Desde março de 2011, o mundo assiste a violentos conflitos em território sírio. A chamada Guerra Civil Síria (definição de Navanethem Pillay) segue, mesmo após milhares de mortes, sem perspectivas de término, seja por vitória militar de uma das partes, seja por intervenção estrangeira. Sobre esse assunto, diversas potências já se manifestaram. Causa estranheza, todavia, o aparente desinteresse de Israel pela questão.

Os Estados Unidos da América várias vezes expressaram repúdio às ações do governo sírio. Ainda em 2011, Washington declarou ter o governo Assad perdido sua legitimidade e, extrapolando a retórica, impôs sanções econômicas contra o país árabe em agosto daquele ano. Os norte-americanos, ainda, apoiaram seguidas propostas de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas contrárias à Síria. Além dos Estados Unidos, diversos países europeus (como Reino Unido e França) e mesmo Estados árabes (como Arábia Saudita e Catar) fizeram declarações e tomaram medidas contra o governo de Assad.

Muitos países, entretanto, posicionaram-se ao lado do governo sírio.  A Federação Russa, há muito aliada ao regime do Ba’ath sírio, declarou-se contrária a qualquer intervenção militar estrangeira naquele país, temendo que o conflito evolua tal qual o líbio. Por essa razão, Moscou vetou todas as resoluções que instituíssem ações contrárias ao governo Sírio, ou mesmo que o condenassem pelas mortes de civis. A posição Russa próxima ao regime de Assad foi seguida por países e organizações internacionais como China, Irã e ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos das Américas).

Dentre grande repercussão internacional quanto ao conflito sírio, chama atenção a pouca atuação do principal inimigo daquele país. Israel, que por três vezes já esteve em guerra com a Síria e que em 2006 bombardeou o Líbano após o sequestro de dois soldados judeus pelo Hezbollah, mostra-se pouco interessado em reagir com tamanho ímpeto mesmo após as dezenas de milhares de mortes causadas por um governo hostil. Essa falta de ação gera o questionamento: seria para Israel interessante a manutenção de seus inimigos do Ba’ath no governo sírio?

Historicamente, a relação entre a Síria governada pelo Ba’ath e o Estado Israelense mostra-se bastante conturbada.  Em meados da década de 1960, quando Hafez al-Assad (pai do atual chefe de governo sírio) era Ministro da Defesa daquele país, tornou-se comum o bombardeio de assentamentos judeus no norte de Israel por parte da artilharia síria. As ações contrárias ao Estado judeu não se restringiram, entretanto, a tais ataques.  Passadas a invasão e subsequente conquista das Colinas de Golã por parte dos israelenses em 1967, bem como o fim de ações militares do exército sírio contra civis judeus, não se pôde notar melhora nas relações entre os dois países. A Síria, agora governada por Hafez, posicionou-se contrária aos tratados de paz entre Israel e Egito de 1979 e patrocinou ataques de grupos terroristas contra cidades israelenses. O governo sírio, ainda, tomou parte na Guerra Civil Libanesa, na qual lançou mão de milícias contra as tropas israelenses estacionadas no sul. Na atualidade, a Síria mantém laços com grupos terroristas como o libanês Hezbollah, que efetua ataques contra o Israel.

A evolução histórica das agressões perpetradas contra Israel pelo governo sírio do Ba’ath mostra-se obviamente desinteressante ao Estado judeu. Contra os Assad, Israel enfrentou forte oposição internacional, duas guerras diretas e incontáveis ataques terroristas patrocinados pelo governo sírio, notadamente nas décadas de 60 e 70. Apesar desses ainda recorrentes ataques, entretanto, pôde-se observar uma tentativa de aproximação entre os governos sírio e israelense após a queda da União Soviética. Nos anos 90, apesar de ainda considerar o Estado de Israel como seu principal inimigo, Hafez al-Assad acenou a possibilidade de discussões de Tratados de Paz, desde que a Síria recuperasse o controle das Colinas de Golã. Apesar de não evoluírem, tais declarações de Assad pai serviram de base para ainda maior aproximação do regime árabe com Tel-Aviv no governo de seu filho. Bashar al-Assad, apesar de manter-se aliado a certos grupos terroristas, declarou publicamente ser contrário ao Hamas e, mediado pela Turquia, iniciou conversações por um tratado de paz com Israel em 2007. Talvez por essas razões Assad filho tenha sido considerado um “político reformista” por congressistas americanos, gozando de boa reputação entre estes.

A guerra-civil em curso na Síria, entretanto, mudou a retórica ocidental quanto ao regime sírio. O outrora líder reformista é agora taxado por potências ocidentais como um mau governante, desrespeitoso a seus cidadãos e sem legitimidade. Sua queda, entretanto, acarretaria diversas ameaças à segurança de Israel. No caso da deposição de Assad, o governo sírio provavelmente cairia nas mãos do Conselho Nacional Sírio, controlado pela Irmandade Muçulmana daquele país. Esse movimento político-religioso, presente em quase todo o Oriente Médio, mantém como uma de suas afiliações o Hamas, grupo terrorista palestino que controla a Faixa de Gaza e que de lá lançou, nos anos 2000, cerca de 9000 foguetes contra o sul de Israel, levando a 28 mortes. Tal situação não apresenta melhora significativa, tendo em mente os cerca de 500 ataques ao sul de Israel partidos de Gaza até agosto de 2012 registrados pela imprensa israelense. Cabe lembrar, ainda, que políticos ligados à Irmandade Muçulmana já controlam Egito e Líbia. Esse grupo, apesar de apresentar-se atualmente como moderado, tem ligações históricas com o wahhabismo (movimento muçulmano conservador surgido no século XVIII), que defende a aplicação literal da sharia (lei islâmica). Seu fundador, Hassan al-Banna, um clérigo muçulmano, advogava a aplicação universal daquela lei. No caso de sua ascensão ao poder também na Síria, Israel ver-se-ia cercado por países controlados por um grupo de ideologia e atitudes futuras ainda incertas, com viés extremista e ligado a uma das maiores organizações terroristas que agem contra Israel na atualidade.

É evidente, portanto, que o regime de Bashar al-Assad mostra-se, na visão estratégica israelense, como o menor de dois males. Enquanto o regime do Ba’ath garante a Israel alguma certeza quanto a suas políticas, o provável governo sírio pós-Assad apresenta-se em um véu de incerteza quanto a suas ações. Enquanto Assad mantém certos laços com um grupo terrorista libanês, a Irmandade Muçulmana apresenta intrínseca conexão com um grupo terrorista palestino, atuante dentro do território israelense. Por fim, enquanto o governo sírio movimentava-se rumo a um tratado de paz com Israel, não se pode ter certeza quanto à atuação diplomática de um futuro governo sírio ideologicamente ligado ao Hamas.

Considerando essas diferenças, é provável que Israel mantenha sua pouca ação no tocante ao conflito sírio. Apesar de não ver o regime sírio com bons olhos – ele mantém laços estreitos com Irã e Hezbollah – Israel tende a restringir suas ações contra Assad à afiada retórica de seus líderes. O risco estratégico corrido por Israel, no caso da queda de Assad, torna improvável qualquer ação militar direta de Tel-Aviv contra Damasco. É cada vez mais provável que, devido a seus interesses estratégicos, Israel mantenha seus soldados dentro de seus quartéis por vários meses, independente de deterioração da guerra-civil em seu vizinho do nordeste.

Pedro Henrique de Souza Netto é graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB e membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais – PET-IREL/UnB. (pedro.hsnetto@gmail.com)

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