o governo da Colômbia e as FARC com o objetivo de um possível acordo de paz não é uma novidade na política colombiana e, mais que isto, encontra-se construído sobre os escombros de tentativas mal sucedidas, como aquelas entre 1998 e 2002 – encabeçadas pelo então presidente Pastrana. Santos, inclusive, inicia a fase inicial do processo de negociação esperando “não cometer erros do passado”, como declarado em entrevista recente. Por outro lado, ao mesmo tempo em que Santos se coloca aberto ao diálogo com o grupo, o presidente também se colocou de forma incisiva quanto ao cessar-fogo proposto pelos paramilitares.

O cenário colombiano atual atrai lentes para não somente o processo de negociação como um todo, mas, também, para os avanços, retrocessos e dilemas colocados tanto por Santos quanto pelas FARC. Desta forma, é necessário observar a reaproximação entre o governo da Colômbia e o grupo paramilitar em perspectiva comparada, com o objetivo de responder a seguinte pergunta: quais as nuances globais e institucionais que fazem a nova rodada de negociação diferente daquela trabalhada décadas atrás?

Em primeiro lugar, é preciso sublinhar, em perspectiva, as posições colombianas tanto políticas como econômicas em ambos os momentos de negociação. O período de 1989 – 2002 é lembrado pela comunidade internacional como preocupante para a Colômbia. Visto por muitos analistas como um “Estado falido” à época, o país se encontrava à beira do colapso, com uma produção econômica aquém do esperado e, ainda, dominada pelas forças paramilitares e suas atividades correlatas, como o tráfico de drogas e armas. No período, as FARC eram defendidas por mais de 16.000 guerrilheiros, formando um contingente consideravelmente ameaçador ao governo colombiano. Com isso, a ideologia política atrelada às FARC é observada de forma mais incisiva à época, contribuindo para atividades mais frequentes e estrategicamente mais bem traçadas pelo grupo.

Por outro lado, Santos, ainda que a passos lentos, coloca a Colômbia em posição privilegiada quanto ao grupo paramilitar. A economia colombiana é atualmente considerada a segunda maior da América do Sul, com um PIB de US$ 362 bilhões – de acordo com o ministro da Fazenda do país, Juan Carlos Echeverry -, contra os US$98 bilhões, alcançados ao fim do mandato de Pastrana, de acordo com dados do Banco Mundial. Com isso, a credibilidade do governo colombiano em sanar os problemas de segurança nacional volta à tela, com condições reais de concretização. Alinhado a isso, observa-se uma significativa queda do contingente paramilitar das FARC, principalmente após a morte de seus principais líderes, como Manuel Marulanda, responsável pelas negociações entre o grupo e o governo no período de 1989 a 2002. Desde então, tem-se observado uma queda constante no número de soldados paramilitares, refletindo, assim, em um novo rearranjo quantitativo e qualitativo da estratégia de atuação do grupo. É necessário, ainda, sublinhar que tal cenário alcançado por Santos é um fruto do novo movimento articulador observado ainda no governo de Uribe, no qual a prática real de minimização da violência no país – incluindo as FARC – tornou-se latente.

Ainda, a preocupação da comunidade internacional em eliminar a atividade criminal das FARC na Colômbia deve ser observada na nova fase de negociação. O avanço da transnacionalidade criminal colombiana tem alcançado níveis alarmantes, em especial quando tais crimes afetam de forma direta a economia de grandes potências, como o Brasil e os Estados Unidos. Muito se diz a respeito de uma contemporânea aproximação entre as FARC e a máfia russa, alinhando seus trabalhos para a expansão do tráfico de drogas na África. Desta maneira, o apoio internacional ao governo colombiano vem tomando novos rumos, refletindo em maior segurança e capacidade de operacionalização do combate ao tráfico por parte do governo da Colômbia. Observa-se, agora, uma participação ativa de novos atores no processo de negociação, como os governos da Noruega, de Cuba e da própria Venezuela, atribuindo, assim, maior credibilidade ao processo de negociação.

É certo que, desta vez, o governo de Santos está se projetando de maneira privilegiada no novo processo de negociação, estando em condição de “colocar [moderadamente] as cartas sobre a mesa”, ainda na primeira rodada de conversas, que ocorrerá em novembro em Oslo. Além disso, a nova estratégia traçada pelo governo colombiano coloca em evidências medidas mais realistas, diretas e atreladas aos benefícios de ambas as partes, ao contrário, por exemplo, da sugerida “zona de desmilitarização” levantada à época e que, ainda que apoiada por ambos os lados, não obteve sucesso.

Neste contexto, torna-se possível argumentar que o os cenários de negociação entre as FARC e o governo colombiano com o objetivo de uma resolução pacífica estão arquitetados como uma “gangorra”, na qual se observa atualmente a “subida” do governo colombiano e a “descida” das FARC no que tange aos poderes de barganha, considerando que tal colocação era inversa há pouco tempo. Ainda que as deficiências de mercado que o tráfico de drogas e os sequestros realizados pelo grupo sejam variáveis intrínsecas em favor do grupo, é observável que o mesmo não possui tamanho poder de barganha como anteriormente para manter exigências requintadas a seu favor, embora o próprio propósito de Santos de que “um possível acordo de paz não implica na desativação do grupo” já o seja.

A mudança abrupta de cenário favorável ao presidente Santos, caracterizada pelo enfraquecimento das FARC e o crescimento econômico, político e, acima de tudo, moral, do governo colombiano contribuem para um possível resultado mais positivo nas rodadas de negociação, se comparado àquelas entre 1989 e 2002. Entretanto, é necessário um pouco de ceticismo ao desenhar resultados otimistas para o processo em questão. A existência das FARC há mais de 50 anos nas raízes da cultura, economia e política colombianas ainda traduz-se em opiniões relativamente difusas da população civil quando ao real papel do grupo paramilitar. Será necessário ao presidente Santos, portanto, lidar o processo de negociação com cautela, de forma a alinhar interesses governamentais e o status quo da sociedade colombiana, peça central para a aceitação da nova governança de Santos contra a atividade paramilitar no país.

Rodrigo de Sousa Araújo é bacharelando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB, membro do Programa de Educação Tutorial de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (rsousa.rodrigo@gmail.com)

1 comentário »

  1. En la primera parte existe un error sobre las FARC, estas son una organización guerrillera constituidas en contra del Estado por lo que no pueden ser consideradas paramilitares, de ahi el análisis carece de sustento teorico, pues hace relación al paramilitarismo que existe en Colombia como una fuerza contraria, donde sus principales cabecillas han sido extraditados a EEUU, por trafico de drogas. el texto no hace relación a la realidad colombiana, confunde dos temas y los toma como uno, cuando estos dos son completamente distantes. Le recominiendo documentarse mejor para un nuevo análisis, pues como esta elaborado confunde al lector.

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