As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia surgiram em 1964 e perduram até 2012, configurando-se como o grupo armado mais antigo da América Latina. Durante esses 48 anos, o governo da Colômbia procurou acabar com o grupo em diversas situações, fosse por meio de acordos, fosse através de luta armada. Assim, acreditar que as negociações que começaram a se esboçar em agosto acontecerão de maneira simples e pacífica é irrealista. Ainda que atualmente as FARC tenham perdido muito de sua força inicial (o grupo já chegou a conter 20.000 guerrilheiros), elas estão longe de poderem ser consideradas como pouco relevantes no cenário político-social.

As FARC afirmaram que suas principais reivindicações ao governo colombiano serão a reforma agrária e a inserção política. A maior tensão entre o governo e as FARC provavelmente se dará na questão da reforma agrária, assunto crucial para o grupo desde sua fundação. Todavia, o governo dificilmente cederá à reforma, já que isso traria fortes chances de que grandes proprietários de terra se voltassem contra o governo de Santos, talvez até mesmo de maneira violenta. O governo atual não teria vantagens em se indispor com os grandes produtores, já que estes contribuem crucialmente para a economia do país. Sendo assim, as discussões sobre reforma agrária apresentarão um impasse, que arrastará as discussões. A provável recusa do governo em aceitar a reforma agrária, entretanto, não deve implodir as negociações, desde que ele esteja disposto a ceder em outros pontos importantes, como a inserção política de membros das FARC.

A reivindicação de inserção política é a mais realista feita pelas FARC e a qual o governo colombiano possivelmente estará mais disposto a aceitar, porém isso não significa que será um ponto de pauta mais fácil – pelo contrário. Se o governo colombiano se recusar a discutir a reforma agrária, haverá apenas uma dissuasão do governo para que as FARC aceitem ignorar tal questão. A inserção política, entretanto, se vista com mais aceitação por parte do governo, deverá ser minuciosamente discutida, já que envolve dilemas de difícil concordância sobre quais membros ganharão participação na política.

Exatamente por isso, as possibilidades de Santos concordar com a inserção política são grandes, mas com ressalvas. A guerrilha conta com elevado número de criminosos, não só na Colômbia como em outros países. As FARC chegaram até mesmo a ensaiar a apresentação do nome de Simón Trinidad, detido nos EUA, para as negociações com o governo. Por isso, as escolhas dos nomes que poderão seguir uma carreira política deve alongar as negociações ainda mais. No final, o acordo provável que será feito entre a guerrilha e o governo com relação ao assunto será a possibilidade de participação política àqueles que não tiverem cometido crimes graves e/ou tiverem participado das negociações de paz. Assim, grande parte do grupo ainda se manterá fora das decisões políticas, o que pode vir a apresentar complicações futuras.

Todavia, ainda que o governo preferisse não dar a possibilidade de participação política aos guerrilheiros, ele não possui muitas alternativas se deseja acabar com o conflito de maneira pacífica. Tal inserção se mostra o caminho natural para uma guerrilha que surge com forte cunho político e que deixa de ver o conflito armado como uma meio de atingir seus idéias político-sociais.  As FARC estariam seguindo o mesmo padrão do grupo irlandês IRA, que também abandonou a guerrilha pela inserção na política, em 2005.

Dessa forma, pode se concluir que as afirmações do presidente colombiano Juan Manuel Santos de que as negociações poderão ser contadas em meses, não anos, dificilmente se concretizarão. Afinal, um conflito que dura quase cinqüenta anos, com visões e ideologias políticas completamente contrárias as do governo, certamente terá suas negociações de paz como uma questão política de difícil resolução. Tal fato fica claro quando se analisa as outras duas tentativas de acordo entre a milícia e o governo, que fracassaram devido a atitudes de ambas as partes. As negociações iniciadas em 2012 já demonstram que também serão controversas, considerando-se reivindicações feitas pelas FARC.

As divergências e as dificuldades para que se encontrem soluções, entretanto, não devem afetar as negociações de paz a ponto de que o fim da milícia armada não se concretize. Todavia, o ponto mais importante de toda a reflexão sobre o fim das FARC é a grande chance de que ele não trará paz à Colômbia. Tanto as discussões sobre reforma agrária quanto a inserção política tem gerado uma forte reação no país por parte de grupos paramilitares e neoparamilitares, surgidos na década de 70 para combater as FARC.

A tentativa de por fim ao conflito de maneira pacífica tem aumentado os surtos de violência causados por tais grupos, que seriam financiados pelos grandes proprietários de terra. Assim, o fim pacífico das FARC leva a uma grande revolta por partes de outros grupos. Há também a questão do tráfico de drogas no país, que definitivamente não termina com as FARC. Sendo assim, a resolução do conflito com as FARC é um importante passo para o governo colombiano, mas está longe de encerrar problemas mais crônicos do país ou de significar uma Colômbia pacífica.

Bárbara Sabadin Bueno é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL, e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (sbueno.barbara@gmail.com).

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