A eleição presidencial realizada em sete de outubro de 2012 indicou que outro perfil de estratégias é compartilhado entre os partidos de oposição no momento atual, marcando aparentemente um novo cenário de disputa política na Venezuela, em que os atores da oposição, ao contrário do início do governo Chávez , passaram a atuar dentro das regras do jogo.

A ascensão de Chávez, em 1999, situa-se no contexto em que ficou evidente a inabilidade dos atores políticos em solucionar a grave crise econômica instaurada no país, no final da década de 1980, com a queda do preço do petróleo. Esta corroborou uma série de contrassensos intrínsecos ao regime político venezuelano, bem como, evidenciou a deterioração das condições socioeconômicas do país. Em razão destes fatos, aumentou na população a percepção de que os partidos tradicionais (Ação Democrática – AD e o Comitê de Organização Eleitoral Independente – COPEI) não mais seriam capazes de representá-los, o que foi demonstrado através do “voto castigo”, em que não se votava mais nos partidos tradicionais. Estes, por sua vez, perderam legitimidade no cenário político eleitoral.

Chávez captou o momento vivido pelo país e através de um discurso antipartidos e antissistema venceu as eleições de 1998. Já no primeiro ano de seu governo promoveu mudanças de caráter estrutural no que se refere ao sistema político, a exemplo, do referendo convocado para o estabelecimento de uma Assembleia Constituinte, a qual se encarregaria de redigir uma nova Carta Constitucional. O governo Chávez e a promulgação da Constituição de 1999, neste sentido, constituiu a ruptura com os atores políticos tradicionais, os quais monopolizavam o poder desde 1958.

A leitura que se faz desse momento, no que tange a ascensão de Chávez e a ruptura com o período anterior aponta que o desenrolar desse processo não ocorre sem confrontar interesses econômicos e políticos comprometidos com o status quo. Assim, as ações da oposição (incitação às greves, golpe de 2002, boicote das eleições parlamentares de 2005) no início do governo Chávez se justificaram pela busca incessante dos atores tradicionais em manter os privilégios que obtinham quando estavam no poder. Vê-se que, as estratégias da oposição demonstraram que para estes atores políticos o custo da “democracia chavista” eram maiores que os custos de derrubá-la (FUKUSHIMA, 2010). Como visto, inúmeras foram as tentativas para derrubar o governo Chávez. No entanto, a cada ação da oposição, o presidente Chávez saiu fortalecido com grande respaldo popular. A oposição à Chávez se mostrava neste momento débil e sem estratégias plausíveis para a disputa no cenário político, favorecendo o presidente a obter maioria no Congresso.

Todavia, o cenário de disputa política na Venezuela mostrou mudanças a partir de 2010. Este fato se confirmou quando nas eleições legislativas de setembro de 2010, os partidos opositores ao governo Chávez tiveram significativa participação no pleito eleitoral. Tal contexto nos leva a indagar: o porquê a oposição a Chávez, após inúmeras tentativas de derrubá-lo resolveu mudar de estratégia, entrando no jogo democrático?

Um dos indícios para a resposta a nossa questão poderia situar-se justamente na sequencia de vitórias do governo Chávez. Ou seja, as iniciativas da oposição em derrubar o presidente viram-se frustradas diante da sequência de vitórias do governo e, logo, os atores tradicionais perceberam que tinham seu espaço cada vez mais reduzido no cenário político. Tal indício nos parece plausível, mas o que fez a oposição se articular na chamada Mesa da Unidade Democrática (MUD) para disputar as eleições de 2010, bem como as eleições em 2012?

Uma análise minuciosa aponta que as perspectivas da oposição para o processo eleitoral de 2010 ganhou alento a partir do referendo de 2007, quando o partido chavista sofreu uma derrota em sua proposta de reformar a constituição. Tal fato foi visto pela oposição como um ponto de partida de que o presidente Chávez não era invencível. Mas, para a oposição ter chances no pleito eleitoral era preciso criar estratégias dentro do jogo democrático. Os partidos opositores, então, se coligaram na Mesa da Unidade Democrática (MUD), em que apontava um candidato único para cada circunscrição nas eleições parlamentares de 2010. Embora a oposição não tenha obtido maioria, se sentiu vitoriosa, ao fato de Chávez não ter obtido a maioria absoluta. Assim, as perspectivas para as eleições presidenciais de 2012 foram ainda maiores. Os partidos opositores articulados realizaram eleições primárias para a escolha de um único candidato para competir com Chávez. Henrique Capriles Radonski, eleito governador do importante estado de Miranda em 2008, saiu vitorioso das primárias como o candidato que teria chances de derrotar o então presidente Chávez.

O fato é que as eleições presidenciais realizadas no dia 07 de outubro de 2012 foram acirradas. O resultado foi a vitória de Chávez com 55% dos votos (7.963.061 votos) contra 44, 39% (6.426.286 votos) de Capriles. Vale ressaltar que nas eleições presidenciais de 2006 Chávez havia obtido 62,84% dos votos (CNE/Venezuela, 2012).             Embora Hugo Chávez tenha sido reeleito para governar a Venezuela até 2019, seu projeto político se viu ameaçado. O discurso de confrontação com a oposição precisará ser repensado, tendo em vista que este foi o grande lema utilizado por Capriles durante a campanha eleitoral, de uma Venezuela com paz e sem polarização.

Em suma, a entrada da oposição nas regras do jogo através da coligação de diversos partidos opositores constituem significativas perspectivas para o debate político democrático na Venezuela. Diante dos resultados das eleições presidenciais, torna ainda mais incerto e acirrado o cenário para as eleições regionais que deverá acontecer em dezembro deste ano.

 Referências Bibliográficas

CONSEJO NACIONAL ELECTORAL (2012). Divulgación Presidencial 2012. CNE, Caracas, Venezuela. Disponível em: [http://www.cne.gob.ve/resultado_presidencial_2012/r/1/reg_000000.html]. Acesso em: 08/10/2012.
FUKUSHIMA, Kátia Alves (2010). O governo Chávez e a luta pelo poder na Venezuela: uma análise dos atores políticos em conflito. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Ciência Política, São Carlos: UFSCar, 117p.
Kátia Alves Fukushima é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (katia_alves1981@yahoo.com.br).

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